Cinema

Porco Rosso, Estúdio Ghibli

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Hayao Miyazaki ficou conhecido mundialmente como “rei da animação” japonesa e não foi à toa. Sob a responsabilidade do Estúdio Ghibli, Myiazaki e sua turma produziram um conjunto vasto de obras cinematográficas que arrebataram uma legião de fãs a nível mundial. Falar das produções do Ghibli e de Hayao Miyazaki não é apenas se restringir ao escopo da cultura “otaku”. O que isso quer dizer?! Quer dizer que não apenas adoradores das produções nipônicas são apreciadores das produções do Estúdio Ghibli, onde o estúdio se tornou uma referência na produção de animações no mundo inteiro.

Mas gostaria de centralizar a minha resenha não no que Estúdio Ghibli passou a significar para a animação mundial. O que pretendo aqui é discorrer sobre uma das animações que muitos afirmam ser uma das mais “fracas” produzidas pelo Miyazaki. Minha mãe disse que vim ao mundo para desconstruir “consensos”, então vamos seguir adiante mantendo a meta.

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Porco Rosso (Kurenai no buta), no Brasil Porco Rosso – O último Herói Romântico, é o 6º filme produzido pelo Estúdio Ghibli e foi lançado no ano de 1992. A estória centra-se no personagem Marco Borgat, piloto de avião, veterano da primeira Guerra Mundial, que devido as circunstâncias acaba se tornando um caçador de recompensas e ganha a vida combatendo piratas aéreos (Mamma Iuto Gang) no mar Adriático de uma Itália que dava os primeiros passos rumo ao regime fascista. O período é a década de 20, Borgat é conhecido como Porco Rosso um homem amaldiçoado que possui uma cabeça de porco. A sua hegemonia aérea passa a correr perigo quando o americano Donald Curtis, exímio piloto e recém contratado pelos piratas, começa a rivalizar com Rosso na tentativa de mostrar quem é o melhor piloto daquela região. A animação foi desenvolvida a partir de um mangá desenhado pelo próprio Miyazaki e publicado em uma revista de aeromodelismo, como também seria uma homenagem do diretor  ao personagem de Humphrey Bogart em “Casablanca” (1942).

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No desenrolar da narrativa somos apresentados a uma Itália que vive um período de recensão econômica, caminhando assim para um regime de centralização do poder na mão do Estado. Uma Itália que ainda vive sob o espectro da primeira grande guerra. Miyazaki faz questão de mostrar a postura que as mulheres assumem nesse período de crise. São mulheres que passam a ocupar posições que outrora eram somente direcionadas a homens. Uma grande característica das obras do diretor são personagens femininas muito bem desenvolvidas, centrais, ativas, donas de si, diferentemente da maioria das outras produções das animações japonesas. Gina, a dona do Hotel Adriano, como Fio Piccolo, engenheira de hidroaviões, exemplificam bem esse ponto na obra de Miyazaki. São mulheres que não se limitam em assumir apenas espaços que lhe são dados socialmente. Elas estão ali exatamente para desconstruir esses tipos de argumentos, que venhamos e convenhamos, aqui e ali nós ouvimos reverberar em nossas interações sociais mais básicas.

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Talvez o que traga um  pouco de estranheza aos que acompanham as produções do estúdio seja essa “atmosfera” mais realista presente na obra (mesmo o personagem principal sendo um homem com cabeça de porco) somado à grandes sequências de ação. Esse é um dos pontos mais fortes do filme: as cenas de ação. São planos de sequências munidos de cores quentes, leveza e acrobacias audazes. Os personagens também são todos muito bem apresentandos possuindo um carisma “in natura”, de Rosso que não se assume enquanto herói mesmo o sendo, aos atrapalhados piratas da Mamma Iuto, o egocêntrico Donald Curtis, passando pela sábia Gina e indo de encontro a juventude audaciosa da Fio Piccolo. Mesmo a ação sendo um dos pontos mais perceptíveis em toda a obra, não podemos em momento algum sobrepujar a riqueza própria ao período em que esta aventura se passa assim como o pluralismo de personalidades que nos são apresentadas na obra. Miyazaki em momento algum tenta obliterar os elementos sociais próprios ao período, na verdade o diretor os expõe muito bem fazendo com que todo o “plot” seja dotado de uma solidez inquestionável. Isso tudo aliado a uma trilha sonora lindíssima, organizada por Joe Hisaishi, que torna a ambientação da obra muito mais rica.

Lembrando que a produção dessa animação foi totalmente manufaturada, tendo em vista o período em que fora produzida: o ano de 1992. Nada de computação gráfica ou recursos muito comuns nas produções do gênero nos dias de hoje. Os movimentos são todos muito leves, dinâmicos, onde a impressão é que aquelas personagens e situações não estão dentro de uma dimensão em 2D. Aquele universo onde pilotos de hidroaviões se degladeiam no mar Adriático da uma Itália que tenta se reerguer parece em toda momento dotados de literalidade, fazendo com que o espectador em passe a aceitar por vezes aquelas imagens e narrativas como dados puramente históricos. Ficção e realidade se confundem em uma bela sinfonia sequencial. Como o próprio filme nos sugere logo de introdução é preciso imaginarmos uma Itália dominada pelas peleias constantes entre pilotos de hidroaviões e piratas aéreos.

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Existe todo um ar de mistério sobre o porque de Marco ter sido amaldiçoado. Nem mesmo o próprio Marco sabe qual seria o motivo dessa maldição. E é interessante a apresentação da trajetória do personagem nessa obra de Miyazaki. De resignado veterano de guerra a herói clássico. Apesar de ter perdido sua humanidade, Porco Rosso se mostra um sujeito imbuído de valores que o tornam cada vez mais humano a cada posicionamento tomado durante o desenvolvimento da película. Os elementos mágicos não são os elementos principais como na produções mais famosas do estúdio, o que não quer dizer que eles não estejam lá. Esse caráter distintivo das demais obras  a torna interessante, isto é, eles conseguiram fugir um pouco das questões sempre abordadas em suas produções. Mesmo sendo uma obra ficcional, dotada de elementos inexistentes, ela mantém uma verossimilhança com temas reais, tanto de caráteres éticos como sociais.

Após essa breve apresentação da “película” vocês devem estar se perguntando porque Porco Rosso é considerada uma das animações menos cativantes do Estúdio Ghibli. Eu também me fiz essa mesma pergunta momentos depois  de me entregar às aventuras do porco alado. E o bom da vida é essa coisa de “tirarmos nossas próprias conclusões” não nos entregando aos “consensos” sobre determinadas obras. Lembrando que a obra de Miyazaki é vastíssima e deliciosa de se ver.  Mesmo que você acabe não gostando do que poderá encontrar em Porco Rosso, a experiência com a obra vale muito à pena, principalmente como aprendizado. Missão dada é missão cumprida e até a próxima pessoal.

ficha técnica

 

Título original: Kurenai no buta
Direção: Hayao Miyazaki
Roteiro: Hayao Miyazaki
Trilha sonora: Joe Hisaishi
Duração: 1h e 34m
País: Japão
Gênero: Animação/Aventura
Classificação: ★★★★★

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