Textos

Limonada

Dois anos atrás, o mundo sofreu um baque com a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, um feito que muitos achavam impossível mas que, de alguma forma, aconteceu. Não foi a primeira guinada arriscada à extrema direita que aconteceu no mundo, mas definitivamente foi a que afetou mais gente – levando em consideração que, querendo ou não, os EUA é a nação mais importante/influente do planeta.

Pouco tempo depois, Black-ish, uma das comédias mais inteligentes da TV no momento (e talvez de todos os tempos) exibiu o episódio “Lemons” (temporada 3, episódio 12), que mostrava o impacto da eleição de Trump não apenas naquela família de negros da classe média, como também nos colegas de trabalho de Dre, cada um vindo de um plano de fundo diferente. Na época, achei o episódio extremamente importante e bem colocado, e sempre que eu via o Trump fazer/falar algo absurdo em qualquer lugar, eu tentava lembrar de Lemons.

Fast forward dois anos depois, aka agora, no Brasil, que teve eleições mais polarizadas que aquele fatídico 2014. Por muito tempo, confesso que esqueci do episódio de Black-ish, e confesso que contribuí para brigas massivas de família no curto período entre o primeiro e segundo turno das eleições, mas conforme 28 de outubro se aproximava, mais eu lembrava de Lemons. E é por isso que vou tentar fazer um recap do episódio, traçando paralelos entre a situação estado-unidense e a nossa.

Como todo episódio de Black-ish, “Lemons” começa com uma reflexão do Dre. “O que acontece quando perdedores e vencedores deveriam estar no mesmo time? Sério, tô perguntando pra valer.” No Brasil, antes mesmo das eleições terminarem e alguém ser declarado o vencedor, o sentimentno era o mesmo do Dre – “Como pode essas pessoas que convivem comigo, que têm uma realidade similar à minha, não estarem no mesmo time que eu? Como pode elas estarem contra mim?” Nosso país, assim como o deles, virou um Nós x Eles, e nenhuma das partes foi flexível o suficiente para estabelecer um diálogo com a outra.

(eu sei que um dos lados era mais agressivo que o outro, mas não vou entrar nesse mérito agora. aguenta aí)

Na série dos Johnson existem três núcleos: os adultos, os filhos e os colegas de trabalho do Dre, e “Lemons” brincou bastante com a interrelação deles. Enquanto os quatro filhos – dois adolescentes e dois pré-adolescentes – têm “dias de reflexão” e eventos temáticos sobre a democracia na escola, Bow, a mãe, está passando por uma crise do “o que deu errado” e Dre está tentando fazer seus colegas focarem novamente no trabalho que deveriam estar fazendo, ao invés de sentarem indignados com a situação pela qual o país está passando.

O enredo central, no entanto, é o de Dre, e é onde irei focar na maior parte desse artigo.

O fato do episódio se situar mais de dois meses depois da eleição é o momento perfeito para tocarmos nesse assunto. Acontece que estamos vivendo uma situação muito parecida com a dos nossos brothers do hemisfério norte e por todos os motivos errados.

O mundo tinha se tornado um vortex gigante de ansiedade e euforia, e nós parecíamos estar mais abertamente divididos do que estivemos por muito tempo.

Todos os dias, no trabalho de Dre, parecia haver um motivo para se indignar, ao ponto de isso estar levando Dre à loucura. Seus colegas colocavam de lado o trabalho para reclamar e resmungar sobre o presidente, ao ponto de chegarem nesse episódio tentando entender de quem é a culpa pela eleição do Trump – e é aqui que posso traçar o melhor paralelo conosco.

Quando confrontado por sua sócia sobre não ter votado em Trump, Leslie, o chefe, tinha um discurso pronto. Trump não é direitista de verdade. Ele nem é político. Fosse um candidato forjado no pensamento da direita concorrendo à presidência (como Mitt Romney), ele não hesitaria em votar. Além do mais, sua riqueza era baseada numa mão de obra que Trump estava ameaçando deportar, então também tinha isso.

Veja bem, esse é um dos motivos da verdadeira direita, aquela PSDBista, não ter votado no Bolsonaro. É claro que os planos anti-imigração não têm o mesmo impacto que tiveram nos EUA, considerando que o Brasil, virtualmente, não tem imigrantes, mas no que se trata da direita, o pensamento foi exatamente o mesmo. O Bolsonaro não é um presidente de direita, e ele não é um presidente liberal. Ele tem sua própria agenda, e quem realmente acredita na pauta da direita e/ou liberal não votaria (nem votou) nele. Existiam candidatos perfeitamente perfeitos para isso (Amoedo, Meirelles, Alckmin) e eles não tiveram a menor chance porque de alguma maneira o discurso do Bolsonaro se espalhou como erva daninha de uma maneira que ninguém poderia imaginar.

