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O problema dos homens que não devia ser das mulheres, mas acaba sendo

Também em inglês no tumblr.

Começou a ficar explícito quando MC Melody apareceu no circuito. Filha de funkeiro, o pai a colocava no palco, incentivando-a a dançar como uma mulher dançaria e dando-lhe espaço num ambiente comumente considerado “definitivamente não para crianças”. Aos 8 anos, a polêmica rendeu a Melody uma legião de fãs e, como se isso não fosse suficiente, pessoas cuja descrição mínima poderia ser “creeps”. O caso da Melody foi parar na polícia, mas o assunto foi esquecido com certa facilidade.

o problema dos homens

Até que começou o Masterchef Junior na Band e uma garota chamada Valentina Schulz chamou a atenção de muita gente, especialmente de muitos homens. A quantidade espantosamente absurda de tweets sobre a menina de 12 anos, cujo comportamente é o oposto da pequena funkeira, levantou a questão novamente. Uma das conversas mais alarmantes entre dois rapazes mencionava que se não dava problema falar da Melody, qual o problema em falar da Val?

O comportamento exibido por esses homens faz parte de uma cultura do estupro e culpabilidade da vítima que eu poderia ficar falando sobre aqui por horas e horas, mas não é esse o foco que quero dar dessa vez. O que eu quero falar é sobre aquela mania feia que os homens têm de colocar na cabeça das mulheres, desde pequenas, que elas devem caber numa caixa de acordo com o que eles querem.

Anos de vida de fandom me ensinaram a ser protetora dos personagens odiados e escudo humano das meninas tratadas porcamente. Elas são minhas filhas, todas elas, inclusive Barbara Kean e Malia Tate, interpretadas por atrizes mais velhas que eu. Quem me segue por aí ou me viu no twitter do WT às segundas-feiras sabe que eu sou completamente apaixonada pela série de TV Gotham. Eu tive a sorte de descobrir duas ou três pessoas que formaram uma bolha de “o fandom é um belo lugar de se estar”, porque compartilhamos esse instinto protetor, mas então uma coisa aconteceu: Uma nova personagem foi adicionada e caos tomou posse do universo.

Calma, eu já chego lá.

Existem três adolescentes no elenco de Gotham. A mais nova, Clare Foley, de 14 anos, só apareceu em um episódio da segunda temporada até então, por isso os holofotes não se viraram para ela recentemente. Mas as duas principais – os “interesses amorosos de Bruce Wayne”, como se isso fosse alguma definição decente – estão sob a luz de maneira gritante.

Natalie Alyn Lind, 15 anos, vem de uma família de artistas e esteve no circuito desde sempre. O currículo dela é extenso e seu rosto conhecido. A personagem dela em Gotham? Bem, Silver St. Cloud foi adaptada para uma versão obscura, vilanesca, que promete ser melhor explorado na segunda metade da temporada. Silver é uma personagem clássica do universo Batman com sua própria legião de fãs e anti-fãs. A quantidade de “essa vadia que está entrando no caminho de BatCat” visto assim que ela apareceu foi surpreendente. Não apenas estavam chamando uma menina de 15 anos de “vadia”, como não deram tempo nem para ela fazer algo que realmente instigasse essa reação. A primeira vez que vi essa discurso, após o 2×04, ela tinha tido literalmente duas cenas (!).

As crianças de Gotham têm uma característica marcante em suas atuações. Elas todas são espetaculares em suas performances e Natalie não é diferente. Ela é cativante e essa cativação me levou a dar uma olhada na sua página do imdB, só para saber o que mais ela tinha feito que eu poderia ver.

Qual foi a minha surpresa ao ver um post cheio de ódio no fórum? Um post que dizia que ela representava tudo que há de errado em Hollywood, falando que ela estava sendo sexualizada e não apenas isso: tinha feito implante de silicone. Implante de silicone!!!! Aos 14-15 anos!!!

Enquanto isso, Camren Bicondova, 16 anos, também conhecida como “a pessoa mais adorável dos estúdios Warner que todo mundo ama”, disse em entrevista que está cercada de homens com mais de 30 anos e por isso não está namorando, nem procurando namorado. Em seu instagram, sempre que ela posta alguma foto com menos de duas camadas de roupa, um tipo de comentário SEMPRE aparece: “cadê seus peitos?“, sempre vindo de homens que deviam fazer o condicionamento mental de CALAR A BOCA (dedos no caso). Não apenas tais comentários são de extrema rudeza, como são perigosos e caem de volta na caixinha-masculina-de-padrões-de-beleza-aceitáveis.

Como mulheres, nossa mente é sempre direcionada a saber quando falar, como falar, como se comportar, como se fazer parecer menor, como não ameaçar o homem. Seja sensível, mas não de mais. Seja caridosa, mas não dada. Faça assim e não assado. Isso não é coisa de menina. Tenha filtro e não diga nada, NADA que vá causar desconforto no homem.

