Cinema

Na Estrada (2012)

Por Byzinha

Como começar esse post? Sabe quando você tem um livro que você nem sabe o quanto gosta dele? Deixe-me explicar melhor.

Existem livros que conquistam o leitor desde as primeiras linhas; livros que o leitor fica implorando a cada virada de página para continuar bom daquele jeito, com os quais você quer dormir e comer e que você relê sempre que sente vontade. E então existem livros como On the Road, diferentes de tudo que você já leu de uma forma que você não tem muita certeza se está gostando, mas quando a última linha é lida, você sente como se um pouco da sua vida tivesse mudado.

Eu era daquelas que, quando ouvia o nome “Salvatore”, lembrava de Sal Paradise, enquanto todo mundo lembra de Vampire Diaries e o porquê é bem simples.

On the Road é um clássico, o que significa ser um pedaço de arte que nem todo mundo sabe lidar (Deus sabe o quanto eu não consigo nem olhar para Jane Austen e seus clássicos~~ que todo mundo adora menos eu). Eu li por curiosidade e me peguei devorando linha após linha. O livro tem uma cadência tão diferente de tudo que já foi escrito… Tem parágrafos eternos e ritmo e alma. E sexo.

E então eu tenho que falar do cara na direção desse filme: Walter Salles. Dei pulos de alegria quando soube que ele tinha pegado esse papel, porque ele é tão. bom. em retratar relatos de viagem (Diários de Motocicleta, uma das melhores coisas do cinema, ninguém?). Eu acho que ninguém teria a sensibilidade que ele tem para narrar uma história como OTR e tenho plena certeza que estou certa. Esse post é o relato de uma que não sabia o quanto amava a história, que foi assistir sem saber exatamente o que esperar de algo tão esperado e que saiu da sala do cinema completamente satisfeita.

A primeira coisa que devo dizer é que o filme tem uma cadência muito semelhante à do livro, então nem todo mundo vai gostar. Suas duas horas de vinte minutos são como os parágrafos sem pontuação de Kerouak, uma avalanche de pensamentos e informações. Basicamente, eu diria que ele foi feito para os fãs do livro. Quem não leu e não tem pelo menos um pouquinho de paciência vai ficar perdido ou entendiado, porque são muitas histórias a serem contadas em pouco tempo, sem as centenas de páginas e detalhes que o livro concede. É como Senhor dos Anéis. Você só realmente entende os filmes sem ter lido os livros se você assistir disposto e prestando bastante atenção; sair para ir ao banheiro pode ser sua ruína.

O elenco, assim como o de Jogos Vorazes, é daqueles de trazer lágrimas nos olhos só de ler a lista. Sam Riley, Garrett Hedlund e Kristen Stewart funcionaram muito bem. De fato, Sam foi a melhor escolha para Sal Paradise, interpretando bem o jeitão mais reservado de Sal, muito bem explicado em seu clássico quote “Então fui atrás deles como fiz minha vida toda indo atrás de quem me interessa, porque as únicas pessoas que me interessam são as loucas, aquelas que são loucas para viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, aquelas que nunca bocejam ou falam clichês, mas queimam, queimam, queimam como fogos de artifício explodindo feito aranhas no céu e no meio você vê aquela luz azul e todos dizem “Awww!”

Garrett é o grande destaque no papel de Dean Moriarty. Houve um momento enquanto eu lia o livro que precisei parar. Era algum ponto em sua última viagem, a parte quatro. Parei porque Dean me incomodava amargamente. E enquanto eu voltava para casa da sessão do cinema, me veio essa comparação. Alaska Young, a vizinha pervertida com seu pervertido coração de Quem É Você, Alasca? de John Green. Ela é tão. louca. Louca para viver, louca para falar, louca para ser salva, desejosa de tudo ao mesmo tempo. Tão tudo ao mesmo tempo que chega um momento da leitura que você não sabe se gosta dela, mas quando você termina o livro… Ela é tão forte, intensa, profunda. Eu cheguei à essa conclusão de que ela é uma releitura de Dean Moriarty, mesmo sem eu saber se Kerouak teve alguma influência na escrita do John (acho que não, levando em consideração o quão linear é sua linha de pensamento). Garrett trouxe tudo que devia ser trazido à tona sobre Dean Moriarty, ele simplesmente é.

