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Nicki Minaj não quer estar em sua zona de conforto

O feminismo de Nicki Minaj não se importa com sua zona de conforto: sobre Anaconda e políticas de respeito

 

Esse artigo é uma tradução do Autostraddle. Você pode conferir o original AQUI.

nicki minaj

O alvoroço em cima do clipe “Anaconda” da Nicki Minaj tem sido um processo longo. Começou quando a capa, que tinha uma imagem controversa das partes de trás de Minaj, vazou na internet para muita consternação; isso continuou a acontecer depois que o audio foi lançado, já que a letra foi considerada ouro feminista, e tudo chegou ao necessário clímax na forma de um vídeo que tinha Minaj, algumas dançarinas e a bunda da Minaj. Oh, e Drake estava lá.

As pessoas agora, como sempre, têm dificuldade em decidir: empoderador ou não empoderador? Se qualquer um estivesse realmente prestando atenção à Nicki todos esses anos, eles já saberiam a resposta.

Quando as credenciais feministas da Beyoncé estavam sob o fogo das feministas ano passado, havia inferno para se pagar. Era o inferno do tipo fogo-e-enxofre. As pessoas expressaram desagrado com o título da turnê sendo “Sra. Carter”, ou a sutil sexualidade da Beyoncé foi chamada atenção por outras feministas a elevou a salientá-la como epítome de Deusa. Veja, eu adoro a Beyoncé, costumava ouvir “Why don’t you love me” o tempo todo, mas o feminismo dela não é o feminismo de todo mundo. Beyoncé é casada com uma filha – casada com o homem com quem ela tem assumidamente dormido e namorado exclusivamente por quase a minha vida inteira. Ela tem levantado dinheiro para causas feministas, clamando o movimentos pela liberdade social, política e econômica das mulheres e ainda adicionando ao Shriver Report em seu tempo livre. No que se trata da imagem que Beyoncé conjura na mente de homens e mulheres pela nação, é claro que é uma de moderado respeito e responsabilidade. Beyoncé não é Nicki Minaj.

Nicki Minaj não é uma mulher que facilmente entra em papéis dirigidos para mulheres em sua indústria ou quaisquer lugares. Ela não é polida, ela não está preocupada com sua reputação e ela certamente nao está lutando por igualdade ao lado de feminismas medianas de segunda onda . Ela é algo mais e ela é algo igualmente valiosa de se dar credibilidade: uma quebradora de limites, uma vadia desbocada, uma auto-proclamada rainha, uma artista auto-determinada e propriamente feita. Ela é um dos caras e ela faz isso com a intenção de subverter o que isso significa. Ela canta sobre mulheres sexies, sobre foder por aí com vários homens. Ela canta sobre correr na frente no jogo, imagina-se acima de suas próprias cordas de elogios e rola com um rap familiar notavel por suas rimas sujas, boca suja e despudor com a autoridade e hegemonia. Enquanto Beyoncé expandiu o discurso feminista ao revelar seu papel como mãe e esposa ao mesmo tempo que luta pelos direitos das mulheres, Minaj tem mostrado seus dentes em sua subida até o topo do gênero dominado por homens. Ambas, no processo, têm expandido a ideia de nossa sociedade do que o empoderamento da mulher se parece – mas as credenciais feministas de Minaj ainda são questionadas com frequência. Para mim, parece um caso claro de política de respeito e comunismo do movimento feminista: enquanto escritoras feministas deliraram com o último álbum de Beyoncé e os discretos tons de sexualidade de empoderamento que vieram com ele, muitas têm questionado as decisões da Minaj durante os anos de subverter as normas de beleza usando seu próprio corpo, falando graficamente sujo em seu trabalho e ocasionalmente se declarando dominante no discurso sobre outras mulheres (todas essas áreas de preocupação, entretanto, não vieram à tona quando a Queen Bey fez o mesmo) A perspectiva de Minaj sempre tem sido multidimensional; ela vêm como uma imigrante, como uma mulher negra, uma rapper feminina, um ser sexual, uma contadora de histórias, uma sobrevivente, uma vadia malvada. Ela vai à frente para contar sua própria história, seja de dominação ou declaração. Minaj até saiu na frente como feminista. Ela, na verdade, fez isso várias e várias vezes. E ainda assim, ao invés de simplesmente abraçar seu próprio discurso no tópico, as feministas geralmente não conseguem colocar a cabeça nisso. Não estou aqui para colocar Beyoncé e Minaj uma contra a outra, claro. Eu amo as duas. Mas me frustra que feministas podem tao obviamente subjulgar uma perspectiva enraizada em auto-determinação e isso me enfurece, porque o motivo está enraizado em descência política.