Por que a mulher é a única que tem que ter filtro? Em que momento foi determinado que tudo bem um homem ir na foto de uma adolescente reclamar de seu peito achatado ou no da outra dizer que é muito errado ela ter tanto peito com essa idade? Por que homens ainda não entenderam como as palavras são estopins de inseguranças e pontos de interrogações na cabeça de adolescentes e crianças que poderiam estar super de boa até lerem aqueles comentários? Como é difícil enxergar que o comportamento da Valentina gera a mesma reação que o comportamento da Melody, da mesma maneira que o “excesso de peito” da Natalie é um problema tão absurdo quanto a “falta de peito” da Camren são situações causadas por homens, para homens, porque eles acham que o o que eles acham devia ser considerado verdade absoluta sem que percebam ou aceitem que estão exibindo sua natureza pedófila, entitled, cujo único direito deveria ser a cadeia. Porque nenhuma dessas coisas é culpa das meninas, mas sim dos homens que olham para elas.

Além do mais, não sei se é de conhecimento geral, mas existe essa coisa chamada genética? Responsável por fazer cada ser humano único, ela é quem dita as regras. Talvez Natalie tenha colocado silicone, mas talvez ela simplesmente tenha genes que falaram “aí, peitos? hora de bombar!“. No Brasil, onde meninas menstruam pela primeira vez aos 10 anos, esse não é um conceito difícil de assimilar, é verdade; mas biologia é natural e devia ser enxergada com mais naturalidade, porque algumas coisas são Vida 101.

Ao invés de olhar para as meninas – tenham elas 8, 12, 15 ou 16 anos – procurando o que você quer ver e criticando quando não encontrar, talvez seja hora de olhar para si mesmo e perguntar porque você quer tanto impor esse padrão, determinar essa caixa para uma garota.

Talvez tenha sido essa mentalidade que levou os pais da Maisa Silva a criarem uma criança que, okay, provavelmente é um gênio certificado, sabe a idade que tem, sabe o que esperam dela e sabe o que realmente quer. Maisa não entra, nem nunca quis entrar na caixa. Ela é a prova de que o empoderamento de garotas não é utópico e um gás para nós: para nos incentivar a continuar nossa batalha feminista, porque não está sendo em vão.

Nesse meio tempo, Melody continua bombando, Valentina continua sendo fofa e talentosa, Natalie Lind está de boas com a família dela recebendo mais do que você e Cam Cam ainda é a nova queridinha da televisão. E os ómi? Vão aprendendo que até eles têm que ter limites.

se tiver algum erro, ignore hahah. <3 quero que vocês leiam!Venho por meio dessa nota falar uma coisa pces.Vocês…

Posted by Maisa Silva on Sábado, 12 de dezembro de 2015

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8 Comments

  • Reply
    Ana
    February 3, 2016 at 11:51 am

    Realmente absurdo, só quem é mulher entende o que é isso. Eu fico ainda mais brava quando vejo alguém que defende nossos direitos ser ridicularizado. Enfim, vamos a luta!

  • Reply
    Fernanda
    February 18, 2016 at 10:11 am

    Concordo com a Ana, realmente é um absurdo isso viu. Não sei como isso pode acontecer em pleno século 21. Mas, vamos torcer para que um dia tudo isso mude.

  • Reply
    Erika
    February 27, 2016 at 6:54 pm

    Espero que um dia isso mude…

  • Reply
    Roberto
    April 7, 2016 at 4:52 pm

    Isto realmente é um absurdo, estes caras nojentos não deveriam nem ser chamados de homens pois na verdade são uns verdadeiros doentes..

  • Reply
    9 leituras nacionais para você curtir nesse novo ciclo literário - Who's thanny?
    September 27, 2016 at 4:54 pm

    […] o que quiser da Maisa, nada muda o fato dela ser uma menina inteligentíssima que sabe o que está fazendo. Em seu primeiro livro, Sinceramente Maisa lançado pela Gutemberg, ela nos traz uma biografia […]

  • Reply
    Karla
    November 7, 2016 at 1:57 pm

    simplesmente um absurdo .

  • Reply
    luciano
    February 21, 2017 at 12:09 am

    Um absurdo!

  • Reply
    Kemmy Oliveira
    May 26, 2017 at 10:58 pm

    Cara, eu sinalizei o e-mail com esse post e por algum motivo bizarro ele se perdeu na minha caixa de entrada, por isso só vim ler agora, mais de um ano depois. ENfim, lembro desse caso da Valentina, coisa bizarra e NOJENTA o que rolou, mas aparentemente foi esquecido, como era de se esperar :/
    A Maisa é mesmo um exemplo e que nos faz ter esperança! Essa nova geração de mulheres está incrível em diversos aspectos, e ainda bem que se identificam com a Maísa, aliás ainda bem que a tem para se identificar!
    A luta está longe do fim, mas não vamos desistir!

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