Literatura

Delirium, Carlos Patrício

Há uns três anos, eu tinha feito um post no Skoob sobre um livro chamado Agridoce, como parte de um booktour, a convite de um amigo online. No final de maio, recebo um recado de uma pessoa que tinha visto o que escrevi sobre o livro, e um “Queria t flar sobre algo q talvez possa t interessar”. A pessoa acontecia de ser Carlos Patrício, autor de uma coletânea de oito textos chamada Delirium.

DELIRIUM

A capa é daquelas que podem chegar a incomodar enquanto se lê em público – por exemplo, em fila de banco/sala de espera/transporte público. Meio perturbadora, do mesmo jeito que os próprios textos. Não consigo pensar em muitas ideias que seriam melhores do que esse tipo de arte pra encadernar esse material. A dedicatória do autor me deixou bastante contente; fiquei bem feliz com o autógrafo.

O primeiro conto é Doutor Sádico. A quantidade de repulsa que certos cenários nele causam é absurda; partes de corpos em decomposição não são o tipo de coisa que deixam alguém com vontade de examinar um ambiente mal iluminado muito de perto. A quantidade de referências a nomes famosos é bem interessante, e a forma como foram colocadas ajudaram a mostrar um quadro mental não exatamente dentro da normalidade. Cumpre a promessa que tem na sinopse sobre “Desordens. Distúrbios. INSÂNIAS! Este é o tema de Delirium” – ou seja, não é para pessoas fracas. Arrisco dizer que ia ficar bem legal adaptado pra um filme curto.

O “mistério” em Truco!, bem, foi menos misterioso do que o autor planejou. Na hora que o protagonista acidentalmente… faz uma ação que se eu contar é um belo de um spoiler… eu já notei que ele tinha se enganado. O fator sobrenatural foi o que deixou a peça interessante, e suspense é um estilo bem legal de ler porque a curiosidade sobre o que aconteceu SIMPLESMENTE. NÃO. PASSA. antes do fim do texto.

Agoniado descreve um quadro de ansiedade com uma certa depressão junto incrivelmente bem. É do tipo de leitura que produz as mesmas sensações que estão descritas, e é o que deixa esse texto impressionantemente forte. Além disso, qualquer pessoa que tenha sentido algo parecido com o que o protagonista passa vai conseguir se identificar.

Acompanhar as personagens de Telefone sem fio foi parecido com ler sobre pessoas que poderiam morar no quarteirão ao lado daquele onde fica minha casa. As personalidades ficaram bem marcadas; o “quem-conta-um-conto-aumenta-um-ponto” sobre o jeito que cada um repassava pro outro sobre a doença do protagonista foi divertido de acompanhar, os comportamentos da turma estão suficientemente realistas pra sociedade em que eles “vivem”. E eu não tô convencida de que a menina que passou a infecção pro protagonista é completamente humana.

A questão de todas as questões é meu conto preferido deste livro. Diálogos super bem construídos sobre fé versus ciência – e, por que não, pseudociências também – do tipo que me lembraram até de uma meia dúzia de conversas reais que já tive. Uma personagem cristã disposta a debater com um médico que, pra resumir, vou qualificar como agnóstico, foi surpreendente de ver. A quase totalidade das pessoas cristãs que conheço, diferente da que tem no conto, tolera bem menos quando derrubam argumentos delas; a parte “entender refutação de discurso como ataque pessoal” ficou tão realista quanto possível. O diálogo entre o médico e a personagem ateísta, que completou os pontos de vista que precisariam estar representados nessa narrativa, também ficou bem real. No final do conto nota-se um esforço pra não ficar tendencioso na hora de integrar tudo; essa “conciliação” foi incrivelmente difícil de ser feita e não consigo pensar em muita gente que teria feito melhor. Gostaria de ver este texto ser expandido pra uma produção maior.

É impossível ler O outro mundo de Henrique e não querer que uma tecnologia pra jogos igual ao que tem no conto fosse acessível. Não acho que a gente esteja tão longe assim de conseguir, e aposto qualquer coisa que será um fã dedicado de ficção científica que vai tornar realidade esse sonho. O assunto “escapismo” aqui rende uma boa discussão. E não tá proibido ler e simplesmente achar que é um conto bacana sobre alguém num videogame.

Pouco antes da virada se destaca do resto logo de cara por ser um poema. Um poema sobre virada do ano. Mas não um poema qualquer sobre um ano terminar e outro começar. A poesia acontece por ele também ser sobre final da vida. E sobre profecias. Um poema que desencadeia perguntas bem angustiantes que diferentes sistemas de crença respondem de diferentes formas – do tipo “o que acontece quando alguém morre?” e “o que vai acontecer comigo quando minha vida terminar?”.

O último conto do livro, Lindos Sonhos Dourados, é o que eu considero mais delicado de comentar. Substâncias ilícitas sempre são um tema polêmico – e vamos só fazer de conta que eu não gosto de polêmicas. A descrição do efeito do LSD é o tipo de coisa que poderia ser uma tentação mesmo pra pessoa mais anti-drogas do mundo. A dinâmica da família do protagonista também me chamou bastante a atenção, e imagino que não sejam tão incomuns assim famílias que funcionem do mesmo jeito que a do conto – e se fosse muito diferente de como foi, é pouco provável que as partes sobre drogas tivessem funcionado.

Além de ter gostado ainda mais do conteúdo do que eu esperava, a aparência do livro todo também tá show – cada conto tem uma arte de abertura fantástica, e ficou bastante bem elaborado. Adoraria saber sobre outras produções como esta.

informações


Título: Delirium
Autor: Carlos Patrício
Número de Páginas: 226
Edição: 1ª, 2014
ISBN: 978-85-64590-70-0
Editora: Editora Estronho / Página 42
Preço: R$ 39,90
Classificação: ★★★★★

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