Textos

A magia estranha da escrita

Faz três anos que minha amiga Juliana e eu estamos escrevendo um livro que modéstia à parte é muito legal e merece ser publicado. A empolgação na época foi tanta que nós terminamos a primeira parte – aproximadamente 20 capítulos – em menos de um ano e mandamos esse primeiro manuscrito para vários leitores beta, vide a divulgação que as próprias meninas daqui do site fizeram com tanto carinho s2.

Nyckel Herdeiros de Chaotia

Acontece que desde 2012 muita água já rolou debaixo dessa ponte. Não estou falando que a história mudou, porque não foi isso. Os capítulos levemente desesperados da parte um de Herdeiros de Chaotia foram a ponta do iceberg, só que esse não é o ponto. O ponto é que quem mudou fomos nós, as autoras.

De 2012 para cá, ambas Juliana e eu prestamos vestibular de novo e mudamos de cidade para encarar os estudos. O curso dela, ao contrário do meu, está dando super certo, mas, como eu, nós duas nos encontramos em situação complicada chamada “o tempo, ele é curto”. Estamos trabalhando, estudando, tentando descobrir o que a vida quer de nós quando na verdade sabemos que o que queremos de verdade é escrever. E tentar conciliar a pressão da vida com as vontades pessoais dá ó um trabalhão.

Em compensação, de 2012 para cá tivemos a chance de conviver com nossos personagens e reavaliar seus traços de personalidade tantas vezes, mas tantas vezes que agora sabemos melhor quem eles são do que quem nós somos. Pelo menos é o que parece para mim.

Kinda torn between writing and watching the game #panamerican #toronto2015

A photo posted by Raabe Gabriel (@byzinhag) on

Escrever é um exercício tão esquisito que só quem faz sabe. Não há nada que se compare ao prazer de fazer uma história acontecer e só essa pequena alegria deveria ser suficiente, mas sempre tem aquela vozinha irritante que faz você se questionar. De 2012 para cá, minha batalha pessoal com a HdC era minha protagonista. Aparentemente, Nyckel Hapur sofre de um caso agudo de “personagem ingostável”, situação que me incomoda muito, porque na minha cabeça ela é sensacional. Porque ela É sensacional. Ela é tudo, tudinho que eu queria ser. E é tão divertido escrevê-la com suas referências à cultura pop, confiança e disciplina. E dinheiro, mas shhh

Quando recebi os primeiros feedbacks da parte um, ficou claro que a minha querida, amada e adorada Nyckel tinha passado desapercebida. Até mesmo meus outros personagens – Ethel Raktas e Torth Anathar – fizeram mais barulho que ela, embora ela tenha sido a narradora principal nos meus capítulos. Os leitores beta me indicaram mais ou menos onde ela estava pecando, mas foi só dois anos depois que eu voltei para reescrevê-la. E, olha, ainda bem.

De 2012 pra cá, Nyckel e companhia se tornaram sólidos em minha mente. Se eu tivesse tentado mexer nela naquela época ao invés de focar na continuidade da história (que ainda está em continuidade desde 2013, podem bater na gente), eu não entenderia ainda a dimensão da complexidade dessa personagem que sempre esteve tão profunda em meu coração. Eu não conseguiria expressar a feminista revoltada que ela é, ou a raiva borbulhada que ela sente diante da maldade, ou o ponto cego que ela tem para paixonites porque ela está tão focada em si mesma com a mesma clareza com que faço isso hoje.

E, sabe, é essa a magia estranha da escrita. De alguma maneira você não está criando um mundo novo – você está descobrindo. E essa descoberta é tão incrível que às vezes chega a ser overwhelming.

Talvez seja por isso que esteja levando tanto tempo para outros 20 (ou 30) capítulos da parte dois saírem, sabe, além de toda a parada do tempo e dos temidos bloqueios que não sabemos como resolver, porque em 2012 a história não estava densa o suficiente para sabermos lidar com ela. E agora ela está tão densa que não sabemos como segurar. Beta, Delta, Zeta, Alpha, todos os universos que compõem a Herdeiros de Chaotia estão se apresentando para nós como quem não quer nada e dormindo na nossa cama, comendo nos nossos pratos, mandando mensagens de voz no whatsapp que somos obrigadas a ouvir. E nós não estamos dando conta.

A disciplina da minha Nyc cairia bem para mim nesse momento, pra falar a verdade. Talvez cairia bem para nós duas, Juliana e eu. (não sei, estou supondo) Mas acontece que a melhor coisa de viver com essa magia estranha dentro de nós é nos encantar com seu timing. A prosa e a poesia vêm para nós no momento certo, como ela deve vir e é lindo. Cara, é muito lindo. Como quem há muito se esqueceu que sabia andar de patins, mas de repente coloca um par nos pés e sai de boas descendo a rua.

A magia estranha da escrita se aflora. Vem pra gente no meio da noite, da aula, do almoço, do filme. É o Eureca! na hora do banho, a palavra esquecida que foi lembrada quando se está pegando no sono, a teoria maluca formada sobre o que aconteceu com Jon Snow quando você está falando de outra coisa.

Escrever é uma certeza esquisita de que, de alguma maneira, a história vai vir. Se não vier, então não era pra ser. Diferente do ônibus, que se deve ser conquistado ao invés de pego.

Escrever, meus amigos alto astral, é arrebatador. E esse lugar de arrebatamento é onde eu quero passar o resto da minha vida.

Mesmo quando estou totalmente bloqueada.

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2 Comments

  • Reply
    thanny
    August 24, 2015 at 7:38 pm

    Essa história merece ser publicada SIM!

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