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Uma pequena história de Halloween: A Última, por Gabriela Cambi

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“O medo assombra aqueles que têm medo de vencê-lo.”

A NÉVOA NEGRA INICIOU-SE DEVAGAR. Com uma mera sombra no asfalto frio, crescendo devagar como uma fumaça escura a espalhar-se perigosamente por toda a rua até mais de um metro. E foi assim que, no mesmo ritmo lento, a névoa trouxe a imagem de alguém indesejado. Começou pelos pés, cobertos com impecáveis sapatos sociais que brilhavam de tão limpos na mera luz da Lua. As pernas compridas sustentavam o tronco e os ombros largos, cobertos pelo sobretudo que mais lhe parecia uma capa, esvoaçando atrás de si com o vento que ele próprio produzia. O rosto oval e alvo expressava sua irritação, assim como os olhos esverdeados, com rugas na testa logo acima, e os lábios cheios e desenhados que se encontravam frisados.

— Finalmente, Melikith — outro homem exclamou, balançando uma das mãos para fazer a névoa negra dissipar-se de seu redor. Iria continuar a falar, porém Melikith, o que saíra da névoa, o agarrou pelo pescoço num único movimento.

— Você demorou — sussurrou-lhe com a voz grave. — Yalimma.

— Não se encontra bruxas de puro sangue tão facilmente hoje em dia — Yalimma ofegou, forçando as mãos de Melikith para baixo tentando soltar-se. Quando não conseguiu, fechou os olhos e concentrou-se para poder fazer a transportação, aparecendo atrás de Melikith e livrando-se do aperto de sua mão.

— Não me interessa — respirou fundo. — Você encontrou a bruxa?

— Ela está no final da rua — Yalimma sorriu, mostrando os perfeitos dentes brancos. — E mora sozinha.

Fora uma baixa risada conjunta, emanando crueldade suficiente para causar arrepios profundos na espinha de qualquer um. Melikith bateu de leve no rosto de Yalimma e compartilhou o sorriso de satisfação. O brilho de diversão e excitamento nos olhos de anjo do homem a sua frente quase se equiparava ao seu, mas apenas quase. O sentimento de satisfação que ele teria ao matar a décima primeira filha dos D’Ambra, uma das bruxas mais poderosas da linhagem, seria sem igual. Seu corpo inteiro, e até mesmo a alma que já não tinha, ansiava por isso com tanta força que chegava a doer. Só mais uma e livre para a eternidade.

Sob a luz da Lua das duas e meia da madrugada, Yalimma e Melikith caminharam direção à casa de Alisa D’Ambra, a bruxa marcada para morrer, para que a liberdade dos dois últimos Demônios do Medo fosse concedida e a Terra lhes pertencesse mais uma vez, todos os dias e horas, assim como era antes de serem aprisionados e condenados a retornar apenas em dias marcados e com avisos prévios que alertavam todas as bruxas.

A porta da casa era de madeira pura, adornada com desenhos representativos de cenas mitológicas feitas a mão e com vários amuletos pendurados e martelados contra o batente. Mas nem a própria Alisa parecia acreditar nos amuletos e feitiços de proteção. O medo dela emanava para fora da casa e preenchia os pulmões dos dois demônios com aquele odor maravilhoso.

— É hora da diversão — Yalimma deixou a risada ecoar em sua garganta. Ele e Melikith colocaram a mão na porta da casa, cada um em um dos extremos horizontais, e juntos sugaram a magia dos feitiços e dos amuletos, imunes contra os dois. Se a intenção de Alisa era se proteger e mantê-los afastados, ela tinha aprendido os feitiços errados. Assim que a porta foi aberta, um golpe de ar atingiu Yalimma, responsável pelo extremo superior, fazendo-o voar por mais de um metro até bater na parede da casa da frente. Melikith levantou-se em um salto e, quando viu a responsável pelo ataque ao seu parceiro, riu alto.

— Ora, ora — suspirou depois de parar de rir. — Vejam só a nossa velha amiga.

— Continua deplorável — ela respondeu.

— Bertha Meserve, sempre com a língua maior do que precisa — Melikith entrou na casa, observando sem piscar a mulher em sua frente. Continuava esguia, com a pele negra brilhante sob as luzes da sala. Os cachos delineados de seu cabelo escuro balançavam com a brisa que sua magia causava e os olhos, ah os olhos, estavam tão negros e raivosos que era prazeroso de se ver. Mais prazeroso ainda era o que estava por baixo de toda a pose. O tão maravilhoso medo. — Onde está a garota?

— Você não vai pegá-la — Bertha levantou o queixo.

— Onde ela está? — Yalimma sibilou da porta. Passou por Melikith e foi, lentamente, até Bertha. A bruxa não mexeu um músculo sequer e, bem, não era como se ela realmente pudesse se mexer. O principal poder dos dois era a ilusão. Ler os mais profundos medos da alma de uma pessoa e usar a mente da mesma para matá-la. Fazer as vítimas definharem no próprio assombro. E foi isso que Yalimma fez.

O medo por si só era poderoso. Paralisante. Grudava suas pernas no chão, bombeava um sangue gélido como a própria morte e te deixava indefesa, sem reflexos. Quando Yalimma passou os dedos pálidos pelo pescoço de Bertha, a mente da bruxa fora automaticamente invadida. Passou por lembranças e anseios, frases de feitiços e paranoias até a parte mais afastada da mente. Escondida no âmago do ser. Um medo tão profundo que fez a bruxa tremer pelo mero toque da lembrança.

