Música

A Sinfonia de Tudo Que Há – Fresno

Eu já tinha postado sobre Fresno antes aqui neste site, e tinha chegado a começar o rascunho de um post sobre outro show deles onde eu estive mas acabou que não terminei de escrver num prazo razoável então foi deixado pra lá. A banda lançou CD novo chamado A sinfonia de tudo que há e é sobre ele que eu tô aqui pra falar desta vez.

A Sinfonia de Tudo que Há’ é um álbum conceitual, que conta uma história com começo, meio e fim. Sua gravação se deu em diversos estúdios entre São Paulo e Rio de Janeiro, com boa parte do processo se dando no estúdio queLucas Silveira, vocalista e produtor do disco, tem em sua casa. Caetano Veloso canta em uma das faixas, ‘Hoje Sou Trovão’, fato esse que, quando divulgado, causou muito barulho tanto na internet quanto na mídia impressa.

O novo álbum da Fresno conta com 11 músicas autorais, nas quais a banda abrange um espectro sonoro ainda maior do que nos álbuns ‘Infinito’ (2012) e no EP ‘Eu Sou A Maré Viva’, de 2014. Passagens densas e pesadas se revezam com trechos introspectivos, ora contando com orquestrações completas (regidas por Lucas Lima), ora se fazendo valer de tambores regionais típicos da música afro-brasileira.

Fonte dessa descrição: http://ticketbrasil.com.br/show/4558-fresno-saopaulo-sp/

Essa capa com a foto de um pedaço de algum mineral contrasta totalmente com a variedade e intensidade de emoções que tem nos trabalhos todos deles – minha interpretação pra isso é que quiseram representar que algo fica em falta quando emoções não são consideradas. E, sério, qualquer coisa que eu diga sobre essas músicas vai expressar bem pouco em comparação com tudo o que eu pensei ou senti enquanto ouvia.

A primeira faixa – Sexto Andar – tem uma sonoridade que em boa parte me passa uma sensação de calma, quebrada por algumas notas mais “barulhentas”, e a letra me faz pensar em alguém num momento de sofrimento muito grande e que precisa tomar uma decisão sobre o que fazer sobre isso. Enquanto ouvia as músicas, achei que esta poderia ficar maravilhosa ao vivo dependendo de como ela for apresentada, assim como a maioria – nos trechos com orquestra, eu me imaginei dentro de um teatro chique com os músicos apresentando as produções lá.

Deixa Queimar tem uma melodia que achei agitada de um jeito que me lembra a sensação de ler sequências cheias de reviravoltas em um livro – coisa que a letra ajuda a passar, como se a pessoa da música anterior tivesse decidido não desistir e fazer o que tá ao alcance dela, mesmo com o trecho “Cansei de buscar respostas / Cansei de andar sem ter onde chegar” – imaginei a pessoa escolhendo criar as próprias respostas e os próprios objetivos, e conseguindo que os obstáculos fossem destruídos. Enquanto ouvia, cheguei a imaginar uma história narrada pelas músicas desse álbum, e enxerguei a pessoa da música anterior com alguma companhia, com a qual tinha tido problemas mas ainda assim quer que ele ou ela continue ali.

Achei a música de Hoje Sou Trovão, com participação de Caetano Veloso, até bastante suave, apesar da letra ser qualquer coisa menos tranquila. Em vários momentos imaginei que haveria passagens com som mais “enérgico”, o que quase não aconteceu. Gostei dos temas de transformação, evolução e progresso que estão cantados nos versos. Apesar da polêmica sobre o posicionamento do Caetano Veloso a respeito da publicação de biografias não autorizadas, achei que foi uma escolha interessante de convidado – alguém que já é bastante conhecido e que cada um interpreta o trabalho dele de alguma forma pessoal, do mesmo jeito que o da banda Fresno.

A melodia de Poeira Estelar me deu vontade de parar pra prestar atenção em cada nota e repetir em um piano ou em um teclado, enquanto a letra foi outra das que me deixam com uma reação de: “Você tá de brincadeira, né?” de tanto que conseguem colocar em palavras coisas que provavelmente muita gente sente e vai conseguir se identificar de alguma forma. Achei bacana o interesse da banda – ou ao menos do vocalista – por temas de astronomia estar representado nesse álbum, mesmo não tendo sido nenhuma surpresa. Bom, eles postaram um vídeo sobre O Mundo Assombrado Pelos Demônios e numa música chamada “Manifesto”, que está em um trabalho anterior, “Sempre esquecendo que o mundo / É só um ponto azul no céu” também é uma referência confessada e bem óbvia ao astrofísico famoso.

