Literatura

O Verão Sem Homens, Siri Hustvedt

Nós todos conhecemos aquele quote que começa com “Dane-se escrever mulheres fortes.” Em O verão sem homens, Siri Hustvedt fez bem isso: disse “dane-se” e escreveu as mulheres que bem quis.

Quem há de nos negar a pantomima do frenesi? Nós, atores caminhando sobre um palco sem platéia, com nossas víceras arquejantes e nossos punhos agitados no ar?

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Mia ficou louca. Mia, a poetisa e filósofa, casada há 30 anos com um neurocientista ficou temporariamente louca porque o marido a trocou por uma moça vinte anos mais nova e pediu uma Pausa. Depois de ser internada num hospital psiquiátrico por algumas semanas, ela resolve que seu apartamento é doloroso de mais e é melhor visitar a mãe na cidadezinha interiorana onde cresceu. Lá, em Bonden, morando numa casa alugada, Mia dá uma oficina de poesia cujo público são sete meninas de 12 a 14 anos. E, ao mesmo tempo que lida com as garotas, também se envolve com as Cisnes – amigas de sua mãe que estão no mesmo asilo que ela – e seu clube de leitura.

Em Bonden, Mia tem a chance de reorganizar a vida. Ela tem as meninas, muito mais novas, para trazer de volta lembranças de sua própria infância/pré-adolescência e tentar transmitir suas experiêncas para elas; tem sua vizinha Lola com os dois filhos encantadores e o marido agressivo com quem trocar ideias; tem Abigail, uma das Cisnes, que encontra nela uma confidente; e tem as mulheres de sua vida – a mãe, a irmã, a filha – para manter seus pés no chão.

O tempo é uma questão de porcentagens e crenças. Se na metade da sua vida você tinha seis ou sete, o arco desses anos parece ainda maior do que cinquenta para uma pessoa de cem, pois o jovem experimenta o futuro como infinito e normalmente pensa nos adultos como membros de outra espécie. Só o velho tem acesso à breviedade da vida.

A jornada de Mia nesse verão sem homens é filosófica, poética, bonita, engraçada e delicada. Ela traz reflexões para homens e mulheres de todas as idades, mas para lê-la é necessário que se seja leitor. E o que quero dizer com isso é que é possível que nem todo mundo compreenda a narradora, que nem todo mundo se identifique com a protagonista e seu modo de sequenciar suas memórias. É preciso ter vivido várias vidas através dos livros para compreender o singelo brilhantismo de Mia, das Cisnes, das garotas de Bonden que estão começando a conhecer o mundo como ele é, das esposas que aceitam os maridos mesmo com todos os seus defeitos.

Suas duzentas páginas são mais complicadas de superar do que sua finura sugere, mas, no fim das contas, é uma experiência de mudança de perspectiva e amadurecimento que pode afetar a garota de 16 anos e a senhorinha de 60.

O verão sem homens, com seus altos e baixos dentro e fora do ponto de vista de Mia. A máxima citada no início da resenha nunca foi mais verdadeira do que nesse livro.

Dane-se escrever mulheres “fortes”. Escreva mulheres interessantes. Escreva mulheres cheinhas. Escreva mulheres complicadas. Escreva uma mulher que chuta bundas, escreva uma mulher que seja covarde. Escreva uma mulher que seja desesperada por um marido. Escreva uma mulher que não precisa de homem. Escreva mulhers que chorem, mulheres que briguem, mulheres que são tímidas, mulheres que não levam desaforo para casa, mulheres que precisam de validação e mulheres que não se importam com o que os outros pensam. ELAS SÃO BOAS, e todas essas coisas podem existir NA MESMA MULHER. As mulheres não deveriam ser validas porque são fortes ou chutam bundas, mas porque somos pessoas. Então não foque em escrever personagens que são fortes. Escreva personagens que são pessoas. (x)

informações


Livro cedido para resenha.
Título: O verão sem homens
Autor: Siri Husvedt
Tradutor: Alexandre Barbosa de Souza
Número de Páginas: 200
Edição: 1ª – 2013
ISBN: 9788535922806
Editora: Companhia das Letras
Preço: R$42,00
Classificação: ★★★★★

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