Textos

O feminismo desmistificado

Por Lívia e Jully

Por quê ser feminista hoje?

Jogando o verbete “feminismo” na Wikipedia, encontramos, nas primeira linhas, a seguinte definição:

“Feminismo é um movimento social, filosófico e político que tem como meta direitos equânimes (iguais) e uma vivência humana, por meio do empoderamento feminino e da libertação de padrões opressores baseados em normas de gênero. Envolve diversos movimentos, teorias e filosofias, advogando pela igualdade entre homens e mulheres, além de envolver a campanha pelos direitos das mulheres e seus interesses.”

Achei uma conceituação de feminismo muito acurada, mas vejo alguns problemas na utilização de certas palavras (empoderamento, sendo a principal delas) que precisam ser desmistificados para quem não tem um histórico de leitura sobre o tema. Empoderar não significa ascender ao poder enquanto diminui o outro: o empoderamento feminino não é o rebaixamento dos homens, a apologia à misandria (que será explicada mais abaixo neste artigo).

“O empoderamento devolve poder e dignidade a quem desejar o estatuto de cidadania, e principalmente a liberdade de decidir e controlar seu próprio destino com responsabilidade e respeito ao outro.”

Sabe o que queremos com o empoderamento feminino? Ter voz sobre nós mesmas e não sobre os outros. Queremos poder decidir sobre como vamos levar nossa vida, onde trabalhar, se vamos nos casar, que roupa usar, sem que absolutamente ninguém interfira nessas decisões. E com ninguém, não quero dizer apenas homens, mas outras mulheres também. Vejo muitas amigas que não se sentem a vontade em um grupo de meninas porque sabem que as fulanas estão julgando a roupa, a maquiagem ou relacionamento amoroso não-convencional o qual ela se sente segura o suficiente para sustentar em sua vida. Essas “julgadoras”, na maioria das vezes, vêem a outra garota – a que deseja liberdade, a que age conforme seus impulsos e vive uma vida leve e feliz, sem amarras sociais – como uma ameaça. Essa é a base da construção da dicotomia entre amigas e inimigas, poderosas e invejosas – tão pregado por cantoras da atualidade em suas letras ditas “feministas”.

O feminismo luta pela liberdade dos padrões – de beleza, de comportamento e tantos outros que são impostos desde que nascemos. Mas não é uma liberdade que deva ser comparada à liberdade dos homens – em minha opinião. Gosto de falar que nenhuma mulher está querendo ser homem, ou agir como um homem, levando essa frase ao pé da letra. A banda The Runaways, encabeçada por Joan Jett e Cherie Currie, rockeiras e feministas de longa data, cantava nos anos 60: “I wanna be where the boys are / I wanna fight how the boys fight / I wanna love how the boys love / I wanna be where the boys are”. Hoje, reproduzimos esse discurso, mas é preciso cuidado para contextualizá-lo no momento histórico atual.

Naquela época, mulheres mal eram consideradas cidadãs, com pouquíssimos direitos sociais concedidos à elas. A desigualdade social – no mercado de trabalho, principalmente – eram monstruosas e era por isso que as feministas da época lutavam. Foram sutiãs queimados pelo direito ao voto, mulheres queimadas em fábricas, infelizmente, pelo direito à um salário digno. E, nos países que havia algumas concessões de cidadania às mulheres, elas ainda eram vistas com olhos tortos pelos homens, que se sentiam ameaçados pelo empoderamento feminino.

Hoje, o feminismo não é a busca pelo direito de votar, de ter um salário igual – embora saibamos que ainda haja uma diferença entre os sexos nesse quesito -, mas, como disse ali em cima, por liberdade. Por igualdade entre os seres humanos, homens, mulheres, transexuais, cisexuais… O feminismo não é um movimento exclusivo para mulheres, mas que nasceu nas mulheres e que convida à todos a lutar por um mundo mais justo e igual.

Aí você se pergunta, se mesmo com tantos direitos já conquistados pelas mulheres e com tanta deturpação do conceito de feminismo atualmente, ainda vale a pena se declarar feminista. Sim, eu acredito firmemente na ideologia da, voltando no tempo e citando o movimento Iluminista, da liberté, égalité e – atualizando – Beyoncé! É através do new feminism, ou Gaga Feminism, como fala o autor J. Jack Halberstam, em seu livro homônimo, que vamos exterminar a normalidade, desenformar as mulheres, os homens, a sociedade e incorporar o estranho, o freak, ao nosso cotidiano! “It’s the end of normal. Let the Gaga Faminis begin!”

Sem título 1

“Feminist: a person who belives in the social, political, economic equality of the sexes.”

Alguns dizem que feminismo é uma palavra forte – e é por isso que muitas pessoas pessoas não apoiam a causa feminista. Mas afinal de contas, se o que as feministas querem é a igualdade de gêneros, então por que existe tanto preconceito com uma simples palavra? 

“Mulheres dizendo ‘Eu não sou feminista’ é a coisa que me deixa mais irritada. Você acredita que as mulheres devem receber o mesmo pagamento que os homens em um mesmo trabalho? Você acredita que mulheres devem ser poder sair da casa? Você acredita que mulheres e homens merecem ter direitos iguais? Ótimo, então você é uma feminista. As pessoas acham que existe um tabu sobre apoiar o feminismo. Eu  sei que por um bom tempo eu fiquei envergonhada de apontar quando via misoginia  porque então eu seria aquela garota chata que só sabe reclamar e não sabe parar. Mas o fato é, nós não podemos parar – não até a gente sentir que fomos ouvidas. (Lena Dunham – tradução livre)

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2 Comments

  • Reply
    Who's thanny? » Arquivo O feminismo desmistificado - Parte 2 - Who's thanny?
    30/10/2014 at 3:40 pm

    […] 50 tons de rosa artigo O feminismo desmistificado – Parte 2 Postado por Jully em […]

  • Reply
    Beatriz Monteh
    18/06/2018 at 8:59 pm

    Post simplesmente maravilhoso :)

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