Literatura

Precisamos Falar Sobre o Kevin, Lionel Shriver

Sabe quando você julga um livro pela capa e acaba quebrando a cara? Isso aconteceu comigo, mas de uma maneira positiva. A 1ª edição de “Precisamos falar sobre o Kevin” tem uma capa tenebrosa, sendo o tipo de livro que eu passaria longe quando fosse a uma livraria, mas após assistir a adaptação cinematográfica, resolvi dar uma chance… e o fato de ter uma nova edição com a capa do filme ajudou.

Mas afinal do que fala esse livro? Quem é Kevin? Bem, Lionel Shriver escreveu uma história não convencional. É possível uma mãe odiar seu filho? Essa é uma das grandes questões da nossa protagonista, Eva Khatchadourian, uma mulher independente e viajada, que tinha um ótimo relacionamento com seu marido, Franklin, e acredite, ela não queria ter um bebê. Eva tinha um verdadeiro pavor de ter um filho. Mas ela gostava de desafios, então, por que não correr o risco? Após vivenciar uma gravidez sem muitas liberdades para comer, beber e dançar, ela não sentia nada pelo feto em seu ventre e esperava que no momento do nascimento, o milagre da maternidade acontecesse e ela passasse a amar seu primeiro filho. Estranhamente, Kevin, nos primeiros minutos de vida, rejeitou o peito da mãe e abriu o maior berreiro até parar nos braços do pai. E foi assim que se deu início a intrigante relação de mãe e filho abordada neste livro.

Uma das coisas que pensei durante minha leitura foi “o homem nasce mau ou se torna mau?”. Pois, para mim, ficou claro desde o início que Kevin sempre foi um menino malvado. Se você assistiu ao filme, só viu metade do que ele é capaz de fazer. Como a narrativa é feita pela mãe dele, Eva, através de cartas para o marido, nós não temos 100% de certeza se coisas realmente aconteceram como ela disse, pois Eva não presenciou certos momentos, apenas julgou pelo que já conhecia do Kevin. E ela poderia muito bem interpretar mal o garoto, certo? Afinal, ela mesma chega a afirmar que sempre pensa o pior do filho.

Desde a primeira página, Eva faz essa análise do relacionamento deles. Para entender o que levou Kevin a fazer o que fez. Onde ela poderia ter errado? A culpa era dela? E você leitor, o que pensa a respeito? Ative seu psicólogo interior.

Não sei se é possível que exista uma criança tão inteligente e disposta a desafiar a mãe desde cedo, como o Kevin fez com Eva. Ele é simplesmente genial e malévolo. É de dar medo. Não é à toa que não tinha amigos. Mas mesmo com todo o ódio entre mãe e filho, acredito que no fundo eles se amavam. É preciso gostar de uma pessoa para implicar tanto assim.

O livro, que passou praticamente o mês inteiro nos meus braços, tem uma narrativa fácil de ler, sendo que por ser uma história um pouco densa, pode ser que não seja uma leitura rápida. Quando terminei a última página bateu um sentimento de tristeza, pois você acaba querendo mais.

Shriver acertou em cheio ao lidar com um assunto banal e seguir um caminho completamente diferente do esperado. Você irá pensar em várias teorias e nenhuma delas será a certa. “Precisamos falar sobre o Kevin” é um livro que irá te chocar. Para quem julgaria como “não faz meu tipo”, acabou se tornando um dos meus livros preferidos.

Quotes

“Antes de ser mãe, eu imaginava que ter uma criança pequena do lado seria mais ou menos como ser dona de um cãozinho alegre e companheiro, mas nosso filho tinha presença muito mais densa que qualquer bicho dês estimação.” Pg 137

“É sempre culpa da mãe, não é verdade? […] Aquele menino deu errado porque a mãe dele bebia, ou se drogava. Ela deixava o garoto solto na rua, ela não ensinou a ele o que é certo e o que é errado. Nunca estava em casa quando ele voltava da escola. Ninguém nunca diz que o pai era um bêbado, ou que o pai nunca estava em casa quando o garoto voltava da escola. E ninguém jamais diz que alguns desses garotos não prestam e pronto. […]” Pg 199

