Literatura

Saving Francesca, Melina Marchetta

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Chega um certo momento da sua vida que você se dá conta de que não consegue mais, exatamente, encaixar um Young Adult na sua lista de leitura porque simplesmente não funciona. A coisa toda parece artificial demais, longe da sua realidade demais, pura demais.

Mas não é exatamente esse o propósito da leitura, no fim?

Não quero entrar nesses detalhes agora, é só que, de vez em quando, a gente se pega revirando os olhos pra certos tipos de livros e perde uma boa oportunidade de se encantar com uma história que pode muito bem mudar uma parte da sua vida.

E sabe o que mais me agrade em Young Adult? É que não há uma pretenção em ridicularizar os sentimentos dos jovens, durante essa fase perturbadora onde tentamos provar a todo custo que somos diferentes de todo mundo em algum aspecto. A gente pensa que isso é só uma fase, também. Mas esse sentimento vai existir durante toda a nossa vida. Quer a gente queira ou não. E era exatamente isso que eu tinha esquecido e Saving Francesca me lembrou. Que é ok você se sentir pra baixo e fora de lugar de vez em quando. É ok achar que nada no mundo corresponde ao que você está sentindo porque isso é bem verdade. O que não está ok é deixar as coisas acontecerem sem fazer nada a respeito. É o que Francesca faz. Aos trancos e barrancos, no seu jeito meio desengonçado e quase sem perceber.

A história deste livro começa em um momento um pouco complicado. Mia, a mãe de Francesca, conhecida por sua alegria e honestidades cativantes não quer mais levantar da cama. As músicas dos anos oitenta que costumavam acordar a casa da família Spinelli não mais vagam por ali. Não bastasse esse comportamento “esquisito” de sua mãe, Frankie está começando em uma nova escola particular que acabou de começar a aceitar meninas para o décimo primeiro ano (algo como Junior Year ou o nosso segundo ano do colegial). Sua antiga escola e suas amigas estão longe e ela precisa se adaptar não só a conviver com um bando de meninos que acham que arrotar no corredor é a piada mais legal do mundo, mas com o machismo indisciplinar dos próprios docentes.

“I just want it to go back to the way it was.”
“It’ll never go back to the way it was, Frankie. But you have to make sure it goes forward.”

Se adaptar em uma escola nova, check. Não ter seus antigos amigos ao seu lado, check. Ser enquadrada como a esquisita, check. Sua família ter se tornado disfuncional de uma hora para outra, check. Sua mãe estar doente, check. Isso poderia muito bem ser um dramalhão mexicano digno de Malhação. Mas não é bem assim.

“I can’t believe I said it out loud. The truth doesn’t set you free, you know. It makes you feel awkward and embarrassed and defenseless and red in the face and horrified and petrified and vulnerable. But free? I don’t feel free. I feel like shit.”

Não é mentira pra ninguém–e eu não estou tentando esconder esse fato– de que eu comecei essa leitura com um pé atrás. Eu tinha a intenção de ler algo rápido e que fosse levantar o meu humor, pois tinha acabado de sair de uma leitura um tanto pesada. Se eu encontrei isso em Saving Francesca? Bom, sim. Mas o que mais me agradou não foi somente o humor escondido ou um romance adolescente que me fez suspirar. Porque esse livro é bem mais do que isso. O romance mesmo fica em segundo lugar aqui. Talvez você se surpreenda com isso mas a família, amizade e a busca pela identidade vêm em primeiro lugar. O romance é somente uma consequência.

“You go shake your foundations, Will. I think it’s about time I saved myself.”

E oh, deixe-me falar sobre os personagens. Eu adorei, simplesmente adorei, o quão bem construídos eles são. Nenhum esteriótipo exagerado. E olha que nos surpreendemos com a quantidade de pessoas que aparecem. Eu mesma fiquei confusa em alguns momentos, pois esquecia o nome de alguns. Mas, uma vez que você os conhece–junto da Frankie–eles se tornam inesquecíveis. Várias vezes eu me pegava querendo pular para dentro do livro e fazer aquele grupo ser meu amigo também. Mas, então, eu reparava que, mesmo ficcionais, eles continham partes de todos os meus melhores amigos e isso me fez sentir um pouquinho próxima de todos eles. Um pouquinho ainda mais.

As considerações finais, pois esse texto ficou mais longo do que o esperado, são de que esse livro é realmente o que propõe: uma leitura leve, divertida. E pode ser muito mais se você se permitir. Aconselho pra quem gostou de Sábado à Noite, da Babi Dewet.

Infelizmente ainda não temos uma previsão de quando ele será lançado aqui no Brasil, mas se você se aventura no inglês, aconselho a leitura.

Informações


Título: Saving Francesca
Autor: Melina Marchetta
Editora/Selo: Puffin Books
Nº de Páginas: 256
Edição: 1ª – 2003
Preço: US$7,68
Classificação: ★★★★☆

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2 Comments

  • Reply
    Isabella Pina
    30/08/2013 at 1:10 am

    Já conhecia o livro, mas só de nome… Mas eu já tinha ouvido várias pessoas elogiando muito o livro, mesmo nem sabendo a história… Na verdade, acho que li a resenha de uma companion novel desse livro, não ele exatamente.
    Parece ser uma história bem fofa, eu pelo menos ameeeei os quotes /cute Além disso, o que mais me chamou é o foco da história não ser o romance, como normalmente é, isso me fez ficar bem curiosa.
    Como leio em inglês relativamente bem, vou acatar seu conselho e ler o mais rápido possível Saving Francesca!
    Beijos!
    Isa.

  • Reply
    Patricia Lima
    30/08/2013 at 11:02 pm

    Nunca vi até hoje resenhas negativas desse livro e é o que me faz ter muita vontade de lê-lo. Na verdade, parece que todos os livros dessa autora são bons. Fico na esperança de alguma editora se interessar.
    Ótima resenha /blink

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