“Anaconda” foi aclamada por ser uma faixa que clama ambos a inspiradora “Baby Got Back” e também por reverter a narrativa da sexualidade humana em que o corpo da mulher é válido de ser apreciado apenas quando agrada aos homens. E quando a arte de “Anaconda” foi lançado online, as feministas rapidamente clamaram a foto da bunda da Minaj como revolucionária pelo mundo todo, apesar do grande debate sobre a imagem ser usada para os olhos dos homens.

“Sempre que mulheres negras dominam seu senso de sexualidade e isso parece não ser controlado pelo olhar do homem heterosexual, o mundo inteiro fica em cólera,” o escritor feminista Mychal Denzel Smith escreveu. Ele continuou, “se as mulheres negras não têm permissão de dominar sua própria sexualidade, então a quem ela pertence?” O que seu texto trata são as maneiras que as mulheres, e as mulheres negras especialmente, geralmente são criticadas por se expressarem sexualmente, apesar da repressão que aquelas expressões lutam com cada polegada de pele. Dizer que Nicki Minaj é modesta seria uma maldita mentira; Minaj tem sido escandalosamente descarada e sexual desde o começo. Mas alguma de nós é modesta? Quando eu coloco uma saia curta ou um top, eu faço para mais do que a visão do homem e não estou sozinha. As mulheres que escolhem expressar suas sexualidade não estão contratualmente obrigadas a fazer isso por causa dos homens e as escolhas de Minaj geralmente colocam essa visão em questão. O espírito integral de desafio que existe na imagem imposta por Minaj é inegável. O exemplo perfeito é o vídeo de “Lookin’ Ass”, no qual Minaj posa numa roupa reveladora enquanto literalmente destrói o olhar masculino. Minaj também geralmente justapõe imagens sexualizadas co letras sobre seus próprios desejos sexuais ou os homens que ela está aceitando – ou, frequentemente, rejeitando – como parceiros. Na faixa “A$$” de Big Sean, que literalmente é sobre homens apreciando o bumbum feminino, Minaj questiona o tamanho do próprio Big Sean. “Ele gosta quando fico bêbado, mas eu gosto quando ele está sóbrio“, ela nos diz em “High School“. Em “Barbie World”, ela remarca”: “Sim, senhor, eu sou a vadia. Foda-se, seu coelhinho idiota“, logo antes de dar risada. Essas decisões de letra deixam claro que ela exala desejo sexual, não disponibilidade sexual. Ela domina sua sexualidade, vez sim e vez tambem – seja na conjunção ou em oposição aos desejos dos homens, desejos que ela repetidamente questiona. E quando as feministas cometem o erro de questionar a reputação de sua própria sexualidade, elas caem nas matrizes opressivas e problemáticas que situam o prazer sexual como antiético ao auto-respeito e empoderamento. É isso que me leva ao último ponto feminista de contentação na carreira da Minaj: a lap-dance que ela oferece ao Drake em “Anaconda”.

