Cinema

Histórias de amor duram apenas 90 minutos (2010)

histriasdeamor

“Existem pessoas que simplesmente não conseguem ser felizes. Tudo tava indo bem, eu tinha tudo para ser o homem mais feliz do mundo. Mas eu tinha que achar algo errado.”

Antes de tudo, preciso fazer uma confissão: Sou extremamente chata com filmes nacionais. Ok, eu sou chata, só. Enfim, numa conversa com um amigo sobre esse assunto, ele me indicou esse filme, disse que sabia que eu ia gostar, que ia me surpreender. E foi exatamente isso que aconteceu quando, numa manhã sonolenta, eu decidi assistir “Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos”.

O filme tem uma premissa bastante simples. Zeca, personagem de Caio Blat, é um pseudo-escritor, que está numa crise de criação, e crise de idade. Casado com a bem resolvida Julia (Maria Ribeiro), que trabalha e estuda, Zeca vive numa situação infeliz, sem conseguir terminar o romance que começou – e dessa forma, não conseguindo corresponder as expectativas paternas – e que seria um grande sucesso, se ele conseguisse sair da página 50. Vive em frente ao computador, fumando, tentando escrever, e às vezes perambulando por aí. Como mente vazia é oficina do diabo, já dizia minha vó, Zeca passa a acreditar – ao flagrar a mulher com uma amizade mais íntima com uma mulher estonteante – que está sendo traído, e sim, com outra mulher – a argentina Carol (Luz Cipriota).

O filme tem uma intertextualidade maravilhosa com Dom Casmurro, de Machado de Assis. Zeca é um Bentinho moderno, se notarmos as características comuns como a forma frustrada de lidar com a suposta traição, a falta de confiança em si e nos outros, o menosprezo a si mesmo por se verem submetidos a mulheres mais independentes do que eles jamais serão, somados a uma infantilidade sem tamanho. Afinal, a história que ele escreve não acaba virando seu álibi para fugir das responsabilidades e viver para sempre na sua infância revivida.

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A narração do filme também é completamente Machadiana, altamente pessoal e adaptando a realidade ao que ele quer ver ou sentir. E paira a dúvida, em ambas as histórias, houve de fato a traição? Ou isso é apenas uma visão distorcida, de um personagem que não consegue ver além do provável?  Ao se deparar com uma amizade mais profunda da mulher, tinha que de cara pensar em traição. E vai além, pois ao pensar na traição com outra mulher, entra na possibilidade de se relacionar com as duas. De suposta “vítima”, passa a culpado, criando o triângulo amoroso que embasa o filme.

Um dos grandes destaques da produção, sem dúvidas, é o trio protagonista. Caio Blat entrega-se a Zeca, uma atuação muito madura desse idiota depressivo, na descrição do próprio “um menino que não cresceu e resolveu pra sempre ser menino”. Babaca, mas humano. É um personagem que você passa o filme inteiro mesclando entre gostar, sentir pena e raiva do cidadão. As duas mulheres dão show, Maria Ribeiro rouba a cena, me surpreendeu bastante, e Luz Cipriota é um caso a parte, atrai a câmera a todo o momento com sua beleza, seu sotaque charmoso e sua atuação incontrolável. Daniel Dantas, pai de Caio Blat no filme, também é destaque, partindo dele algumas das melhores citações do filme, melhores diálogos.

A produção de arte tem um quê de originalidade destacando os dois ambientes mais importantes do filme, os apartamentos do casal e da argentina, ambos muito legais e fiéis ao estilo dos personagens. A fotografia das ruas de boêmia carioca também é ótima e dá charme à película, dando uma aura de filme francês a produção, e buscando explorar os corpos dos atores de forma a fazer com que o espectador também perceba o tesão ali envolvido. A trilha sonora também é lindíssima (com um destaque especial, meu, a versão amor de Caetano pra Nature Boy).

Histórias de Amor… é um filme quase completo. Não se segura em algumas partes, principalmente por se focar em um personagem que surpreende e conquista de início, mas fica cansativo a medida do desenrolar do filme. Porém, apesar disso, é um Dom Casmurro de 2010, com direito a mais erotismo (até uns toques Bukowskianos na narrativa) do que era permitido a época de Machado.  É um bom filme, que polemiza uma temática já tão banal, que é a traição.

De construção narrativa bem cuidada , o longa usa e abusa de diálogos inteligentes, sem precisar de artifícios de apelo popular, montagem acelerada ou trilha sonora pop. É simples e ganha o público na lábia, na simplicidade e na identificação com a história.  Trabalha com questões como o medo de jogar com as regras do mundo real, fazer arte e submetê-la ao julgamento, assumir publicamente o gosto por poetas românticos, mas encher a estante de casa com Rubem Fonseca. Enfim, inseguranças naturais numa fase de transição, encruzilhada e afirmação. Quem não conhece alguém como Zeca?

“Histórias de amor duram apenas 90 minutos. A vida possui histórias muito mais longas e interessantes.”

ficha técnica

 

Diretor: Paulo Halm
Elenco: Caio Blat, Maria Ribeiro, Luz Cipriota, Daniel Dantas, Lucia Bronstein
Produção: Heloísa Rezende
Roteiro: Paulo Halm
Fotografia: Nonato Estrela
Trilha Sonora: Andre Moraes
Duração: 90 min.
País: Brasil
Gênero: Comédia Dramática
Trailer: (x)
Classificação: ★★★½☆

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2 Comments

  • Reply
    Jéssika Costa
    06/05/2013 at 10:56 pm

    Eu ainda não vi o filme, mas com certeza irei.
    O bichinho da curiosidade coçou logo na primeira citação, e depois da sua resenha então… foi direto pro topo da minha wishlist, logo depois de somos tão jovens.

  • Reply
    Alan Ventura
    15/05/2013 at 11:11 pm

    Esse filme é realmente muito bom, sua resenha ficou super legal e bem desenvolvida. Parabéns pelo excelente trabalho. =)

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