Literatura

Boneco de Neve (Harry Hole #7), Jo Nesbø

Aune tinha razão: se todo bebê fosse um milagre perfeito, a vida não passava de um processo de degeneração.

Só queria dizer que meu nome é Holmes. Sâmela Holmes.

Novembro chega, e com ele a primeira neve do ano cai sobre Oslo, na Noruega. O pequeno Jonas Becker, percebendo o sumiço de sua mãe, encontra um boneco de neve no quintal, com o pescoço coberto pela echarpe de Birte Becker. Quando a polícia é acionada, o inspetor Harry Hole suspeita de uma ligação entre o desaparecimento da mulher e uma carta que recebeu do dito assassino Boneco de Neve. Logo o detetive entra numa trama que envolve um serial killer imprevisível cujos padrões podem mudar para que o jogo fique mais interessante.

snowman

Fazia tempo que eu não lia um thriller tão bom. O sétimo volume da série de Harry Hole traz uma trama incrível e instigante numa narrativa que fica te dizendo “hey, chegaí, me lê mais um pouquinho, quem precisa de sono?”. Você o faz, já que quer entender o que está acontecendo. O autor consegue construir uma grande história mesmo para quem não leu os volumes anteriores (e nem precisa, inclusive, visto que a trama é independente).

Jo se esbalda em longas descrições, e como o livro não se passa nos EUA ou no Reino Unido, a ambientação foi necessária e competente ao introduzir o leitor ao clima e às paisagens da Noruega. Nesbø é bem cuidadoso com as palavras e sabe bem como usá-las, criando cenas de tensão incríveis quando sente vontade. A leitura é fluida e não demora muito para que se situar no meio de tanta gente, o que conta como ponto positivíssimo.

Ela ficou observando o escuro lá fora, onde alguns flocos de neve rodopiavam para lá e para cá, sem rumo, aparentemente impassíveis diante da força da gravidade e sem vontade própria. Iam aterrissar em qualquer lugar escolhido pelo destino. Para depois derreter e sumir. Havia certo conforto nisso.

Navegando pela mente de 528491 personagens, a narrativa em terceira pessoa te confunde sempre que pode, e usa reviravoltas à seu favor. Os mais atentos podem descobrir a verdade antes do fim, sendo que pistas sutis são deixadas, e todas as pontas soltas da trama do Boneco de Neve são amarradas no final. As diferentes perspectivas não te contam o que Harry Hole não sabe, e o autor quer que você descubra tudo junto com o detetive.

Apesar de ser ótimo, o livro tem algumas inconsistências que me incomodaram. Começando pelo protagonista, que é pintado pelo autor como um homem inteligentíssimo, mas não mostra isso ao longo da narrativa. Sendo esse o sétimo livro de uma série, se pensaria que agora ele virou um detetive ninja, certo? Errado. Ele não é burro, mas também deixa passar uma pista óbvia sobre o assassino. Eu sabia quem o Boneco de Neve era, e ver Harry correndo em círculos  me matou. Além disso, a incompetência da polícia é incrível, visto que confiam cegamente num detetive que nem é tão bom assim. Não, né, gente?

(…) ele evitava os espelhos assim que deixava seu pequeno apartamento espartano na rua Sofie para se transformar no inspetor Hole da Divisão de Homicídios na sede da Polícia de Oslo. Era quando encarava outros rostos à procura de suas dores, seus calcanhares de aquiles, seus pesadelos, motivos e razões pelos quais decepcionavam a si mesmos, enquanto ouvia suas mentiras cansativas e tentava encontrar um sentido no que fazia: aprisionar pessoas que já estavam aprisionadas em si mesmas. Em prisões feitas de ódio e desprezo pela própria pessoa que se é, coisas que ele mesmo reconhecia bem demais.

Não houve maior conexão com os personagens, visto que a maioria já teve suas personalidades definidas nos livros anteriores, mas vale destacar a ótima Katrine Bratt, que é badass. Não gostei muito do protagonista, porém curti sua dinâmica com Rakel e seu bom gosto para música e filmes.

Mesmo com meus instintos de fã de Sherlock Holmes atacando e quase estragando o clímax, Boneco de Neve foi uma leitura incrível. Poderia ter sido mais sádico e assustador, sim, principalmente pelas comparações com O Silêncio dos Inocentes. Não tem nada Hannibalesco na criação de Jo Nesbø, mas o livro tem seus próprios méritos. Pretendo ler mais do autor e espero tramas tão boas quanto essa.

informações

Csnowmanortesia para resenha.
Título: Boneco de Neve
Autor: Jo Nesbø
Tradutor: Grete Skevik
Número de Páginas: 420
Edição: 1ª – 2013
ISBN: 9788501094803
Editora: Record (Twitter | Fanpage)
Preço: R$34,90 (compre aqui)
Classificação: ★★★★☆

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3 Comments

  • Reply
    Tarsila Martins
    07/03/2014 at 3:42 am

    Tinha visto esse livro e fiquei bem curiosa para lê-lo, mas não sabia que ele fazia parte de uma série. Gosto muito de thrillers, e gostei do que você falou sobre o livro nos deixar com vontade de ler mais e mais. Esses livros de investigação são muito bons, mas quando os policiais são meio lerdos como os que você citou que só ficam confiando no detetive, dá uma raiva, kkkkk. Acho que vou tentar ler os anteriores dessa série pra poder ler esse, parece ser um livro muito bom.
    Beijos!

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    Diego de França
    07/03/2014 at 9:42 pm

    Que que é isso! Nossa que trama envolvente, adoro quando o autor consegue dar nó em nossas cabeças, nos faz pensar mais e querer desvendar logo o mistério!
    Esse com toda a certeza terei que comprar (e os outros da série né /cry ), valeu pela dica!
    Diego de França recently posted..{News} – Divulgado trailer de Saint Seiya Legend of SanctuaryMy Profile

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    Michelli Santos Prado
    27/03/2014 at 9:01 am

    Olá Sam, tudo bem??
    Nunca li nada do autor, mas sua resenha já me deixou com vontade. Adoro um bom suspense e tramas policiais.
    Essa é a primeira resenha do livro que leio e já fiquei instigada com esse mistério do boneco de neve. Já inclui ele na lista de desejados!!
    beijos ?

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