E, é claro, Kristen Stewart. Quem acompanha os trabalhos dela desde sempre vai ficar satisfeito com esse aqui. Marylou, bela e nova, sabe enrolar um baseado como ninguém. Ela gosta de Sal porque ele não é louco, Sal gosta dela porque ela é como todas as pessoas que o interessam. Kristen floresce e não é por causa da quantidade de nu parcial que ela tem que fazer. Sabem, OTR é para todos aqueles que gostam de falar mal dela, para todos aqueles que procuram defeitos. Aqui vai minha dica: PARE DE SER IDIOTA. Eu detesto a Demi Lovato fazendo humor, mas tenho que tirar o chapéu para o papel que ela fez em Grey’s Anatomy. Você pode não gostar de um artista, mas não pode ser idiota ao ponto de não apreciar quando ele faz algo realmente bom. Branca de Neve é horrível? Sim, mas não é por causa da Kiki, é por causa da história mal contada. OTR é sobre crueza e talento e ela NUNCA teria sido escalada se não tivesse nada disso, porque Walter Salles não é burro.

O elenco de apoio também é de se tirar o chapéu. Amy Adams, Viggo Mortensen, Steve Buscemi, Tom Sturridge, Kirsten Dunst, Alice Braga… Eu poderia ficar falando deles o dia inteiro e essa review ficaria muito maior do que já está.

Só tem mais duas que eu quero falar sobre esse filme. 1) A música. O que mais me chamou a atenção enquanto lia era o quanto o livro realmente tem uma cadência. As línguas dizem que ele é um livro para ser lido em inglês, o que é bem verdade justamente por isso. Existe uma influência muito forte do jazz, com seus improvisos e contornos. Dean explica em uma palavra: “TIMING, MAN! TIMING.” E, oh Deus, o filme tem música. Eu poderia fechar os olhos e apenas ouvir e já seria genial. Solos de sax, jogos de palavras. A primeira coisa que o filme tem é música e é assim que ele termina. Tudo foi perfeitamente colocado, é simplesmente lindo.

2) Tirem as crianças da sala. Existe um motivo muito óbvio para o filme ser para maiores de 16 anos. Tem sexo, nudez e gemidos do início ao fim. Ele é sobre uma geração não tão despudorada quanto nossos amigos dos anos 70, mas pessoas sem a sombra das doenças sexualmente transmissíveis, de antes da AIDS. Não que isso fosse uma desculpa, mas era tão simples, o fim dos anos 40. São jovens cujas vidas estão regadas à sexo, drogas e aventuras e música e mais música e mais sexo. Não é como se a história não fosse contada, porque ela é e com maestria. É só que o sexo é uma parte importante do todo e ele não foi excluído. Estão avisados.

A fotografia e uso da câmera é outra coisa linda de mais.

Depois de tudo, somos guiados para o final, aquele final que encheu meus olhos de lágrimas – no livro e no filme. E, como em Diários de Motocicleta, eu me peguei sentada vendo os créditos finais rolarem esperando eu conseguir parar de chorar.

Obrigada Walter Salles.

Assim, na América, quando o sol se põe e eu sento no velho e arruinado cais do rio olhando os longos, longos céus acima de Nova Jersey, e posso sentir toda aquela terra rude se derramando numa única, inacreditável e elevada vastidão até a Costa Oeste, e toda aquela estrada seguindo em frente, todas as pessoas sonhando nessa imensidão, e em Iowa eu sei que agora as crianças devem estar chorando na terra onde deixam as crianças chorar, e essa noite as estrelas vão aparecer, e você não sabe que Deus é a Ursa Maior? E a estrela do entardecer deve estar morrendo e irradiando sua pálida cintilância sobre a pradaria antes da chegada da noite completa que abençoa a terra, escurece todos os rios, recobre os picos e oculta a última praia e ninguém, ninguém sabe o que vai acontecer a qualquer pessoa, além dos desamparados andrajos da velhice, eu penso em Dean Moriarty; penso até no velho Dean Moriarty, o pai que jamais encontramos; eu penso em Dean Moriarty.

