Cinema

Doze Anos de Escravidão (2013)

Ahh, na terra de Oscars e premiações, a Academia realmente não poderia ter um melhor favorito.

Mas não, não vamos limitar Doze Anos de Escravidão a apenas o favorito a papar a maioria dos prêmios da gloriosa noite que todos os cinéfilos estão esperando. O filme de Steve McQueen é infinitamente mais do que isso; devo dizer que é mais ainda do que uma lição, uma viagem pela desolação que nunca, nunca conhecerá a cura.

Reunindo um elenco que, poxa, nos deixa de boca aberta, McQueen realizou a proeza de aprofundar uma das mais feias e desonrosas feridas da História; uma que pelo menos eu já sentia (it is both a blessing and a curse to feel everything so very deeply). Em todas as cenas que, aliás, foram trabalhadas numa fotografia maravilhosa, é possível perceber e sentir, tocar tantas coisas que mal posso listar. Injustiça, liberdade, desespero, perseverança. Escravidão.

Você toca a escravidão, sim, através da História e da tela. E seu coração a sente e, mesmo que você saiba que, ah, você é uma pessoa livre… é impossível ignorá-la.

Ela está, afinal, nos olhos de Solomon, personagem do talentosíssimo Chiwetel Ejiofor, no choro de uma das maiores revelações que já testemunhei, Lupita Nyong’o, a qual interpretou a escrava Patsey, e na crueldade um tanto disfarçada de Master Epps (Michael Fassbender). Embora as cores fossem um tanto, uh, fracas e a beleza da fotografia muitas vezes fosse tratada com certa delicadeza, nada podia tirar da escravidão o seu corte profundo, suas tão fortes chicotadas.

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Não é um filme delicado, vejam bem. Acompanhando Solomon Northup, um negro de Nova Iorque e, acima de tudo, um homem livre que, para seu infeliz azar, é raptado e levado para o sul dos Estados Unidos, onde a escravidão ainda reinava, 12YaS salga toda ferida que, sim, ainda existe em todos os países que sofreram dessa praga desumana. Quando eu digo que você vê e sente o sofrimento dos personagens, eu não estou brincando. Steve McQueen escancara as vísceras da dor e, graças aos céus, teve um elenco poderosíssimo e muito competente ao seu lado.

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Eu me vi muitas vezes no lugar de Solomon, pensando no que eu faria, olhando para mim mesma. E a dor era e ainda parece insuportável. Preciso nem dizer que a trilha sonora, majestosamente composta pelo inigualável Hans Zimmer, retumba ainda ansiando por liberdade, assim como Solomon, assim como qualquer homem ou mulher feita de escravo em nossa terra infinita enquanto na África eram reis e rainhas.

A história, como devem saber, foi baseada em fatos reais. Mesmo se não fosse, o efeito, a meu ver, seria o mesmo. E é uma história sobre negros, sobre o seu sofrimento, sobre o seu anseio por liberdade na mão de carrascos de cor branca. Não, não é um cara branco salvando negros das correntes. É sobre um negro salvando a si mesmo e não há chicote que pode tirar de sua raça esse direito. Doze Anos de Escravidão trata-se, afinal, de um relato pessoal, de uma narração que faz muito mais do que humanizar o que vemos em nossos livros de História e, ora, tratamos muitas vezes com certa insensibilidade.

A escravidão não é para ser tratada com insensibilidade. A História deve ser humanizada. E seus efeitos hoje, agora, mais ainda.

ficha técnica

Diretor: Steve McQueen
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Benedict Cumberbatch, Lupita Nyong’o, Paul Dano, Sarah Paulson, Paul Giamatti, Quvenzhané Wallis, Brad Pitt, Adepero Oduye
Trilha sonora: Hans Zimmer
Roteiro: John Ridley
Duração: 134 min.
País: Estados Unidos da América.
Gênero: Drama, Histórico
Trailer: (x)
Classificação: ★★★★★

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1 Comment

  • Reply
    Who's thanny? » Arquivo » A beleza, afinal, não é branca
    08/03/2014 at 9:15 pm

    […] profundos demais para passarem despercebidos, despontou como a esperança de muitos ao estrelar Doze Anos de Escravidão, o grande vencedor da categoria de Melhor Filme no Oscar deste ano. A atriz também levou a […]

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