Literatura

Zé do Caixão – Maldito, André Barcinski e Ivan Finnoti

Em 1996 tive meu primeiro contato com o personagem Zé do Caixão através do programa Cine Trash, apresentado pelo mesmo e que ia ao ar a tarde na rede Bandeirantes. Na época, estudava pela manhã e o Cine Trash juntamente com Cinema em Casa eram programas que faziam parte da rotina familiar, pois, era onde eu e minha mãe interagíamos com maior tranquilidade. Éramos espectadores do Cine Trash e ríamos muito dos filmes exibidos. Desde então, foi estabelecida uma espécie de curiosidade em procurar entender melhor quem era esse ser: Zé do Caixão. Posteriormente, descobri o cinema, isso para lá dos meus 16 anos, e consequentemente o cinema de horror. Foi ai que conheci o DIRETOR José Mojica Marins e o resto da história alguns já sabem: em 2014 meu TCC foi sobre “A meia-noite levarei sua alma“. Alguns torceram o nariz quando pela primeira vez mostrei interesse no cinema do Mojica Marins como objeto de minha pesquisa, outros queriam ver no que daria toda essa coisa.

E qual o motivo de uma minibiografia pessoal em uma resenha sobre um livro? A ideia é tentar mostrar para vocês o porque de ter sido uma das leituras mais pessoais da minha vida, mesmo sendo uma biografia. Porque existem leituras que entretém e existem leituras que mexem diretamente com você, e esta biografia fez isso comigo. De alguma forma muito forte. Cheguei no ápice da emoção e lágrimas caíram.
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Esse tipo de sensação também pode ser percebida emanando da escrita dos autores, que muito mais que biógrafos são pessoas apaixonadas pelo cinema de José Mojica Marins, pela estética criada por esse diretor que foi muito mais que marginalizado. O amor de José Mojica pelo cinema conquista qualquer um, na verdade arrebata, “corrompe”. Entre toda a genialidade de seus processos criativos e entre toda a loucura de sua ação, o que vemos nas 666 páginas que compõem Maldito, por mais inocente que possa soar, é a luta de um indivíduo para se tornar aquilo que o quer ser, enfrentando principalmente o acaso. Uma história com H pois por mais burlesca que algumas situações descritas na obra soem, muitas vezes mais surreais que os próprios filmes, foram fatos que realmente aconteceram. Eles estão lá documentados e também marcados profundamente para os que tiveram oportunidade de participar dessa espécie de revolução pessoal proposta pelo Mojica.

Encontramos no livro a influência que os pais de José Mojica Marins tiveram para que ele persistisse e realizasse seu sonho de ser diretor. Lemos sobre a produção dos primeiros filmes de José Mojica que estavam longe de serem filmes de terror, até ele ter o sonho terrorífico, uma espécie de epifania “demoníaca” e conceber um dos personagens mais emblemático da cultura nacional: o Zé do Caixão. Personagem que colocaria José Mojica figurando entre as principais referências do terror mundial, como também  o colocaria nas maiores enrascadas com a ditadura militar e com o próprio circuito cinematográfico nacional. Ao passo em que José Mojica se tornava um maldito cineasta no Brasil a Europa que tinha descoberto seu cinema recentemente gritava eufórica com suas obras.

O diretor recebeu convites na década de 1970 para participar do Festival de Cinema Fantástico de Sitges na Espanha e para Convenção do Cinema Fantástico na França, onde foi homenageado e sentou ao lado de ninguém menos que Christopher Lee em uma mesa redonda, chegando inclusive a convidá-lo para uma produção sua.

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Em Maldito, Barcinsky e Finotti buscaram fazer essa separação entre personagem e criador, pois em dado momento essa confusão de personalidades por parte do povo causou uma série de impropérios ao diretor José Mojica Marins. Eles pretenderam fazer definitivamente essa separação e mostrar que por trás desse personagem existe um homem, dotado de qualidades e defeitos, uma pessoa excessivamente persistente e criativa. E muitas vezes nós nos pegamos durante a leitura torcendo para que algo já acontecido tenha outro desfecho, como se por todos os excessos presentes nesse enredo nosso cérebro automaticamente associasse o lido com uma narrativa fantástica.

Esse é na verdade um dos grandes pontos positivos da escrita de Barcinsky e Finotti, essa leveza descritiva, a simplicidade narrativa que é muito similar a simplicidade da vida do próprio Mojica que era um “garoto suburbano” que havia abandonado a escola e tinha um português pouco polido. Uma pequena curiosidade: o Barcinsky conseguiu a distribuição dos filmes do José Mojica nos EUA, apresentando alguns VHS a Mike Vraney que quase que automaticamente após assistir as fitas, as lançou pela produtora de cinema de terror SOMETHING WEIRD. Isso lá pelos anos de 1993, o que trouxe uma repercussão positiva a Mojica no exterior, chegando a ter artigos especiais publicados sobre sua obra na revista Fangoria, uma das principais publicações especializadas de horror no mundo.