Ficha Técnica

Direção: Walter Salles
Elenco: Sam Riley, Garrett Hedlund, Kristen Stewart, Kirsten Dunst, Amy Adams, Alice Braga, Viggo Mortensen, Steve Buscemi, Terrence Howard, Tom Sturridge
Produção: Rebecca Yeldham
Roteiro: Jose Rivera, Jack Kerouak
Fotografia: Eric Gautier
Trilha Sonora: Gustavo Santaolalla
Duração: 137 min.
País: EUA
Gênero: Drama, Aventura
Classificação: ★★★★★

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8 Comments

  • Reply
    Thais Teixeira
    16/07/2012 at 1:19 pm

    Caracaaaaaaaa…. assino em baixo de tudo o que vc disse sobre Kristen Stewart!! As pessoas tem que deixar de ser idiotas mesmo!! Adorei seu post, ainda não assisti o filme pq o cinema aqui da minha cidade é super atrasado, Branca de Neve está passando agora pra vc ter ideia … rsrsrs
    Acho que vou até Sorocaba para poder assistir logo OTR!! Adorei muito mesmo seu post!!!

    Xoxo
    http://amigadaleitora.blogspot.com.br/
    Thais Teixeira recently posted..Leitores Sortudos #01My Profile

  • Reply
    Juliana Pires
    16/07/2012 at 2:05 pm

    Eu precisava de um empurrãozinho para continuar a ler o livro, não que eu não estivesse gostando, mas precisava de um estimulo.
    E depois de tudo que eu li, com certeza vou pegar o livro para terminar, o filme, nem sei se vai dar para mim ir ver, mas fica para depois, por que com certeza eu quero ver também.
    Não sei qual é o problema das pessoas com a Kris, tá, eu sei, as pessoas sempre vão julgar ela por conta de Crepúsculo, o que é muito ridículo, não quero dizer que ela é a melhor atriz do mundo, mas ela tem talento. /blink
    Juliana Pires recently posted..Resenha: Fábulas – Lendas no Exílio (HQ)My Profile

  • Reply
    Ana Beatriz
    16/07/2012 at 2:58 pm

    Quero muito ver! Mas antes eu tenho um interesse em ler o livro antes. Ainda não li, e todo mundo elogia, mas acho que vale mais a pena você conhecer a obra antes, e depois passar pelo filme, ainda mais sendo um livro tão importante como esse. O filme me parece ser ótimo. O pessoal que critica a Kristen é porque é hater, ou não conhece todos os trabalhos dela. Normalmente, é isso. Já vi outros filmes em que ela atua bem, e aposto que esse não é exceção.
    Beijo!
    Ana Beatriz recently posted..Coisas não ditasMy Profile

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    Sam
    16/07/2012 at 4:27 pm

    To até sentindo sua ~~emossoa ao escrever essa resenha, whoa.

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    Vitória Liz
    16/07/2012 at 5:01 pm

    Que resenha linda. Eu não tinha encontrado as palavras certas ainda pra descrever o filme e o que eu senti vendo ele, mas pra que eu ainda me daria o trabalho se você acabou de dar todas as palavras pra mim? O elenco é lindo, a direção é linda, a trilha sonora é linda, as cenas são lindas, o roteiro, os quotes… Tudo, tudo lindo. Eu quase chorei no final também. Mas eu fiquei ali só sentada, quase chocada, esperando a ficha cair de que eu tinha acabado de ver um filme do caralho. q

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    Mareska
    16/07/2012 at 8:50 pm

    Ain, se é parecido com o livro no ritmo, nem sei se vou gostar D:
    Mareska recently posted..BANIDOS (Sophie Littlefield)My Profile

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    Lizzie
    17/07/2012 at 3:14 am

    Nossa, que texto lindo e apaixonado! Comprei o livro há pouco tempo e pretendo ler em breve, mas admito que a completa falta de parágrafos me assustou! XD E vou assistir o filme com certeza. Em todos os trabalhos da Kristen que eu vi, ela estava com uma atuação bem mediana, para não dizer ruim. Mas não é uma escalação que vai me fazer deixar de ver um filme.
    Lizzie recently posted..Maratona Freeman: Simplesmente amorMy Profile

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    Andressa Leite
    17/07/2012 at 12:21 pm

    Confesso que eu nunca tinha ouvido falar de Jack Kerouak até quando o filme estava para ser lançado . Gostei muito do elenco, e com toda certeza quero assistir esse filme, mas antes vou ler o livro, claro. Também não assisti o Diário de um Motocicleta, estou devendo.

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