“Haverá momentos em que você vai se sentir muito entediado, sem nada para fazer, e nessas ocasiões poderá ler um livro. Até mesmo num trem ou num ponto de ônibus.”
“E se o livro for chato?”
“Você pega outro. Há mais livros do que tempo para ler todos eles, de modo que nunca vai faltar o que ler.”
“E se todos forem chatos?”
“Acho que isso não seria possível, Kevin.” Pg 226

“Não estou fazendo papel nenhum. Eu sou o papel”, ele disse, enfezado. “O Brad Pitte é que devia me interpretar.”
“Não seja ridículo”, falei. “Brad Pitt já está velho demais para fazer o papel de um pirralho no ensino médio. […]”
“Contanto que não seja o DiCaprio”, Kevin resmungou. “Ele é um pateta.” Pg 286

Informações

Título: Precisamos falar sobre o Kevin
Autor: Lionel Shriver
Número de Páginas: 464
Edição: 2ª – 2012
Editora: Intrínseca
Preço: R$ 34,90
Classificação: ★★★★★

 

 

 

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7 Comments

  • Reply
    Gabriela
    02/05/2012 at 5:29 pm

    Esse é com certeza um dos meus livros favoritos. Nunca senti tanto ódio de um personagem quanto senti de Kevin. Entre todas as questões que o livro naturalmente aborda, a que mais martelou na minha cabeça foi “seria culpa de Eva o filho dela ser assim?”. Será que ao rejeitar o bebê enquanto ele ainda estava na sua barriga interferiu, de alguma forma, na personalidade do filho? Será que se ela tivesse amado a idéia de estar grávida, ter se animado com a gravidez, ter amado a criança antes mesmo dela nascer teria feito alguma diferença?
    Estranho, né? Um dos livros mais intrigantes. E tantas outras perguntas, como o quanto do que Eva contou era verdade e o quanto era imaginação? E quanto à cegueira da filha? E, a mais terrível de todas as perguntas: por quê?
    Ótima resenha, parabéns Thanny! =)

  • Reply
    Byzinha
    02/05/2012 at 6:25 pm

    A outra capa do livro me dava medo também UIAUIAIUAHIUAHIUA
    Gente, o filme é muito bom, mas realmente não tinha passado essa coisa inicial dela não querer o bebê desde o início. Eu sempre quis mas não quis ler. Continuo querendo mas não querendo. Quem sabe um dia?

  • Reply
    Ana Beatriz
    02/05/2012 at 11:42 pm

    Eu amei a proposta do filme e vi que essa atriz recebeu muitos elogios. Normalmente, também não leio esse tipo de livro, mas após ler “Os 13 por quês” e simplesmente me viciar, gostar demais da história e do modo como é narrada, apostei em outros do mesmo gênero, daqueles que te deixam um longo tempo pensando nos personagens quando termina.
    Beijos.

  • Reply
    Juh Claro
    03/05/2012 at 7:03 pm

    Já tem um bom tempo que eu quero ler esse livro, li algumas resenhas e a curiosidade foi aumentando – a sua foi uma delas, apesar de um certo receio. Pode ser algo bem idiota, mas eu morro de medo do meu filho não gostar de mim ou algo do tipo, já pensou? Acho que se eu ler esse livro não vou querer ter filho nenhum HUASHUASUHA
    De qualquer forma, assim que possível, darei uma chance :)

    • Reply
      thanny
      03/05/2012 at 7:05 pm

      Juh, eu nunca tinha pensado nessa possibilidade até ler esse livro. Mas é uma leitura que vale a pena… mesmo sendo um tanto assustadora para quem pretende ser mãe um dia rs

  • Reply
    Maccky
    03/05/2012 at 11:44 pm

    Morro de vontade de ler este livro, parece ser beem ‘sinistro’, o tipo de livro que te prende de uma maneira muito boa, apesar de ser sobre um tema bem polemico…

  • Reply
    Davi Ferreira
    19/05/2012 at 6:02 pm

    Ainda não tive a importunidade ler esse , mais já está na minha lista de desejados a muito tempo. Quero logo ver o filme também. Sua resenha está ótima !!

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