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Era Natal

Era Natal.

De alguma forma ela sabia. Algo dentro de si a avisou. Era Natal. Em seu exílio, mergulhada em sua própria tristeza e monstruosidade, era como se aquela parte perdida de sua humanidade não tivesse perdido as esperanças, como se um dia tudo ficaria bem de novo, que suas transgressões passadas seriam esquecidas e sua alma, enfim, seria perdoada.

E assim é pelos últimos quatro anos. A luta incessável de sua humanidade, que se recusava a desistir.

Se você tentar o suficiente você pode ser uma pessoa normal. Se tentar o suficiente pode deixar de usar seu interior morto como desculpa para sua inexistente falta de empatia. Era isso que ela precisava segundo seu cérebro, que deixara de ser confiável há muito. Desde o dia em que ele permitiu que as mãos atreladas àquela cabeça tocassem aquela faca.

Não é sua culpa.

Errado.

Para falar a verdade, a humanidade é quem insistia em mantê-la viva. O instinto insuportável de sobrevivência, impossível de ignorar. Todo mês ela saía de seu esconderijo na floresta, andava pelo familiar caminho e seguia até a vila daquele lugar estrangeiro que ainda era estranho para ela. Comprava exatamente o que usaria durante o mês todo, nem mais nem menos. Às vezes ela levava nas costas a carcaça de algum animal que aniquilou quando estava entediada e trocava com algum aldeão por suprimentos. Ela era boa nisso, matar. E sabia que o dinheiro da fuga não duraria por tanto tempo assim.

Ela poderia roubar, é claro. Mas confiaria no cérebro que permitiu que tanta dor fosse infligida? Será que poderia se colocar numa situação onde a vida de alguém mais uma vez estaria à sua mercê, sem testemunhas que a fariam voltar para aquele inferno?

Você já pagou seu preço.

Não.

Não o suficiente.

Nunca o suficiente.

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Naquele dia, porém, algo dentro ela mudou. Não como uma epifania, ou uma realização repentina. Mais como uma curiosidade. Um grito. A estúpida humanidade de novo, arranhando, deixando marcas com suas unhas afiadas, tomando o controle.

Ela se perguntou se aquela vila comemorava tal feriado. Ela tentou ignorar o pensamento assim que o teve, mas o cérebro se recusou a obedecer, como sempre fazia. Geralmente ela vencia a luta mental, mas não hoje.

E ela sabia que era Natal. Não pelo frio, ou mudança na direção do vento, ou pelo barulho dos animais. Era sempre frio naquela cabana, o vento sempre a empurrava para longe, como se estivesse enojado com sua presença, e os animais sempre corriam dela. Ela mal sabia em que estação estava, ou que dia era, de que ano, em que país. As estrelas deixaram de lhe dar dicas sobre o que estava por vir há três anos, como se até o cosmos soubesse que ela não merecia tal regalia. O tempo era marcado com traços na madeira das paredes. Quatro anos.

Mas era Natal.

Ela se lembrava com perfeição do quão feliz aquela data a fez um dia, do quão satisfeita ficava tendo sua família perto de si, o quanto gostava de abraça-los, apreciar sua existência, de respirar o mesmo ar. A felicidade exacerbada na troca de presentes, a obrigação de ser bom mesmo com quem não merecia. As luzes da cidade, a civilização inteira se juntando com um propósito, ignorando todos os problemas que já existiram no mundo. Era Natal.  Era o protocolo.

Tais noções pareciam estrangeiras para ela agora, longes demais de sua realidade, inconcebíveis até.

Ainda assim…

Não havia escolha.

Naquele momento seu cansaço, medo, desespero, medo, aflição, depressão, violência e medo se juntaram para fazê-la levantar da modesta cama, que mal sustentava seu peso, e, pela segunda vez naquele mês, se olhou na pequena lasca de vidro que usava como espelho. Ela ainda reconhecia aqueles olhos cinzentos que se recusavam a encontrar outros, temendo que eles vissem todos os seus pecados escondidos em sua íris. Lembrava do cabelo curto e platinado que costumava ter, que deu lugar a um longo híbrido, negro e louro, precisando de um corte há muito. As maçãs do rosto eram familiares, as sobrancelhas desalinhadas também, e os lábios finos.

