Literatura

A Mulher Silenciosa, de A. S. A. Harrison

Depois de uma vida dedicada à leitura incessante dos mais variados gêneros literários, descobri que se eu não fosse jornalista, seria psicóloga. Sou fascinada por gente, personalidades e comportamentos, daí quando encontro um thriller psicológico que me agrada a sinopse, vou correndo ler. Foi o caso de A Mulher Silenciosa, mas talvez eu tenha criado expectativas demais…

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A primeira página do livro é um bombardeio das críticas positivas à obra: comparações com “Garota Exemplar” (que, by the way, eu amo!), alguns clamando o livro como uma leitura obrigatória e outros afirmando que todo o hype é altamente justificado. E aí, como não ficar curiosa pra ler um livro assim? Como não deixar que a cada parágrafo lido você continue esperando por uma cena épica em seguida?

O livro não é ruim. A história da esposa “silenciosa” e do seu marido adúltero é densa, cheia de humanidade e sem espaço para reviravoltas e ação – é minimalista. A autora é transparente em sua escrita e revela o grande acontecimento do livro na primeira página. E aí você espera. Continuamente ao longo de 215 páginas, quando, finalmente, acontece. E aí o a história realmente começa, mas é uma pena que tenha apenas mais 40 e poucas páginas pra se desenvolver.

Não desprezo toda a narrativa construída pela Harrison, inclusive considero o livro extremamente sintético, direto ao ponto, mas não negativamente. As páginas onde nada aparentemente acontece são cruciais para o entendimento da psique de Jodi, uma psicoterapeuta ultra inteligente, que sabe das traições do marido, mas aceita sua “vingança” nas pequenas situações diárias, e de Todd, o marido que engravida a amante e sai de casa para morar com ela – avisando do fato no dia da mudança.

“Ele nunca conseguiu acreditar no bom velhinho lá no céu, mas encantou-se desde o início com o glamour e a mística daquilo: as procissões solenes, os hábitos coloridos, os incensórios fumegantes, a cantoria. Ele adorava o fato de que algo poderia ser abençoado e, assim, mudar a própria natureza: o vinho, a água, as pessoas. […] Conectava-se ao mistério e ao arrebatamento, e agora frequenta o bar do Drake da mesma forma. A salvação está ali também, para ser aceita. Somos todos instrumentos de nossas próprias verdades básicas. Tudo o que temos na vida é a força primordial que nos move através de nossos dias – nosso agente congênito nu e cru, sem tutores e sempre presente. A força da vida é o espírito santo em cada um de nós.” (p. 168)

É a psique dos personagens que guiam você pelo livro, fazendo com que você entenda porque Jodi nunca reclama e porque Todd é tão cretino. Intencionalmente, a história é narrada na terceira pessoa, embora cada capítulo se dedique a um dos personagens. A autora leva você a ter um certo ressentimento pelo Todd, e à medida que o livro passa e ele se torna mais filho da puta, você odeia mais ele. Eu odiei, mas entendi e senti algo parecido com pena no fim.

Sobre amar ou odiar Jodi: eu realmente quis gostar dela, a grande vítima da história. Mas não deu. Há um ponto da história que eu consegui simpatizar com ela, sentir pena talvez, mas não gostar. Simplesmente tive raiva de todos os personagens desse livro, com exceção de Dean Kovacs, que aparece no plano de fundo como o pai da amante de Todd – e amigo dele -, por motivos que se eu jogar aqui vão ser spoilers. Mas, se forem ler, apenas observem atentamente esse personagem.

“Não é culpa dela. Nada disso é culpa dela. Ela fez o que pôde para que as coisas dessem certo com Todd. Foi tolerante, compreensiva e indulgente. Não foi pegajosa nem possessiva; ao contrário das mulheres que se vê no programa Dr. Phil, que desabam quando o companheiro se afasta.” (p. 175)

No fim das 254 exaustivas páginas eu senti que tudo não passou de uma sessão de psicanálise. Um livro com ótimas sacadas, quotes maravilhosos para quem gosta dessa pegada mais psicológica dos personagens, mas que não acrescentou muita coisa na minha vida, no meu entendimento de humanidade, e isso é algo que eu gostaria que tivesse acontecido. No fim, Garota Exemplar ainda vive, pelo menos pra mim!

Informações

Cortesia da editora.

Título: A Mulher Silenciosa
Autor: A. S. A. Harrison
Tradução: Alexandre Raposo
Número de Páginas: 154
Edição: 1ª – 2014
Editora: Intrínseca (Twitter | Facebook)
Preço: R$29,90
Classificação:  ★★★☆☆

 

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