Como aconteceu nos Estados Unidos com Trump, perdeu-se o controle no Brasil. Nem mesmo os que estavam acostumados a dominar e manipular tudo foram páreis para o que estava sendo feito pelo grupo atrás do nosso presidenciável. E agora, estamos aqui.

Em Black-ish, como aqui, ninguém sabia como a situação tinha chegado onde estava, e isso gera uma grande especulação no episódio. Os colegas de trabalho de Dre (hilariamente) decidem tentar decifrar de quem é a culpa da eleição – passando pelos gays, pelos latines, chegando nos negros – com o argumento de que se eles tivessem se empenhado em votar na Hillary como tinham se empenhado em votar no Obama, nada disso teria acontecido – até chegar no principal alvo daquela sala de escritório: a Mulher Branca que não abraçou a oportunidade de eleger a primeira presidente mulher deles.

E é aqui que encontramos outro ponto em comum. No Brasil, também estamos tentando encontrar os motivos por trás da política estar como está, com o presidente que está e os ministros que estão. Todo mundo está tentando encontrar alguém para culpar. Não adianta fazer essa cara, nós todos sabemos que é verdade. O Nós não tem a menor ideia do que se passa na cabeça do Eles para deixar certas coisas acontecerem dessa forma.

Mas eu já devo ter contado que Black-ish é uma série excelente, escrita de forma inteligente, e eles não decepcionaram ao dar voz à Mulher Branca da equipe, Lucy, que estava quieta pelos mais de dois meses de discusão política de sua equipe. Quando confrontada por Daphne quanto ao porquê de ela não ter votado numa “irmã” para presidente, a resposta – dada sob os holofotes de maneira hesitante – é que “mulheres brancas não são irmãs e se odeiam” e ela havia votado no Trump.

É claro que isso causa a maior confusão, e isso também reflete a nossa situação aqui em terras tupiniquins. Hoje em dia, nós também nos sentamos ao lado de pessoas e nos perguntamos se ela é uma de Nós ou um Deles, e se for um Deles, o que diabos ela está pensando. Nós também agora temos que andar na rua nos perguntando se as pessoas que passam por nós são contra ou ao nosso favor. E na maior parte do tempo, nós não somos capazes de ouvir o que aqueles cuja opinião diverge da nossa têm para dizer.

Lucy quase não tem a chance de se explicar, embora seus colegas de trabalho clamem que gostariam de entender sua linha de pensamento. O primeiro argumento com o qual ela é enfrentada é a do feminismo branco, que costuma não ser muito inclusivo. Um feminismo para poucos que desvaloriza a luta das minorias. Ela refuta o argumento do “poder feminino” explicando porque Hillary é a Uma Mulher pela qual ela não votaria – como há negros pelos quais seus colegas de cor não votariam também.

Isso se parece muito com o argumento que alguns usaram contra o Haddad – de que não votariam no PT de jeito nenhum. Fosse qualquer outro contra o Bolsonaro, tudo bem, mas Haddad não. O PT deve ser rejeitado com todas as forças, é o partido que desgraçou o país e Nunca Nada Bom Aconteceu Quando Eles Estavam No Poder. A Hillary, pelo amor de Deus, aqueles emails. E o Haddad é PT. Para alguns (muitos) isso já era de mais.

E então veio o argumento sobre Trump ser misógeno, que é quando os argumentos de votantes no Trump e votantes no Bolsonaro se alinham ainda mais. Lucy não parece gostar desse aspecto do Trump, mas “pelo menos ela sabe o que se passa na mente dele, ao contrário de Hillary Clinton, que ninguém sabe o que se passa pela cabeça.” E é aqui que o contra argumento também soa familiar. “Pelo menos ele fala o que pensa. Quem sabe o que se passa na cabeça do Haddad?”

Bem, os colegas de Lucy dizem para ela com todas as letras que ninguém nunca foi tão preparado para ser presidente como a Hillary, e nós falamos algo bem parecido. O Haddad foi eleito um dos melhores prefeitos em seu mandato em São Paulo. E para pessoas que insistem tanto em dizer que não há mais educação como antes, como podem achar que um PROFESSOR não é um candidato bom o suficiente para liderar o país?

Quando Lucy admite que sabe que Trump não é a melhor pessoa do mundo, seus colegas têm a única resposta possível: É claro que não, ele é o demônio. (que se parece muito com adivinha quem?)