José Mojica Marins fora criado dentro de um cinema. Proximidade maior com a profissão que era seu sonho impossível. Ele era um cinéfilo, mas não aquele acadêmico que se prestava a estudar sobre todos os processos de concepção de um filme, mas sim aquele que se entregava de todo a experiência que só uma obra cinematográfica poderia proporcionar. Tanto que decidira ainda menino que seria diretor de toda forma! Essa decisão lhe custou muita energia vital, mas de alguma forma o pôs no lugar que parecia já ser seu desde sempre: o de ser um dos maiores diretores nacionais. E quem está dizendo isso não sou eu, nem os autores do livro, apesar de nitidamente afirmamos isso o tempo todo, mas foram diretores como Ozualdo Candeias, Rogério Sganzerla e até mesmo o pomposo do Glauber Rocha. O Paul Scharader e o Darren Aronofsky foram além e os colocaram entre as grandes referências mundiais do gênero. Está tudo documentado em Maldito. Não são causos e sim HISTÓRIA! Está tudo lá registrado, tanto o dito quanto o mal dito.

O seu cinema era basicamente composto pela improviso, como os próprios críticos o descreviam: um cinema primitivo. Apesar de seu pouco letramento José Mojica Marins possuía uma linguagem cinematográfica própria, que se apoiava no absurdo, no grotesco. Tudo que envolvia suas fantasias que nasceram ainda pueris estavam presentes em sua estética: quadrinhos, cinema e a vida. Um crítico até menciona que se Buñuel houvesse assistido aos filmes de José Mojica, ficaria constrangido com tamanha ferocidade iconoclástica.

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Para além da trajetória de José Mojica Marins, Maldito acaba sendo um importante documento sobre cinema. Mostra algumas curiosidades sobre a Boca do Lixo, a relação entre ditadura militar e produção cultural, como a EMBRAFILME ao invés de melhorar na verdade inviabilizou a produção e circulação de obras independentes, o surgimento da produção de obras de sexo explícito e como este processo estava intimamente ligado aos embargos nacionalistas da ditadura militar. E o mais legal de tudo isso é perceber que em todos esses processos de estabelecimento e cerceamento José Mojica Marins está presente. Na verdade, a ditadura militar o prejudicou de uma forma tão grande que ele passou várias décadas sem conseguir gravar um filme escrito e dirigido por ele, os produtores tinham medo, pois “era o maluco do Zé Marins, aquele dos filmes vetados“.

Esta biografia relançada pela Darkside Books está a altura do homenageado. Edição de capa dura, envernizada, alto, relevo contendo 666 páginas que estão recheadas de imagens do processo de produção, posteres de divulgação, fotos de elenco, entre outras coisas. Em uma linguagem mais cotidiana o livro foi reeditado no modelo “bíblia”, inclusive foi o que mais ouvi das pessoas que me viam lendo Maldito. O prefácio foi escrito por Rogério Sganzerla e no final do livro temos uma Mojicografia, com todos os filmes em que José Mojica Marins dirigiu, escreveu e atuou. Esse aqui muito mais que merecer estante por seu acabamento, merece por ser um documento histórico sobre persistência, sonhos e pesadelos. E por fim eu digo: VIVA A JOSÉ MOJICA MARINS!

Algumas curiosidades:

– Zé do Caixão chegou a TV aberta com: “Além muito além do além” (1967) na Rede Bandeirantes; “O estranho mundo de Zé do Caixão” (1968) na TV TUPI; “Cine Trash” (1996) na Rede Bandeirantes.

– Existiu um projeto escrito por Rubéns Luchetti de uma novela com Mojica: O homem que apareceu. Posteriormente o roteiro foi reaproveitado e se transformou em um longa chamado “Finis Hominis” (1971).

– O personagem Zé do Caixão no auge de seu sucesso virou HQ. Se chamava “O estranho mundo de Zé do Caixão” (1966) e era escrita por Luchetti e desenhada por Nico Rosso.

– Quando criança José Mojica tinha como estúdio de filmagem o galinheiro vazio na casa de um dos seus amigos. Detalhe: ele e o amigo envenenaram as galinhas e relataram ao pai do rapaz que era uma rara doença própria dos galináceos,o que fez com que o pai rapidamente se livrasse das que ainda estavam vivas, deixando o lugar vago para se transformar em estúdio.

– José Mojica Marins acabou vendendo todos os direitos de ” A meia-noite levarei sua alma” (1963) com o objetivo de saldar as dívidas e finalizar o filme. Ou seja, ele não recebeu NADA de um dos seus filmes de maior bilheteria.

– O canal SPACE está produzindo uma série de TV, “Zé do Caixão” (2015), baseada em “Maldito”. Roteirizada pelo André Barcinski e estrelada por Matheus Nachtergaele no papel de José Mojica.

informações

walledCortesia para resenha.
Título: Zé do Caixão: Maldito, a Biografia
Autor: André Barcinski e Ivan Finotti
Número de Páginas: 666
Edição: 1ª – 2015
ISBN: 978-85-66636-78-9
Editora: Darkside Books
Preço: R$ 99,90 (Compre com desconto aqui)
Classificação: ★★★★★

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2 Comments

  • Reply
    Raquel Moritz
    03/02/2016 at 9:50 am

    Mandou bem na resenha, adorei a parte de curiosidades :)
    Raquel Moritz recently posted..Como foi o mês de Janeiro? | LIVROS, FILMES E SÉRIESMy Profile

  • Reply
    Ana Dias
    13/03/2017 at 3:37 pm

    Muito boa a Resenha! Gosto muito dos filmes do Zé do Caixão!!

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