Cinema

Amor (2012)

A incrível história de um amor que, assim como a vida, precisa enfrentar a obscuridade e essência dos sentimentos para poder morrer.

amor

Anne e Georges levam uma vida pacata. Casados há bastante tempo, já se acostumaram com a rotina um do outro. Levam uma vida aparentemente simples, apesar de estável, e vivem seus dias entre concertos, maravilhosos livros e fumegantes conversas sobre a vida. Até que Anne sofre um derrame e perde o controle parcial de seu corpo.

“Anne, what’s going on? What’s the matter?”

Não podendo mais exercer funções básicas por si mesma, ela precisa da ajuda de Georges para andar, comer e tomar banho, além de coisas simples do dia-a-dia que não damos muito valor (como, por exemplo, o segurar de um livro, que torna-se algo um pouco mais complicado quando se usa uma só mão). Mas Anne, em sua extraordinária perseverança, consegue administrar tudo muito bem, na medida em que a doença vai progredindo e a deixando incapaz de pensar por si mesma.

O realismo desta história é tão latente que por pouco você se pega imaginando estar assistindo de camarote a vida do vizinho da casa ao lado. Isto poderia acontecer com você, com seus pais, seus avós.

A dita crueldade dos franceses em fazer adaptações monstruosamente realistas é perceptível em todos os aspectos de Amor. O filme é um pouco parado, justamente para o espectador absorver detalhes da cena sozinho. Eles não o conduzem a um pensamento, eles fazem você procurar por qualquer característica, qualquer detalhe escondido dos personagens por si mesmo, para aí sim tirar uma conclusão. A falta de trilha sonora torna as coisas mais tensas e densas e, em seu único momento presente, se faz grandiosa e, do mesmo modo repentino em que aparece, se desfaz abruptamente. O longa todo é, basicamente, filmado em um ambiente só: a casa de Anne e Georges, e talvez por isso torne tudo ainda mais verossímil e belo. Então nós temos películas com cenários exorbitantes que fazem o espectador se distrair, muita das vezes da atuação do ator. Em Amor, o que mais se faz presente é o impacto nítido no olhar dos dois.

Não é como se fosse o último melhor filme do mundo, como muitos mais “animadinhos” cismam em dizer. Amor é, sem sombras de dúvidas, um filme único e espetacular. Não dirigido a todos os públicos – se você não curte filmes parados e ter uma explosão mental assim que o termina, este não é muito indicado para você – mas nem por isso quem não o assiste deva receber alguma crítica. E, apesar de quase ter certeza de que Emmanuelle Riva não irá levar a estatueta de melhor atriz, já a considero uma ganhadora.

Mas estou aqui, pedindo a você, leitor: mesmo que não seja seu estilo favorito, dê uma chance. Se dê uma chance de se surpreender com um final imprevisível e dolorido. De explodir com o turbilhão de sentimentos que este filme lhe proporciona. De mudar conceitos sobre a vida, sobre a sua vida.

Amor é, em exatidão, como Anne define Georges logo em seus primeiros minutos de filme: Um monstro, porém gentil.

FICHA TÉCNICA

 

Diretor: Michael Haneke
Elenco: Emmanuelle Riva, Jean-Louis Trintignant, Alexandre Tharaud, William Shimell, Isabelle Huppert.
Roteiro: Michael Haneke
Duração: 125 min.
País: Austria.
Gênero: Drama, Romance.
Trailer: (x)
Classificação: ★★★★½

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7 Comments

  • Reply
    Aline T.K.M.
    09/02/2013 at 3:09 am

    Lindo filme, achei fantástica a sensibilidade ao nos mostrar os personagens, suas forças e fraquezas. E como um sentimento tão nobre como o amor pode ser milhões de vezes mais forte do que imaginamos.

    Bjo,
    Livro Lab
    Aline T.K.M. recently posted..Carnaval regado a Clarice Lispector e Lygia Fagundes TellesMy Profile

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    Andressa Leite
    09/02/2013 at 10:57 am

    Esse filme deve ser lindo mesmo e com certeza vou assistir. Espero que leve algum Oscar.

  • Reply
    Tarsila Martins
    09/02/2013 at 10:13 pm

    Não assisti esse filme, mas já estava com vontade de ver por ter sido indicado ao Oscar em 5 categorias (se eu não me engano). Pra falar verdade, não sabia do que se tratava antes de ler sua postagem, mas achei bem interessante, e trata-se de um tema que geralmente se passa “despercebido”. Acho que posso me emocionar mais ainda por ter uma avó que sofreu um derrame a uns 2 anos e é totalmente dependente, pra fazer qualquer coisa que seja… É um gênero que atualmente estou amando (drama) e espero vê-lo o mais rápido possível.
    Beijos!

    • Reply
      Thayná
      20/02/2013 at 1:56 pm

      São temáticas tão comuns, tão “mundanas” e tão impactantes, que as possoas não enxergam. Eu considero Amor como um soco no estômago, justamente por isso, é um assunto pesado, mas tratado de forma tão gentil, que cria um desconforto no peito.
      Ele foi feito pros espectadores imaginarem estar assistindo seus vizinhos, como as pessoas tratam esse tipo de doença. E não só sobre quem está doente em si, mas também quem sofre com as consequências.

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    Vanessa
    12/02/2013 at 5:30 pm

    Ainda não conhecia esse filme! Caso eu o encontre por aí vou dar, sim!, uma chance a ele. Ele parece triste, mas muito bonito.

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    Who's thanny? » Blog Archive » Confira os ganhadores do BAFTA e o novo pôster do Oscar!
    12/02/2013 at 6:00 pm

    […] categorias de atuação, a maior surpresa foi Emmanuellle Riva, de Amour, ganhar o prêmio de Melhor Atriz, sendo que todos apostavam em Jessica Chastain ou Jennifer […]

  • Reply
    thanny
    15/02/2013 at 12:44 pm

    Assisti esse filme com Marina ontem e ele causou um mau estar em mim. É uma realidade bem cruel mesmo! Faz a gente refletir sobre o que aconteceria se fosse eu ou minha mãe ali… eu certamente não aguentaria. Para mim, Riva também é uma vencedora!

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