Agora, é aqui que o argumento de Lucy fica interessante. Como muitas das pessoas que convivem conosco, ela afirma que não é uma maluca de extrema direita. Ela votou no Obama nas duas vezes, inclusive, e fez os pais de direita dela votarem nele também! Mas acontece que se passaram dois mandatos, o pai dela continua desempregado, sua cidade natal está em decadência e Hillary chegou dizendo que as coisas basicamente continuariam nessa mesma linha. Isso não funcionaria para ela e sua família.

Okay, estou te ouvindo. Mas e quanto à todas as outras famílias que serão afetadas? Famílias gays, mulçumanas, imigrantes?

Me permitam tirar um espaço para contar uma histórinha antes de continuarmos. Meu pai – um homem negro, da periferia, que vive da música e cresceu na ditadura – votou no Bolsonaro. Ele não quer me explicar porque optou por esse voto, mas vez o outra ele me diz assim: que ele votou em todos eles, e viu todos eles, e nenhum deles deu certo. Então talvez agora, com uma mudança drástica, talvez as coisas Mudem.

É claro que esse argumento não é bom o suficiente para mim, como não é bom o suficiente para muita gente, mas o que falhamos em perceber é estamos sempre apontando o dedo para os que falam de um ponto de privilégio e esquecemos de olhar para aqueles cujo discurso se perdeu. Meu pai não tem privilégio nenhum. Ele é negro, ele é músico, ele vive na periferia. E nós sempre só tivemos o suficiente para seguir vivendo, raramente sobra alguma coisa para ostentar. Nós não viajamos para o exterior, não temos celulares de última geração, e nossa árvore de natal nunca esteve cheia de presentes. Se você perguntar pro meu pai se ele espera que agora poderemos viajar para fora, comprar um celular de última geração, encher a árvore de natal de presentes, ele vai dizer que não. Ele não acha que nossas vidas irão Melhorar Completamente, ele só acha que a partir agora elas poderão Melhorar Um Pouco.

O termo em inglês para isso é “wishful thinking”. Não sei se ele está familiarizado. Acho que não. O que eu sei é que o governo PT fez um monte de coisas boas que ajudaram muita gente que estava “pior” que nós, e ele fez um monte de coisas ruins que prejudicou gente “melhor” que nós, enquanto nós ficamos como a Lucy: se passaram 14 anos e meu pai ainda não tem clientes o suficiente, nossa cidade continua à beira do precipício e o Haddad chegou dizendo que traria o Brasil de Lula de novo. Para muitos, isso não iria funcionar.

Não importa quais sejam os argumentos, não podemos esquecer de um pequeno detalhe: como Trump, Bolsonaro ganhou. E como Lucy, as pessoas que votaram por Mudança continuam pedindo para Nós darmos a ele uma chance. Para quê não conseguimos saber. Porque não conseguimos entender como ele era uma opção lógica para resolver as coisas. Mas para muita gente, é só isso que é necessário – dar a ele uma chance.

Quando confrontado por seus colegas por não estar escolhendo um lado naquela discussão toda, Dre foi acusado de não se importar com seu país. Dre – que é negro e batalhou para chegar onde está na vida. E foi isso que ele disse em resposta:

Você acha que não me importo com esse país? Eu amo esse país, mesmo que às vezes ele não me ame de volta. Minha vida toda, meus pais, avós, eu, para a maioria das pessoas negras, esse sistema nunca funcionou para nós. Mas ainda assim jogamos bola, fizemos nosso melhor para viver de acordo com as regras sabendo que as coisas nunca estariam ao nosso favor. Tivemos que morar em vizinhanças pelas quais vocês não passariam, mandando nossos filhos para escolas com livros tão desgastados que não dá para ler, trabalando em empregos que vocês não considerariam em seus pesadelos. Negros acordam todos os dias acreditando que nossas vidas irão mudar, mesmo que tudo ao nosso redor diga que não. Pra falar a verdade, pergunte para a maioria dos negros e eles dirão que não importa quem ganhasse essa eleição, eles não esperariam que o gueto melhorasse. Mas mesmo assim, eles votaram, porque é isso que deveríamos fazer. Você acha que não estou triste por Hillary perder? Que não estou apavorado com o que Trump está para fazer? Estou acostumado com as coisas não acontecendo do jeito que eu espero. Sinto muito que você não esteja e que isso esteja explodindo sua mente, então perdão se eu fico um pouco ofendido por não ter visto toda essa raiva quando tudo estava acontecendo com meu povo desde que estávamos enfiados em barcos e acorrentados. Eu amo esse país tanto, talvez mais, que vocês amam, e nunca, jamais esqueça disso.