“A música ‘Anaconda’ é uma declaração ousada e sexualmente-positiva sobre a habilidade feminina de dominar seu próprio corpo e sexualidade. O vídeo, no entanto, falha completamente e seguir o potencial da música de ser uma mensage feminista poderosa, ao contrário, se focando no cansativo contexto do corpo hiperselsualizado corpo feminino,” Sophie Kleeman escreve para Mic quando o vídeo saiu. “Ele abre com Minaj e um grupo de dançarinas numa selva, se contorcendo e suadas conforme rebolam contra o chão e umas as outras. Também tem a Minaj numa cozinha cortando uma banana e se cobrindo de creme. Drake também aparece – mas apenas como um suporte para uma lap-dance durante a qual, conforme Gawer nos informou, ele teve uma ereção. Talvez isso não conte como empoderador para ninguém além de Drake.” O que Kleeman perdeu em sua análise, entretanto, é crítico. O próprio prazer sexual do Drake não tem nada a ver com aquela lap-dance e sua mão pairando diz tudo. Durante a montagem da lap-dance, Drake está sentado imóvel, sem permissão da Minaj de tocá-la de maneira nenhuma conforme ela rebola e se esfrega nele e perto dele. Como Kevin O’Keefe escreveu para The Wire, “Ele só está aqui para experienciar a bunda da Nicki.” Durante aquela lap-dance, Minaj é quem está no controle e ela está agindo em seu próprio desejo sexual. Ela está simplesmente expressando seu desejo sexual. Sua lap dance não é um ato de sedução, nem de submissão. Assim como todas as palmadas, reboladas e bagunças centradas naquela bagunça de vídeo. Fazer um vídeo sobre sua própria bunda pode parecer contraditório para os valores do feminismo, mas se você olhar de perto, está acontecendo por fora e em desafio ao padrões de beleza ideal que rebaixam as mulheres e à visão masculina que controla seus corpos. Como Lindsay Zoladz escreveu para Vulture:

Muitas pessoas – proeminente entre elas, Nicki Minaj – estão contentes em falar sobre a bunda da Nicki Minaj, mas menos querem confrontar um certo senso de desconforto que ela cria na maioria de seus vídeos, como o decidido, preto e branco, clipe do single “Lookin’ Ass” de 2014 (no qual ela quase que literalmente mata a tiros um observador masculino) ou sua ótima colaboração de 2012 com Cassie, “The boys” (que brinca com Thelma & Louise em tons de loja de doces e pop-art). E está lá com “Anaconda” também. Esses vídeos reencenam uma certa barganha violenta com seu público que tem a audácia de pensar que Nicki está rebolando para ele; eles atraem com sua imagem neon e cheia de sexualidade e então, de repente, inesperadamente se tornam confrontos.

Não é o olhar masculino, as dominantes narrativas de sexualidade, ou a feminilidade hegemônica que reinam verdadeiras através do trabalho da Minaj. É o seu próprio estado de ser sexual. E quando a Nicki Minaj desfila em um bikini fio dental ou transpira sua sexualidade no meio de algo que seria empoderador, não é uma contradição incoerente ou causa de debate. É simplesmente um reflexo de como muitas mulheres – mulheres que, com frequência, se sente confortáveis e poderozas com suas escolhas – estão vivendo suas vidas sexuais. Como seres sexuais, temos permissão de induzir em perseguições egoístas de prazer sem ter vergonha. Temos permissão de ser francas sobre nossas experiências. Somos feministas que fodem e muitas vezes parece que as duas coisas acontecem ao mesmo tempo. Isso que é a parte central do trabalho da Minaj: ela nunca foi tímida quanto a sua sexualidade, nem sutil ou educada. O lirismo dela tem sido consistentemente vulgar, chocante e adorável – e com frequência, tem abraçado uma narrativa mais realista sobre sexo do que as músicas que descrevem isso usando metáforas. Enquanto a Beyoncé diria “é mais doce no meio”, a Minaj provavelmente dirá “eu deixo ele brincar com minha boceta e então lambo seus dedos.” O mesmo sentimento, mas com um lugar muito diferente na matriz da política de descência, política de gêneros e música comum.

“Anaconda” não foi um incidente isolado e não foi a primeira vez que Minaj articulou sua identidade nem será a última. Durante suas declarações feministas, entretanto, apareceu o mesmo espectro de dúvida. As feministas se negam a acolher o discurso da Minaj com seriedade, continuamente em dúvida entre abraçar sua sexualidade crua e pessoa excêtrica com seu próprio discurso auto-declarado de poder feminino. É claro que quando a Minaj está fazendo discursos feministas numa linguagem que lembra o discurso feminista comum, as pessoas estão prontas para pular no vagão – mas seu estado supersexual de ser, sua agressão sexual e ocasional dominância sexual, geralmente os preocupam. Isso é extremamente problemático. É a impossibilidade de finalmente abraçar a imagem de uma mulher poderosamente sexual em seu estado de existência que permite a visão distorcida da sexualidade feminina de prosperar. Quando feministas honram as letras feministas da Minaj, como fizeram com “Anaconda”, e então a abominam por se expressar com imagens e videos cheios de sexualidade, eles estão brincando com as mesmas narrativas dominantes sobre a sexualidade das mulheres que perpetuam a culpa da vítima, o Slut-shaming e a subordinação da mulher.