As únicas palavras em que consegui pensar escutando O Ar foram saudade e sofrimento. Aposto que qualquer pessoa que já tenha terminado um relacionamento amoroso vai conseguir se identificar, e a melodia suave me deixou a ponto de chorar, e muito. Quem nunca sentiu falta de uma pessoa amada, às vezes não necessariamente por sentimento romântico, mas qualquer tipo de laço? O som me faz pensar em alguém dentro de casa olhando pra uma chuva pela janela, que é a mesma imagem que a poesia me passou.

Abrace sua sombra logo de cara me trouxe ao pensamento imagens de todos os tipos de viagens que eu consegui me lembrar – imaginei logo de cara diferentes tipos de aeronaves, e não consigo dizer exatamente por que. Também pensei num grupo de amigos num carro fugindo pra algum lugar, talvez sob o efeito de alguma substância proibida ou não. Com o próprio título, pensei em aceitação de características que às vezes a pessoa não aceita muito que tem e não gosta de demonstrar – aquele lado que pode ser chamado de “sombra”, por ficar oculto. Achei que a melodia combinou com um belo de um convite pra descobrir coisas sobre a própria personalidade e não reprimir tanto assim partes de si mesmo das quais não gostemos.

Na faixa que nomeia o disco, A sinfonia de tudo o que há, a gente volta para – ou melhor, continua na – jornada que tinha sido colocada na música anterior e começa a refletir sobre como todas as pessoas e todas as coisas que existem fazem parte dessa enorme sinfonia. Som também bastante doce, mas ainda assim bem forte e que – pelo menos pra mim – consegue passar a sensação de grandiosidade que me pareceu que eles quiseram representar.

Axis Mundi me deu a impressão de que, depois das reflexões anteriores, o universo da pessoa se expandiu pra algo muitas e muitas vezes maior do que era – e como se a personagem tivesse conseguido superar o sofrimento que tinha passado e uma nova pessoa passasse a estar ao lado dele ou dela, ou talvez estivesse de novo junto da pessoa que queria antes em primeiro lugar. A melodia me passa uma mensagem de imensidão, como se fosse algo pro universo todo ouvir – como se o centro do mundo tivesse no lugar de novo – um som que parece crescer a cada nota. O título vem de uma simbologia que eu achei que tem todo o sentido pra essa música.

A música que tem o som mais nervoso, agitado e com raiva é A Maldição – como se tudo o que a pessoa conhece fosse ser derrubado e refeito de um jeito que ela própria não faz ideia de como vai ser. Sabe quando você tem consciência de que cometeu algum erro, mas mesmo assim não soube como prevenir ou não conseguiu agir de outro jeito? Então, foi dessas situações que a poesia me lembrou – como se a pessoa estivesse amaldiçoada a se comportar de um jeito que não quer.

Achei o som de Canção Desastrada bastante relaxante – um bom fechamento pro disco, como se a melodia quisesse dizer “pode ir, vai ficar tudo bem” e falasse sério. A letra “amarra” bem tudo o que foi retratado nas músicas, e resume algumas das vivências que foram retratadas. E também deixa a sensação de que em seguida acontecerão novas histórias, com novos sentimentos e emoções ligados a elas. Com a palavra “desastrada”, imaginei que talvez quisessem dizer que terminar de contar foi algum tipo de “desastre”, e que na verdade quem conta o que se passou não queria parar de se expressar.

Achei o disco bem interessante pra ser ouvido da primeira música até a última, sem mudar a sequência e sem pular nenhuma – acho bem impossível não imaginar alguém, ou mesmo a própria pessoa, em situações que venham à memória com elementos que chamem a atenção. Definitivamente não é todo dia que a gente vê alguém expressar sentimentos, emoções e experiências com tanta intensidade quanto os integrantes desta banda.

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2 Comments

  • Reply
    Maycon
    May 5, 2017 at 11:17 pm

    Me identifiquei com a música O AR, por que sou uma pessoa romântica e as vezes me sinto sozinho!

  • Reply
    Angela
    February 11, 2018 at 4:46 pm

    Me indentifico com algumas músicas ainda mais quando é músicas sertanejo eu gosto muito, simplismente adorei esse artigo estou doida para que poste outro gostei mesmo parabéns

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