Enquanto tudo isso acontecia no serviço do Dre, sua filha mais velha, Zoe, estava fazendo uma limonada para a “Reunião da Cura” que sua escola estava promovendo. Sempre que ela era confrontada com o significado de sua limonada, ela dava uma resposta vaga, até que Bow – desesperada por encontrar uma forma de ajudar, agora que sentia ter falhado com seus filhos ao não dar a eles um mundo melhor – insistiu tanto que não houve mais opção além de falar o porque dela ter decidido ajudar dessa forma.

Zoe se certifica de lembrar Bow que nossos valores não mudam só porque perdemos uma eleição. Mesmo que estejamos nos sentindo odiados agora, é sempre bom ter em mente que somos o povo e temos poder. Nas próximas eleições (com fé de que elas vão acontecer) teremos a chance de votar de novo e fazer diferente, talvez de maneira mais eficiente.

Quando Junior, o segundo filho dos Jackson, após ser solicitado para discursar o “I have a dream” de Martin Luther King, descobriu que o discurso original era sobre muito mais do que “um sonho”, ele começou a ser “corrompido” pela raiva que vem quando entendemos que o mundo não é justo, mas seu avô lhe deu um conselho baseado no discurso de MLK: que as pessoas precisam lutar sim, mas que também precisam saber pelo que estão lutando. Pelo sonho.

Agora, para fechar o episódio, devo dizer para vocês que eles não oferecem uma solução sólida. Dre só sabe de uma coisa: que devemos ser mais unidos da próxima vez, para sermos agentes de Mudança juntos. Leslie, tentando ser a voz da razão, questiona como isso seria possível se “metade de nós é maluca” e Dre também tem uma resposta – que é preciso parar com isso. Quem em sã consciência votaria no Trump? No Bolsonaro? Não sabemos. Mas talvez seja por isso que perdemos. Mais de 57 milhões de pessoas – no caso do Brasil – sentiram algo e isso não quer dizer que estejam certos, mas não é possível que todos eles sejam malucos, ou racistas, ou odeiem mulheres.

Como minorias, Nós estamos apavorados. Nosso futuro está incerto nesse ponto da vida e não nos sentimos seguros. Mas talvez também estejamos reagindo da maneira errada. Nós precisamos encontrar um meio termo entre sermos capazes de lutar por nossos direitos sem passar dos limites da ética. Como Mano Brown disse em seu discurso, é preciso que reaprendamos a conversar da forma certa, para entendermos a Eles e ajudá-los a Nos entender.

Encontrar um meio termo não é fácil. Malcolm X e Martin Luther King, Professor Xavier e Magneto. Eles e Nós precisamos chegar num acordo e aprender a respeitar o outro. (e okay, sei que existem pessoas que precisam entender isso mais do que outras, mas esse não é o ponto. o ponto é) A começar por Nós, talvez daremos um passo na direção certa.

Do lado de cá Nós não sabemos o que Eles estão pensando, mas como disse Dre, é hora de parar de usar nomes e começar a usar do diálogo, ou as coisas só irão piorar.

A partir de 2019, viveremos em desafio. São tempos selvagens num mundo de ódio, mas ainda temos algo para oferecer. Amor. Que nossa contribuição seja amor, transformando nossos limões em limonada. E seguimos a partir daí.

No processo de ganhar nosso lugar de direito, devemos não ser culpados pelas coisas erradas. Que nós não busquemos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo do copo da amargura e do ódio. Devemos sempre conduzir nossa batalha nos planaltos da dignidade e disciplina. Não devemos permitir que nossos protestos criativos degenerem-se em violência física. De novo e de novo devemos levantar para as alturas majestosas de encarar a força física com a força da alma. […] Continue trabalhando com fé que o sofrimento não-merecido é redimível. Volte […] sabendo que de alguma forma nossa situação pode e vai mudar. […] Com essa fé, iremos poder trabalhar juntos, orar juntos, passar pelas dificuldades juntos, ir presos juntos, nos levantar em favor da liberdade juntos, sabendo que iremos ser livres um dia. […] Quando permitirmos que a liberdade toque – quando a deixarmos tocar em cada vila e cada aldeia, em cada estado e cidade, iremos poder acelerar para aquele dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentis, protestantes e católicos, irão poder dar as mãos e cantar as palavras do hino negro “Livres por fim, livres por fim, grande Deus Todo-Poderoso, somos livres por fim.”Martin Luther King Jr. (tradução livre)

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