Literatura

O mundo assombrado pelos demônios, Carl Sagan

Tava conversando faz um tempinho com a Thanny daqui deste site sobre algumas das minhas últimas leituras, e ela me devolve que talvez não tenham muito a ver com os temas que a gente costuma tratar, mas mesmo assim, gostaria de escrever sobre este livro aqui.

Carl Sagan, o escritor de “O mundo assombrado pelos demônios”, é um cientista astrofísico famoso, entre outras coisas, por uma série para televisão sobre ciência chamada Cosmos feita em 1980, e que teve outra versão em 2014, apresentada por Neil Degrassi Tyson. Neste livro, ele discorre basicamente sobre educação, divulgação científica e investimento em ciência e pesquisa. Apesar de ter sido escrito há décadas, não parece que a situação que ele descreve tenha mudado tanto assim.

Um dos principais argumentos que são tratados no livro é sobre a importância de se ensinar como funciona o método científico, e não simplesmente transmitir as descobertas que foram feitas por meio da ciência – inclusive são colocados dados sobre como é muito mais eficaz ensinar sobre ceticismo do que simplesmente passar informação pronta. O autor escreve bastante sobre o sistema educacional e a minha impressão é de que a coisa continua mais ou menos do jeito que ele descreveu.

Enquanto lia, a minha vontade era comprar caixas e mais caixas de exemplares desse livro e distribuir pra uma galera – sei de muita gente que precisaria ouvir sobre como é importante ter critério e querer um mínimo de evidência pra aceitar ou não uma afirmação, e também não “jogar o bebê fora com a água do banho”, ou seja, não descartar uma teoria inteira por conta de alguma falha, sem examinar com cuidado se algo ali não está correto.

As partes sobre questões culturais que “causam” um clima de pouco ceticismo são bastante interessantes – por exemplo, ele cita a necessidade de cada um ter sensibilidade pra saber se uma situação permite que você questione ou não algum absurdo que alguém tenha dito, uma vez que ficar quieto quando a gente deveria falar pode manter a impressão de que refutar uma ideia é agressão – o que, com toda certeza, NÃO É – e às vezes se levantar e falar pode criar mais problemas do que ajudar de alguma forma.

No final da leitura, é bem mais fácil entender que devemos respeitar PESSOAS, e não necessariamente IDEIAS. Carl Sagan defende que mesmo pessoas com ideias completamente incorretas – preconceituosas, pseudocientíficas, etc – tenham direito a liberdade de expressão, inclusive pra possibilitar que, quando as mesmas sejam refutadas, quem está do lado certo possa aprimorar o próprio ponto de vista.

Deixo aqui um dos trechos mais interessantes do livro, um “Kit de detecção de abobrinhas”, em tradução livre que encontrei nesta página:

1 – Sempre que possível, deve haver confirmação independente dos “fatos”.

2 – Estimular um debate substancial sobre as evidências por notórios partidários de todos os pontos de vista.

3 – Argumentos de autoridade têm pouco peso – “autoridades” cometeram erros no passado. Elas voltarão a cometê-los novamente no futuro. Talvez a melhor maneira de dizer isso é que na ciência não existem autoridades; no máximo, há especialistas.

4 – Elaborar mais de uma hipótese. Se há algo a ser explicado, pense em todas as maneiras diferentes como poderia ser explicado. Então, pense em testes pelos quais você pode refutar sistematicamente cada uma das alternativas. O que sobrevive, a hipótese que resiste à refutação nesta seleção darwiniana entre as “várias hipóteses de trabalho”, tem uma chance muito melhor de ser a resposta correta do que se você tivesse simplesmente agarrado a primeira ideia que passou por seu pensamento.

5 – Tente não ser excessivamente ligado a uma hipótese só porque é sua. Ela é apenas uma estação intermediária no caminho pela busca do conhecimento. Pergunte-se porque você gosta da ideia. Compare-a imparcialmente com as alternativas. Veja se você pode encontrar razões para rejeitá-la. Se não o fizer, outros o farão.

6 – Quantificar. Se aquilo que você está explicando tem alguma medida, alguma quantidade numérica ligada a ela, você vai ser muito melhor capaz de discriminar entre hipóteses concorrentes. O que é vago e qualitativo está aberto a muitas explicações. Claro que existem verdades que devem ser buscadas nas muitas questões qualitativas que somos obrigados a enfrentar, mas encontrá-las é mais desafiador.

7 – Se há uma cadeia de argumentos, todos os elos da cadeia devem funcionar (incluindo a premissa) – e não apenas a maioria deles.

8 – Navalha de Occam. Esta conveniente regra de ouro encoraja-nos quando somos confrontados com duas hipóteses que explicam os dados igualmente bem, em escolher a mais simples.

9 – Sempre perguntar se a hipótese pode ser, pelo menos em princípio, falseada. Proposições que não são testáveis, irrefutáveis, ??não valem muito. Considere a grandiosa ideia de que nosso Universo e tudo nele é apenas uma partícula elementar – um elétron, por exemplo – de um Cosmos muito maior. Mas se nunca podemos adquirir informações de fora do nosso Universo, esta ideia não é incapaz de ser refutada? Você deve ser capaz de verificar as afirmações. Aos céticos inveterados deve ser dada a oportunidade de seguir seus raciocínios, a replicar os seus experimentos e ver se eles indicam os mesmos resultados.

informações

Título: O Mundo Assombrado Pelos Demônios
Autor: Carl Sagan
Tradução: Rosaura Eichenberg
Número de Páginas: 512
Edição: 1ª, 2006
ISBN: 9788535908343
Editora: Companhia das Letras / Selo Companhia de Bolso
Preço: R$ 34,90
Classificação: ★★★★★

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