A coisa estranha sobre algumas pessoas que cometem atos hediondos é que elas não reconhecem o próprio reflexo.

Não ela. Ela sempre se via nele.

Sua cabeça estava com o gorro diário, o único jeito de suas orelhas não sucumbirem ao frio. Suas pesadas roupas estavam mais remendadas do que imaginava ser possível, mas não sujas – nada além dela mesma era sujo ali. Seu cubículo de 3,5² metros era uma de suas únicas possessões, e era tratado como tal. Suas botas prostradas no lado esquerdo da pequena porta a aguardavam, como sempre faziam, fiéis até seus últimos suspiros. Ela precisava de roupas novas, mas não conseguia se importar o suficiente esses dias. Constância a agradava. Assim deveria continuar. Ou assim ela pensava.

Por isso aquele dia de Natal, só mais um dia, como qualquer outro, foi a coisa mais estranha que lhe aconteceu nos últimos quatro anos. Nem suas interações com pessoas e seu medo de seus próprios pensamentos sobre os atos que poderia infligir àqueles pobres indivíduos eram tão fortes. Como se não tivesse mais controle sobre seus membros, calçou as botas, ajeitou o gorro, como se ainda tivesse motivos para se mostrar apresentável, e saiu porta afora, através do crepúsculo, pela primeira vez em quatro anos quebrando a rotina que criara em seu primeiro dia de exílio. Os escassos raios de sol acariciaram sua pele como se ela ainda estivesse viva, como se fosse um organismo que merecesse aquela atenção. Era Natal, afinal. Nem o sol podia fugir do protocolo.

Os longos minutos de caminhada se passaram sem eventos, um pé na frente do outro em velocidade constante, mecânico, como tudo que ela fazia ultimamente. Dentro de si batia algo, porém, seu coração, dando sinais de que ainda tinha algo para fazer, que ainda seguia as ordens maiores de seu cérebro, a humanidade rindo dela, triunfante, eu avisei, eu avisei. Ela não sabia se apreciava a descoberta de ainda ser capaz de nutrir algum sentimento não destrutivo.

Nenhum animal estava à vista, nenhum animal para fugir de sua existência, Natal.

Quando finalmente saiu do esconderijo das árvores, parou de repente. A pequena feira havia se transformado em uma pequena celebração. Ela não se lembrava de ter visto tantos aldeões juntos antes, rostos familiares, todos nutrindo sorrisos amigáveis, venha, venha, seus rostos enrugados ou sem nenhuma linha de expressão guardando promessas de um futuro melhor, venha, venha. Uma grande árvore se encontrava no meio da vila, iluminada com luzes elétricas que ela nem lembrava que existiam. Pontos azuis verdes rosas roxos amarelos brilhavam para ela, venha, venha, Natal, Natal.

E ela foi.

Seus membros não estavam sendo controlados por ela. Nenhum pensamento ruim passava por sua cabeça. Seu coração batia tão forte que ela temeria que os aldeões fossem capazes de ouvi-lo caso não estivesse tão distraída atraída intrigada seguindo o festival de cores majestosas piscando para ela só pra ela.

Sim, sim, sim.

Poderia estar chorando e, provavelmente, estava, euforia dominando cada parte e seu ser, suas células dançando uma dança desconhecida e feliz feliz feliz gritando como se ela estivesse perdoada como se tudo isso tivesse feito sobre medida tão simples tão bonito tão pra ela. Ela devia ter corrido de volta para a floresta, mas as luzes, as vozes, os sorrisos, a música que agora ouvia claramente que vinha dos aldeões em volta dela em volta da árvore, letras que ela conhecia, familiares, lembranças de uma vida que jamais pensou que veria de novo. Ela tremia e chorava e sorria também, seu corpo se movendo, sua voz atingindo tons que não sabia capaz de atingir, alegria.

Alegria.

Suas mãos faziam algo além de destruir, estragar, matar, e uma pequena criança se pôs a dançar em volta dela, fazendo um círculo em sua figura, e ela sorriu mais, e ainda sabia como sorrir, e dançou. Era Natal, até para ela.

E as estrelas, enfim, pareciam ter voltado. O cosmos vivo de novo para ela.

Era Natal.

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1 Comment

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    Byzinha
    25/12/2014 at 10:03 pm

    Muito talentosa a padawan Sammy.

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