Coluna

Sobre Inspirações – Parte 1

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Quando nós pensamos em escrever um romance, normalmente a primeira coisa que vem a nossa mente é uma versão um tanto quanto romantizada ou fetichizada do processo: nós vamos nos sentar em uma cadeira confortável, de frente para o computador (ou, para os mais tradicionais, com um caderno novo e perfeito em branco nas mãos), vamos beber cappuccino enrolados em um cobertor bem quentinho, enquanto a chuva cai lá fora do céu nublado feito chumbo. E então as palavras vão sair do nosso cérebro, correr pelos nossos dedos e preencher as páginas magica e perfeitamente, com as melhores frases já imaginadas pela humanidade, na história mais promissora já escrita.

Mas, sejamos sinceros: não é bem assim que a coisa funciona.

Escrever requer inspiração, certo, mas requer muito mais trabalho e é um processo muito menos mágico do que a gente imagina. É preciso passar horas rabiscando frases que muitas vezes não estão certas, descrevendo personagens que não existem, tentando fazer tudo se encaixar e, no processo, ainda é preciso fazer a história atraente o suficiente para que você e seu leitor queiram terminar o livro sem desenvolver nenhum instinto suicida no meio da coisa toda.

Não é fácil.

Mas, então, como começar? De onde vem a inspiração?

A inspiração é parte integral da criatividade e da imaginação e, às vezes, é preciso se distanciar da imaginação dos outros para encontrar a sua própria. Existem alguns aspectos da imaginação que todo escritor deve, se ainda não está familiarizado com eles, exercitar:

 

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CURIOSIDADE: A curiosidade é a capacidade de estar sempre interessado no mundo e nas pessoas. As pessoas curiosas veem o mundo como se fossem crianças, tentando captar cada nuance e se deslumbrando com cada detalhe. É comum achar que no dia-a-dia não há nada que possa ser considerado excepcional ou digno de atenção, mas existem alguns truques para exercitar a criatividade:

Tente pegar um caminho diferente para a escola, faculdade ou trabalho e preste atenção nas casas (alguma delas chama sua atenção? Por quê?), nos carros (o fluxo muda durante o dia? Se todos os carros estivessem indo na mesma direção, para onde eles estariam indo? Por quê?), nas pessoas (escolha uma ao acaso e, baseado somente no que ela está vestindo e no modo como você a vê, tente inventar uma história para ela). Se você fizer isso, vai perceber que sempre, em todo lugar, há alguma coisa para estimular a sua criatividade.

 

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RECEPTIVIDADE: Ser receptivo significa, principalmente, aceitar e buscar outros pontos de vista. Só porque você acredita piamente que o verde a cor que salvará a humanidade, isso não necessariamente é verdade. Mais do que isso, se uma pessoa acha que o roxo é que a cor que salvará a humanidade, é interessante ouvir e entender esse outro lado. Personagens são diferentes, contraditórios, misteriosos. No seu universo fictício, nem todas as pessoas vão concordar com as mesmas coisas, e ser receptivo às convicções e opiniões alheias vai te ajudar a ver tudo com mais de uma perspectiva, o que é fundamental para a criação de personagens complexos, realistas e diferentes entre si.

 

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PAIXÃO: Essa é uma regra básica – se você não é apaixonado por aquilo que escreve, então o que você escreve não vale a pena ser escrito. A paixão é o que põe sua criatividade em movimento, é o que te faz querer sentar no computador todos os dias, é que te faz terminar sua história. Se você começa alguma coisa e não se sente motivado, não se sinta obrigado a terminá-la. Às vezes sua ideia inicial é, mais para frente, transformada e transplantada para um outro trabalho, esse sim aquele que vai te dar cócegas nos dedos e te fazer escrever loucamente. Pode parecer um pouco uma obsessão, mas a obsessão é também uma parte do trabalho criativo.

 

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MOMENTO: Outra coisa importante é aprender a viver o momento porque, se você vive pensando em outro lugar ou tempo, perde detalhes da vida que podem ser essenciais para o seu trabalho. Escritores precisam de estímulos do mundo externo e você nunca sabe quando uma observação de alguém, uma piada ou um acidente do dia-a-dia podem ir parar no meio da sua saga de fantasia cyberpunk com coelhos voadores.

 

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CICATRIZES: Esse é um tópico um pouco mais delicado, mas é também essencial. Existe um exercício de identidade criativa (um que fiz em uma disciplina na faculdade) em que nós tínhamos que responder uma série de perguntas e, entre elas, algumas eram bastante desagradáveis. Por exemplo, pessoas que você não gosta, situações que marcaram sua vida de forma negativa, seus medos, etc. Isso é desconfortável porque nós não queremos tocar nessas coisas, mas, quando o fazemos, encontramos temas que nos intrigam, que nos movem, que nos fazem questionar as coisas. Experiências traumáticas ou desagradáveis têm a sua importância e escrever sobre elas nos ajuda a superá-las. Mais que isso, são uma fonte riquíssima de situações e conflitos – e, sem conflitos, sabemos que não existe história.

 

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É claro que esse é só um começo, mas você já pode ir exercitando sua imaginação e criatividade. Na próxima parte veremos mais dicas sobre criatividade e ainda como lidar com o temido bloqueio de escritor.

E depois de falar mais um pouco mais sobre inspiração… Aí é hora de colocar a mão na massa de verdade.

Até lá!

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1 Comment

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    Links Radioativos #18 | Abraço Radioativo
    12/06/2016 at 9:53 am

    […] Sobre Inspirações – Parte 1 […]

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