Cinema

O Vendedor de Passados (2015)

O filme baseado no livro homônimo do angolano José Eduardo Agualusa, chega aos cinemas numa época onde os dramas nacionais chegaram ao subúrbio.

O Vendedor de Passados

(Pausa para um parêntese importante e imenso: É com muita tristeza que admito que durante muitos anos não vi nenhum filme brasileiro no cinema, porque, em primeiro lugar, não gosto das comédias e, em segundo, pela banalização de tudo o que é nosso. Os filmes que chegavam aos cinemas ou eram comédias, de péssima qualidade (Hassum e Porchat, etc., estou falando de vocês!), ou eram sobre a podridão que escondemos tão bem no samba. E eis que me deparo com um momento feliz dos nacionais no cinema: Estrada 47, O Vendedor de Passados e, em breve, Sangue Azul (grande parte da culpa de não ver os filmes brazucas de qualidade se dá a minha preguiça de ir para outra zona da minha cidade. Aonde eles sempre passaram. Mas peraí, devia ser obrigatória a exibição, só que óbvio… melhor piadas sem graça do que cultura. Enfim…) E digo “feliz” no sentido de bom. Porque agora é drama!)

Vicente (Lázaro Ramos) vende passados. Alguém é infeliz com a história de vida que teve, tem vergonha, precisa mudar? Procura o Vicente, leva fotos da sua vida e seus sonhos para realizá-los. É assim que Vicente conhece a personagem de Alinne Morais (sem nome). Ela aparece na casa dele, sem hora marcada, sem identificação, e pedindo uma história completa. Carta branca, com apenas uma demanda: quer ter cometido um crime.

A trama viaja entre as peculiaridades dos sonhos interrompidos, das dúvidas existenciais, do quanto não conhecemos as pessoas e mesmo assim acreditamos nelas.vp

Vicente tornou-se um vendedor de passados porque inventava o próprio. Adotado por um casal de classe alta, sempre se perguntou qual seria a sua verdadeira origem. Seus pais se recusavam a dizer, então ele imaginava. E Clara (nome inventado por ele) era uma personagem, uma página em branco que ele tenta decifrar.

A primeira impressão é de que isso é muito surreal. Será que isso sequer existe? É só isso, fazer álbuns de fotos e vídeos? E as pessoas acreditariam? Essas perguntas circulam na mente durante os primeiros vinte minutos. E logo são absorvidas pelo pensamento: “isso realmente importa? Vamos ver o que ele consegue fazer com isso.”

A trama não se perde em explicações exageradas, em repetições para facilitar a compreensão. E cada cena tem um por que de ser. Até mesmo a cena em que Vicente está numa fossa clichê, tentando arrumar qualquer uma para substituir Clara. Não é sobre ela, é sobre ele, sobre estar perdido…

As atuações estão, além de perfeccionistas, inteligentes. O que já é de se esperar desse elenco.

Durante todo o filme temos muitas reviravoltas. O desfecho é um tanto angustiante, mas depois que passam os cinco primeiros minutos de revolta, percebemos que é muito melhor assim. É um filme interessante, imprevisível dentro de uma previsibilidade e como pano de fundo, temos a ditadura argentina,  explorada de forma sútil (há quem diga desleixada, mas eu discordo. O filme não era sobre isso…)

Podia ter sido mais (inclusive durado mais e contado mais histórias)? Talvez. Mas acho que foi de bom tamanho. Na medida certa, pra ser exata.

ficha técnica

O-Vendedor-de-Passados-poster

Título original: Vendedor de Passados
Direção: Lula Buarque de Hollanda
Elenco: Lázaro Ramos, Alinne Moraes, Odilon Wagner e Mayana Veiga
Roteiro: Isabel Muniz
Duração: 80 min
País: Brasil
Gênero: Drama
Trailer: (x)
Classificação: ★★★★☆

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