Televisão

Sobre Lucifer, redenção e segundas chances

No início desse ano estreou na FOX a série Lúcifer, inspirada no personagem Lucifer Morningstar da DC, originalmente concebido por Neil Gaiman (claro) na série de HQ Sandman.

A premissa da história é que Lucifer, cansado do inferno, decide tirar umas férias em Los Angeles e viver com os humanos. Lá, ele abre a boate LUX e, com seu demônio de estimação Maze, segue uma vida pecaminosa e livre de culpas. Ele, como ser celestial, tem um poder… peculiar: é capaz de extrair das pessoas seus segredos mais profundos.

Lucifer

Tananana lalalá

Tudo vai de acordo com o plano até ele conhecer a detetive Chloe Decker, uma policial que, misteriosamente é imune a todos os seus encantos. Mais por curiosidade do que por qualquer outra coisa (aham), ele decide se aliar a ela na esperança de poder fazer aquilo que ele faz de melhor: punir as pessoas que merecem ser punidas.

E então eu poderia prosseguir listando motivos pelos quais você deveria assistir a série, como por exemplo o fato de a trilha sonora ser maravilhosa:

Ou de como os atores são pessoas adoráveis que vão te fazer dar um sorrisinho cada vez que você abrir o instagram:

 

Ou o twitter:


 

Ou seja lá de onde for que essa foto foi tirada:

I dreamed a dream inside my miiiiind

Ou mesmo de como a série é engraçada e tem os melhores trocadilhos:

lucifer_2

lucifer_3

Mas não. Hoje eu estou aqui para falar de uma coisa séria.
Então vamos lá.

Senta que lá vem história

Sempre que eu menciono Lucifer em público – e trust me, isso acontece com uma frequência ligeiramente não-saudável – duas coisas acontecem: 1) alguém olha para a minha cara como se eu fizesse parte de uma seita satânica; ou 2) alguém olha para a minha cara como se eu fizesse parte de uma seita satânica e acrescenta “Nossa, eu acho isso muito errado. Idolatrar o diabo.”

Então vamos com calma aí.

Em primeiro lugar, vamos esclarecer uma coisa: cada um tem o direito de acreditar no que quiser, como quiser, quando quiser e expressar sua opinião sobre o assunto de forma civilizada. Com ênfase no civilizada. De fato isso é bastante recomendável para que, sabe, as pessoas não matem umas as outras.

A questão é que, se você é cristão, chances are, Lucifer, que atende também pelos codinomes de Diabo, Satã, Capiroto, Belzebu etc. tem uma reputação bastante questionável no seu entender e é quase uma entidade-que-não-deve-ser-nomeada. Eu entendo. It’s fine.

RAWR

RAWR

Mas a parte interessante disso tudo é que a série Lucifer, do modo como foi desenhada, em momento algum idolatra a figura do diabo ou o que ela representa. O que a série fez foi pegar o personagem mais irredimível da história ocidental e colocá-lo em um caminho de redenção. AND THAT’S A GOOD THING.

Lucifer começa sua trajetória como o personagem que nós “conhecemos”: folgado, pecador, egoísta, sem dar a mínima para humanidade em geral e querendo basicamente se divertir e punir quem ele acha que merece ser punido. Na realidade, nem é tão diferente assim de algumas pessoas, se você parar para pensar.

Porém, é depois que ele (e a Maze também) conhece Chloe & cia. e passa a ter mais contato com sua “humanidade”, além de frequentar uma psicóloga – pois é -, que ele começa a refletir sobre sua existência, suas vulnerabilidades, Deus, família e, de quebra, ainda nos faz refletir também.

 

Por que eles sempre me culpam por suas pequenas quedas?

Quer dizer, por que eles sempre me culpam por todos seus pequenos fracassos?

Lucifer rezando

Lucifer rezando.
Okay? Okay.

 

Arcos de redenção são o meu fraco. Me dê um personagem historicamente mau e problemático, faça com que ele sofra, reflita, sofra mais um pouco, reflita de novo e comece a ver a vida dele e a dos outros por ângulo e BOOM, I’m sold. São normalmente essas histórias que fazem com quem nós nos simpatizemos com pessoas que nunca imaginamos e nos identifiquemos com elas.

Todo mundo já se sentiu culpado ou um ser humano terrível pelo menos uma vez na vida (né? né?) e é como se Lúcifer espelhasse, meio que de uma vez, esses momentos esporádicos de nossas vidas. Como o próprio Tom Ellis (esse moço que faz o papel do Lúcifer, God bless) disse um vez em uma entrevista:

Nós não estamos tentando ditar nada. Não é um grande debate teológico. É divertido. Nós estamos usando Lúcifer para contar uma nova história de uma forma divertida. Se há alguma coisa no coração disso tudo, algum tipo de mensagem, é que nós devemos olhar para nós mesmos e nos responsabilizarmos por nossas ações, ao invés de tentar culpar os outros.

Tom Ellis, um ser humano sensato.

E a parte mais tocante disso é que ele, o próprio diabo, aquele que deveria ser a personificação de todo o mal do mundo, ganha uma segunda chance. Lúcifer passa a desenvolver sentimentos que ele mesmo não entende, como culpa, compaixão, ciúmes, desespero e, na maioria das vezes, não sabe como lidar com isso.

Em todo lugar que eu vou alguém se machuca.

Aonde quer que eu vá alguém se machuca.

E é nesse ponto que você passa a torcer por ele e pela Maze, e que a humanidade dos dois é mais forte que o fato deles serem o diabo, ou um demônio, ou o que seja. Lucifer não é uma série sobre satanismo, não é uma série que tenta nem ser religiosa ou bater frente a frente com qualquer crença que seja. É uma série sobre perdão, esperança, aceitação e confiança. É um série sobre segundas chances.

Eles são provas de que não importa quem você seja, onde você esteja, ou o quer que você já tenha feito na vida, é possível começar de novo. Afinal de contas, se Lúcifer é capaz de se redimir, qualquer um de nós também é.

And that’s a good thing.

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