Literatura

Quem apagou as luzes?, Ana Carolina Marquês

Conforme nossa equipe vai se adaptando à nova rotina, aos poucos vamos voltando a ler com mais frequência (ou, no meu caso, com ALGUMA frequência) e voltamos a nos envolver com o mundo bookstan que, diga-se de passagem, está bem diferente de quando começamos em 2010.

Algumas coisas nunca mudam, no entanto, que é o surgimento de autores nacionais cuja escrita deliciosa é tão boa que se vende sozinha (mesmo que a gente não saiba se tais autores estão mesmo vendendo) e para a minha sorte, a primeira troca de resenha por resenha que fiz foi justamente com uma dessas autoras que escrevem muito bem, obrigada.

É por isso que “Quem apagou as luzes?” chegou às minhas mãos..

O conto em 29 páginas é sobre Rachel – uma mulher de 28 anos bem resolvida que ainda mora com os pais e ainda tem medo de escuro – optando por passar o natal sozinha pela primeira vez na vida ao invés de acompanhar a família no restaurante novo. Ela tinha tudo programado milimetricamente… exceto que Rachel não podia controlar a distribuidora de energia e o bairro todo ficou sem luz.

Quer dizer, o bairro todo tirando a casa de Lisa, sua vizinha, ex-melhor amiga de infância e primeiro amor. Quando enfrenta a questão “ficar no escuro versus implorar por abrigo num lugar iluminado que calha de ser a casa da minha ex-crush”, Rachel não tem dúvidas: vai correndo debaixo de chuva implorar por misericórdia. Como nada é fácil nesta vida, Lisa até topa deixá-la entrar… se, somente se, ela concordar em fingir ser sua namorada durante o jantar de sua família.

Um típico AU de vizinhos, “Quem apagou as luzes?” tem pontos fortíssimos, especialmente em sua metade final, mas como isso é spoiler, vou começar falando da metade inicial, que é onde as coisas não funcionam para mim.

Meu primeiro problema é de geolocalização. Se a história não for fantasia, eu fico muito coisada de ler livro nacional situado em outro país. Minha cabeça imediatamente fica “mas se eu quisesse ler coisa em X país eu ia atrás de autor de X país”, então normalmente eu aciono o botão NOPE logo nas primeiras páginas.

Mas como falei, me propus a escrever uma resenha, e para isso eu tinha que ler o conto inteiro, então vamos ler o conto inteiro, né? E é aí que vem o segundo problema: a voz da protagonista.

Rachel tem 28 anos e mora com os pais. Tudo bem, eu tenho 31 e também moro com meus pais quando estou na minha cidade natal (que na pandemia tem sido o caso), não é isso que me incomoda e sim o tom de voz de Rachel. Para mim, ela soa infantilizada, tanto que foi difícil acreditar que ela tinha 28 anos. Inclusive, nas primeiras páginas me perguntei quantos anos ela tinha, porque ela fala de trabalho, e demorou para eu ser convencida quando a informação foi dada.

Rachel narra como se tivesse 15 anos, e isso é um problema para a Byzinha de 31, porque não soa verossímil. Tivesse eu lido aos 23 anos, provavelmente isso não me incomodaria nem um pouco, e pode apostar que eu nem iria perceber. Mas como Millennial exausta, não consegui ser convencida pela Rachel em momento nenhum quase.

Mas se você espiou a ficha técnica, já viu que eu dei nota 4 pra esta história, e isso é mais que tudo mérito da Ana, que escreve TÃO BEM. Quem me conhece sabe que eu amo/sou uma escrita descomplicada e adoro história estilo slice-of-life, então foi ótimo virar página atrás de página sem cansar de ler. Cansada da Rachel? Talvez. Da leitura? Nem um pouco.

E porque a escrita era tão delicinha, cheguei na segunda metade da história, com Lisa e sua família descompassada. Como se trata de um conto, não temos espaço suficiente para entender todas as dinâmicas dos personagens, mas pelo menos pudemos dar uma boa olhada em Lisa, uma olhada melhor em Rachel, e percebemos que elas têm muito potencial sim.

(e, se me lembro bem, a Ana estava pensando em escrever mais sobre elas, então quem sabe vem aí?)

Quando Lisa e Rachel conversam de maneira franca, colocando as cartas na mesa e resolvendo a situação que as separou na adolescência, vemos uma Rachel ainda entusiasmada, mas madura como a idade esperaria ser, além de se mostrar uma personagem muito mais… reliable do que a gente poderia esperar lá nas primeiras páginas.

É por isso que no fim das contas, com o balanço geral dos prós e contras, “Quem apagou as luzes?” merece quatro estrelas. Por ser um conto que você começa lendo por diversão e termina encantada, querendo mais. E mesmo que não seja uma história situada no Brasil, estou curiosa pra saber o que poderá acontecer com o casal principal.

Recomendado para: Quem gosta de romance sáfico, jovem adulto, contos, slice-of-life e personagens melhores a cada página.

Ficha técnica

Título: Quem apagou as luzes?
Autora: Ana Carolina Marquês
Publicação: 22 de dezembro de 2020
Editora: Publicação independente
Nota: 4/5
Compre ou leia no KU: R$ 2,99

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1 Comment

  • Reply
    thanny
    25/05/2021 at 9:13 pm

    Que saudade eu estava das suas resenhas! Tenho lido contos para intercalar minhas leituras e gêneros diferentes, já que estou com a meta de sair um pouco mais da minha zona de conforto. Ainda não conhecia este conto específico, mas com certeza lerei!

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