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Por que ainda é difícil falar sobre racismo?

Alicia Keys, como eu, é misturadinha café com leite. Como eu, ela tem o “privilégio” de parecer mais branca do que negra por causa do seu tom de pele. Mas Alicia Keys, como eu, é negra.

formation beyoncé racismo

Recentemente, Alicia participou na série Empire (FOX) interpretando uma cantora pop chamada Skye Summers que, como ela e como eu, é misturadinha café com leite. Seu arco central era em volta de seu relacionamento e influência com Jamal Lyon e como ela tinha medo de expor sua verdade para seu público por causa de como seriam as reações: que ela conhecia suas raízes como pessoa de cor, abraçava esse lado e queria lutar por justiça racial, algo que muito dos seus fãs não receberia de bom grado. Encantado com esse novo lado que estava descobrindo de uma de suas artistas preferidas, Jamal incentivou-a a se abrir e juntos eles compuseram “Powerful”, mas quando eles se apresentaram pela primeira vez a reação foi interessante de um jeito ruim – Skye foi retaliada com o discurso “por que você quer falar de racismo se é branca?

Não muito depois que seus dois episódios foram ao ar, e com toda polêmica do debrancamento dos Oscar, a cantora postou uma foto no instagram levantando a questão racial e, por incrível que pareça, ela recebeu exatamente a mesma reação que Skye recebeu com seu “Powerful”: “Por que você inventou de falar de racismo sendo BRANCA?

???? #justsayin

A photo posted by Alicia Keys (@aliciakeys) on

A primeira resposta para tal pergunta babaca seria “Porque, bem, ela NÃO é branca”, o que aparentemente pode ser um choque para muita gente. Racismo está tão intrínseco em nossa sociedade que as pessoas tentam ao máximo desviar a luta das pessoas de cor das mais diferentes maneiras. A mais comum é esquecer que negro vem em vários tons de pele. Quando artistas de grande influência que vivem a questão racial na pele trazem o assunto à tona, eles acabam sendo bombardeados por pessoas desesperadas para fingir que racismo não existe, como um elefante no cômodo que todo mundo finge não ver.

Essa é uma realidade para todos cujo racismo está internalizado: admitir e aceitar que ele existe, mesmo sendo tão evidente, mesmo havendo tantas provas diariamente, é uma tortura. Beyoncé tinha acabado de ser acusada de apropriação cultural no clipe do Coldplay quando apareceu com “Formation”, uma música que, além de elevar a luta dos negros, eleva as mulheres. A exposição no Super Bowl deixou os brancos A P A V O R A D O S, o que, para falar a verdade, é sensacional, porque o racismo deve ser combatido, falado sobre, desmistificado. O racismo deve ruir, e essa é a última coisa que um racista quer ver acontecer (se isso não é apavorante de verdade, o que vai ser?).


A sociedade está tão desesperada para vender a ideia de que o racismo acabou que até acaba convencendo quem mais devia saber do contrário. Uma pessoa com quem discuti na postagem de Alicia teve a pachorra de dizer que vinha de um país misturadinho café com leite, por isso podia dizer com todas as letras de que o assunto “racismo” é irrelevante e a luta das mulheres deveria ter prioridade. Para começo de conversa, essa pessoa não devia nem ter começado a comentar na postagem se, de acordo com suas próprias palavras, ela “não dava a mínima para o racismo”. É válido reforçar que ninguém aqui está dizendo que uma luta dos direitos humanos é mais importante que a outra, mas sim que o verdadeiro problema é desmerecer uma batalha em favor da outra. É como quem diz “eu nunca levei cantada no carnaval, por isso não acho que as campanhas de conscientização são importantes”, ou “não peguei Zika vírus, por isso não preciso combater o mosquito”. Desmerecer uma vertente em favor da outra é basicamente fazer isso: no correlation racismo Uma das coisas mais legais da família Johnson em Black-ish (ABC) é como eles mostram que negro vem em várias cores. Andre, o pai, é “100% negro” enquanto Bow, a mãe, é “misturadinha café com leite”. Entre seus quatro filhos, alguns saíram com a pele mais escura, enquanto Junior é mais claro que ambos os pais. Por quê? Porque a biologia é linda, simples assim. Os genes que determinam cor da pele funcionam do mesmo jeito que os genes que determinam a cor do olho: por quantidade de recessivos e dominantes. O que faz do branco branco e da pessoa de cor com cor é um pouco de matemática e sorte, mas o que faz alguém achar que é melhor que o outro de acordo com a cor da pele é babaquice generalizada que começou, infelizmente, muito tempo atrás, uma luta diária de todos aqueles que sentem a opressão dos antepassados até hoje.

Racismo Reverso.

Publicado por Sociólogo de Botequim em Quarta, 13 de janeiro de 2016

Foi bonito de mais ver no clipe de “Formation” todas aquelas pessoas negras dos mais diferentes tons com um mesmo discurso para dizer. É um discurso antigo, mas que infelizmente ainda é atual, porque cada dia mais a sociedade quer achar que o racismo acabou, quando ele simplesmente tem sido varrido para debaixo do tapete pelo mesmo motivo que cansamos de ver nas aulas de história: quem está no topo quer mudança, mas não muito, não ao ponto de afetar sua zona de conforto. E quem luta por direitos iguais quer que a zona de conforto esteja ao alcance de todo mundo. Que ousadia, não?

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3 Comments

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    Carol Mendes
    February 17, 2016 at 8:43 am

    Adorei o post! Não é porque você é branca, amarela, azul, verde ou o que for que não pode lutar contra o racismo, só porque não é atingido por ele. Adorei o que você disse “o que faz alguém achar que é melhor que o outro de acordo com a cor da pele é babaquice generalizada”. Realmente!
    Carol Mendes recently posted..[FILME] A Teoria de TudoMy Profile

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    Kemmy
    February 18, 2016 at 4:25 pm

    Eu, infelizmente, já não fico surpresa quando vejo esse tipo de coisa. O ser humano chegou a um ponto tão baixo da podridão que nada mais me surpreende.
    É muito fácil dizer que não existe racismo quando se é branco. É muito fácil desmerecer a luta de um “branco” contra o racismo. Mesmo que ela fosse realmente branca, nada justifica essas b*sta.
    Kemmy recently posted..TAG: Complete a fraseMy Profile

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    Filme: Straight Outta Compton (2015)
    May 12, 2016 at 5:01 pm

    […] não é sobre isso que viemos conversar (existe muito tempo para se falar de racismo nesse site). Se você reparou bem, o video acima é uma das cenas do filme, uma cena clássica na memória dos […]

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