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O feminismo desmistificado – Parte 2

 

Dois meses atrás (sim, nós demoramos, desculpas!), nós publicamos a primeira parte do feminismo desmistificado. Nós explicamos a história do feminismo, contando a importância do feminismo na vida das pessoas (não só na vida das mulheres), e hoje iremos falar sobre algumas das coisas que nós, feministas, já tivemos que ouvir.

“Quando eu ouço pessoas falarem sobre feminismo, é como se eu ouvisse ‘saiam do meu caminho, eu não preciso de ninguém’. Eu amo ser cuidada e eu tenho um homem que é um líder. Eu não sou feminista nesse sentido” (Kelly Clarkson)/ “Eu amo homens, por isso não me considero feminista”

Para essas duas frases, eu explicarei a diferença entre ser feminista e odiar os homens, que são coisas opostas. O feminismo ganhou essa conotação ruim de “homens não servem pra nada, não precisamos de homens, odiamos homens” com as notícias da mídia sobre feminazismo, femismo e misandria.

– O feminazismo se resume em “extinguir” a raça dos homens.

– A misandria é o ódio ou desprezo aos homens, contrário da misoginia.

– O femismo é o contrário do machismo.

Eis o problema: a generalização. O feminazismo é apenas uma parte do feminismo – nem todas as mulheres querem extinguir os homens ou os odeiam. Portanto, chamar uma feminista – que não quer a supremacia feminina, que quer apenas direitos iguais – de feminazi é errado. 

Uma mulher pode odiar (a maioria dos) homens e ser feminista (misandria), Uma mulher pode amar homens e ser feminista (filandria). Uma mulher pode amar quem ela quiser, ou odiar quem ela quiser, e ainda ser feminista – o importante é que a mulher ame a si mesma a ponto de saber que merece os mesmos direitos. 

Além disso, muitas pessoas dizem se considerar humanistas, e não feministas. Eis a diferença do humanismo com o feminismo: o humanismo é uma filosofia moral que coloca o homem, e a condição humana, acima de todas as coisas. O humanismo NÃO É a mesma coisa que feminismo, apenas com outro nome. O humanismo ignora a opressão que as mulheres sofrem, e o privilégio masculino. Ou seja, você pode ser humanista E feminista (ou pró-feminismo), mas não pode ignorar a palavra feminismo só porque acha que é uma palavra “forte”.

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“Para mim, feminismo é um lesbianismo de queima de sutiãs. […] Eu gostaria de ver isso com outra marca/nome. Nós precisamos ver a celebração da nossa feminilidade e suavidade.” (Geri Halliwell)

Vamos por partes: sobre o lesbianismo. Nem todas as feministas são lésbicas, nem todas odeiam os homens, como eu disse no parágrafo anterior. É saber que a mulher merece as mesmas coisas que os homens (que tem uma posição superior). É querer igualdade.

A “queima de sutiãs” perdeu muito o sentido que teve um dia: as mulheres se libertando dos objetos que simbolizam a beleza feminina, como sutiãs, espartilhos, sapatos de salto alto, cílios postiços, maquiagens, enfim. A ideia surgiu para acabar com a opressão e exploração comercial das mulheres, que precisavam (e ainda precisam hoje) estar “perfeitas” para os homens, enquanto os homens não precisavam de nada disso.

A feminilidade e suavidade ainda existe – mas que mulher hoje em dia precisa ser salva o tempo todo por um homem? Sim, nós sabemos usar maquiagens, nós podemos usar rosa, nós sabemos cuidar de todos ao nosso redor, mas isso não significa que nós queremos – ou que queremos manter essa ideia de feminilidade e suavidade o tempo todo. Dependendo do nível, a suavidade pode ser considerada como uma submissão ao homem – e é contra isso que o feminismo luta. Não queremos nos submeter a ninguém, queremos ser iguais. 

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“Eu acho que é importante falar sobre coisas positivas. É mais importante estar perguntando do que reclamando.” (Bjork)

Uma coisa super importante sobre o feminismo é que não é apenas uma fonte de raiva CONTRA os homens. É uma fonte de irmandade entre mulheres. Eu participo de alguns grupos de feministas. Sabem o que eu encontrei lá? Um local de desabafo, um local onde é possível se falar sobre tudo, desde auto estima, até formas contraceptivas, abortos e muitos outros tabus, coisas que nós, mulheres, não nos sentimos confortáveis em falar em público, por todo o julgamento que existe. O feminismo é contra o julgamento e opressão de qualquer um. 

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 “Eu não sou feminista, mas eu acredito na força das mulheres” (Katy Perry)

Uma das coisas principais sobre o feminismo é que não é um movimento narcisista: o feminismo deseja o bem para TODAS as mulheres. Sejam elas fortes, fracas, brancas, negras, ricas, pobres, cis, trans, que tenham como lutar contra a opressão diária ou não. A mulher não precisa ser forte para ser feminista, a mulher não precisa ser rebelde(o contrário de submissa) para ser feminista, e o feminismo só consegue direitos quando possui participantes dos dois lados: tanto mulheres que sentem que foram oprimidas (e também oprimiram pelo machismo internalizado), tanto homens que admitem que existe a opressão ao gênero feminino, o privilégio masculino,  e querem fazer algo para mudar a situação.

É engraçado vocês considerarem também a conotação entre mulher forte e homem forte. A mulher forte é aquela que consideramos emocionalmente forte, que aguenta tudo, que sobrevive as maiores tragédias. Homem forte é aquele que tem força física, que consegue levantar as coisas, que abre os potes de vidro, e que principalmente: não chora. O feminismo luta também contra a ideia de como os homens “precisam” ser: não só a mulher tem a capacidade de se salvar de qualquer situação, assim como o homem pode não conseguir salvar uma mulher, ou até si mesmo. Quem que impôs que o homem tem que criar a imagem de poderoso que nada abala? Quem que impôs que a mulher não pode salvar o homem ao mesmo tempo que se salva?

  “Mulheres dizendo “Eu não sou feminista” é a minha maior implicância. Você acredita que mulheres devem ganhar o mesmo salário para fazer os mesmos trabalhos que os homens? Você acredita que mulheres devem poder sair de casa? Você acha que mulheres e homens ambos merecem os mesmos direitos? Ótimo, então você é uma feminista. As pessoas acham que existe um tabu sobre apoiar o feminismo. Eu sei que por um bom tempo eu ficava envergonhada de chamar atenção para a misoginia, porque então eu seria aquela garota que não consegue largar as coisas. Mas o fato é, nós não podemos largar – não até nós sentirmos que nós fomos ouvidas.” (Lena Dunham)

 

 

 

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3 Comments

  • Reply
    Who's thanny? » Arquivo Semana Coisa de Mulherzinha
    October 30, 2014 at 4:22 pm

    […] Feminismo desmistificado (pt2) […]

  • Reply
    thais mello
    December 21, 2016 at 10:08 am

    ótimo Post, Esse assunto é assim bem complexo mesmo, sempre venho acompanhando seus post… obrigada por compartilhar tanto conteúdo de valor! <3

  • Reply
    Debora
    July 19, 2017 at 2:45 pm

    Excelente! Assunto bastante delicado, mas de extrema importância. Parabéns e estou indo agora ler a primeira parte desse artigo

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