Além dos debates sobre “Anaconda”, Minaj continua sendo uma das poucas artistas femininas dispostas a confrontar o gênero que coloca pressão em sua carreira todos os dias, seja na música ou em entrevistas. Mais cedo, Minaj declarou separada das outras, meninas mais submissas ao mundo. Ela declarou a intenção de “Go Hard“. Ela se abriu quanto a sua dúvida em “Can anyone hear me?”, articulando seu desejo de ser verdadeira consigo mesma enquanto progredia como artista. Ela falou sobre sua intenção de abrir espaço para as mulheres no rap em “Still I Rise“. Em “Here I am“, ela descreve um relacionamento abusivo – e articula sobre seu próprio valor conforme ela se livra disso. Ela falou francamente sobre seu poder de representar as vozes não ouvidas na música popular em “I’m the best“. Em “Fly“, ela falou sobre quebrar as restrições que existem em sua indústria. Ela tomou em uma contemplação excessiva em “Dear Old Nicki“, publicamente falando e abraçando a pessoa do rap que ela presumidamente destruiu ao chegar ao topo, num ato corajoso de auto-aceitação. Ela se comparou com Marilyn Monroe numa faixa com o nome da estrela, admitindo ambas seus defeitos e determinado auto-valor. Ela “endorsou essas strippers“. Ela cantou sobre ser a tal com Ciara em “I’m Legit“. A prova está aí, pode acreditar, danen-se as políticas de decência.

Nicki Minaj é uma feminista e ela expressa isso em seu trabalho. Na maratona, o que Minaj tem contribuído para o discurso existente e corriqueiro da opressão das mulheres é a perspectiva de alguém que se nega a ser definida por qualquer categoria que ela não clame para si ou limitada pelos desejos de outras pessoas. A blogsfera feminista de hoje em dia pode se apegar muito rm quem se identifica como feminista e quem deveria ser permitido a tal, mas o que essa conversa ignora são as variações entre nós mulheres e a real experiência vivida por mulheres vivendo essas variações. Em um universo no qual estamos escravizados pela dicotomia da “vadia” ou “virgem”, Nicki Minaj escolheu viver dentro de seu próprio espectro de expressão sexual – e ela têm provado que, não importa em qual espectro estejamos, ainda somos quem nós bem quisermos, feministas e tudo.

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4 Comments

  • Reply
    Who's thanny? » Arquivo Semana Coisa de Mulherzinha
    October 28, 2014 at 2:17 pm

    […] Nicki Minaj não quer estar em sua zona de conforto divulgação Semana Coisa de Mulherzinha. Postado por Jully em […]

  • Reply
    Lu Gomes
    January 17, 2015 at 3:33 pm

    Sou umas dessas feministas que ainda olham com repulsa pra esses excessos. Entendo a crítica e até concordo em parte. Pois, sei bem que apoiar a censura deste estilo, acaba por mantê-las marginalizadas. No entanto, ñ posso simplesmente ignorar que o show business ñ tem a mínima intenção no empoderamento feminino, ou seja, ñ tem limites na objetificação para alcançar seus lucros.

    O que acaba por ignorar qualquer dano que possa vir a surgir. Por exemplo acabar se popularizando tanto que ultrapasse os limites do bom senso, como ocorre aqui com o funk proibidão, em que crianças estão com a sexualidade cada vez mais precoce, fazendo regredir todo o empenho da luta contra a pedofilia, erotização infantil e a anulação da infância.

    Peço que olhem para nossa preocupação com mais carinho, pois, tenho percebido muita falta de consideração e até mesmo respeito no trato das diferenças de militância aqui no Brasil.

    Espero ter sido clara. /smile

  • Reply
    Amanda
    August 6, 2015 at 10:18 pm

    Nick é muito linda e poderosaaaaaaaa.

  • Reply
    Déborah
    February 11, 2016 at 4:07 pm

    É muito raro encontrar alguem que se preocupe em entender o que nicki quer dizer antes de falar “a essa merda de rap q só fala de bunda”

    Fiquei maravilhada com a publicação <3

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