— Você andou trocando de medo, minha querida — Yalimma sussurrou, aproximando a boca do ouvido de Bertha. — Olhe para frente, B. Aquela é a mamãe — fez uma pausa. Observou a bruxa erguer uma das mãos e, quando ela sorriu emocionada, começou a andar ao seu redor, parando atrás de seu corpo. — Veja a mamãe, B. Corra até ela, abrace-a — puxou o cabelo dela para o lado e beijou-lhe o ombro. — Mas algo está errado não é? Repare na mamãe. Naquela mancha escura crescente eu seu vestido. Sangue — subiu a boca pelo pescoço de Bertha enquanto sussurrava. — Mamãe está sangrando, Bertha — evitou sorrir quando o corpo da bruxa começou a tremer. — O que é aquela coisa preta saindo da boca dela? Ah sim, uma aranha.

— Não — a voz dela já não passava de um sussurro. Seu corpo inteiro tremia e, quando Yalimma intensificou a ilusão, ele foi obrigado a segurá-la se quisesse continuar brincando.

— São apenas aranhas, B. — Yalimma riu. — Milhares delas, saindo pela boca da mamãe. E chegando até você. Quanto mais você tentar se mexer para espantá-las, mais delas vão chegar até você, subindo por suas pernas, dentro das suas roupas, até seu rosto.

Foi o suficiente para fazê-la gritar. Deixando que ela fosse ao chão, Yalimma ouviu os gritos de pavor que Bertha deixava escapar pelos lábios. Um prazer para ele e Melikith e provavelmente o bastante para fazer Alisa aparecer. A outra estava ali, eles conseguiam sentir.

— Ela deve estar lá em cima — Melikith falou.

Menearam a cabeça e se separaram, um verificando o resto da casa e o outro indo para as escadas. Ali em cima, definitivamente. O cheiro do medo dela era muito forte. Melikith foi a passos lentos pelo corredor, respirando fundo sempre que passava por uma porta, até que parou na última do corredor. Alisa D’Ambra estava ali dentro, mas um feitiço de proteção — um certo, desta vez — bloqueava sua passagem. Este deve ter sido Bertha quem fez.

— Feitiço — Melikith virou-se para Yalimma, que se aproximara seguindo o faro. Virou-se novamente para a porta, usando seus poderes para imitar a voz de Bertha. — Alisa! Fuja!

Mesmo que a bruxa em questão estivesse na entrada, gritando de pânico, Melikith tomara cuidado suficiente para dizer as palavras nas pausas que Bertha fazia para respirar. Se Alisa fosse esperta, o que ele sabia que era, sairia dali em questão de segundos.

Dito e feito.

Alisa mal viu os dois homens quando abriu a porta para sair do quarto e descer correndo. Mas seus cabelos compridos e ruivos foram puxados por Melikith, trazendo-a de volta para perto dele.

— Tem os olhos de sua mãe — disse quando a prensou contra a parede. — Pena que eu os arranquei antes de observá-los melhor.

— Me solte — Alisa pediu, mas era inútil. Ele apenas a prensou mais forte contra a parede, fazendo-a perder o ar por alguns segundos.

— Alisa… Alisa — Melikith sussurrou. Encarou os marejados olhos azuis da garota e passou a mão por seu rosto fino e tão pálido quanto o de Yalimma. — Shh, lutar é inútil. Nem mesmo sua preciosa protetora ali em baixo conseguiu. Renda-se e será mais fácil.

Com a mão que antes usara para acariciá-la, Melikith invocou sua conhecida névoa negra e fez ficar sólida e com um formato único de adaga, cuja lâmina era torta e extremamente afiada. Colocou a ponta da arma na clavícula esquerda de Alisa, maravilhosamente descoberta graças ao tempo quente que a obrigara a usar uma roupa de alças finas, e fez uma linha escarlate por todo o colo, ignorando os atritos que Alisa fazia para tentar se soltar.

— Não facilite o meu trabalho — praticamente rosnou quando Alisa quase o empurrara e tivera uma visão do terror em seus olhos. — O sangue da bruxa agora é meu — beijou-lhe o pescoço e foi descendo até encostar os lábios no sangue que saía do corte que fizera. O sangue da décima primeira filha D’Ambra agora corria por suas veias. Conseguia até ouvir suas correntes invisíveis serem partidas. — Sua vez, irmão.

Deu espaço para Yalimma repetir suas ações, mas o outro não teve tempo para completar seu ritual. Mesmo com metade do corpo de Melikith apertando o seu contra a parede e suas faltas de ar, Alisa tinha as mãos livres e as utilizou bem. Recitou o feitiço que Bertha a havia ensinado horas antes e o mirou em Yalimma, rezando para que o selamento houvesse funcionado. Conseguira livrar-se de um, mas o mais forte deles… Ah, aquele fugira em sua névoa negra. Mas agora ele tinha o seu sangue e lhe era permitido o vagar na Terra.

E Melikith não pararia até que ela estivesse morta.

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4 Comments

  • Reply
    Renata
    March 7, 2017 at 11:32 pm

    Muito boa a história me prendeu do inicio ao fim e deixou um gostinho de quero mais. Adoro historias de terror. Parabéns, texto muito bem escrito.

    • Reply
      Cambs
      March 13, 2017 at 4:39 pm

      Fico feliz que tenha gostado e muito obrigada pelo comentário <3

  • Reply
    Curso de Fotografia Em Fortaleza
    February 10, 2018 at 2:59 am

    Que texto! Fiquei presa do início ao fim, este terror simplesmente me encanta! Esperando as próximas! Você tem um grande talento! Parabéns!
    Curso de Fotografia Em Fortaleza recently posted..Intro Canal Minha Mãe Eh HardcoreMy Profile

    • Reply
      Cambs
      February 19, 2018 at 5:32 pm

      Aaaaaa fico feliz que tenha gostado! Muito obrigada <3

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