Literatura

Sangue Quente, Isaac Marion

Acho pertinente dizer que meio mundo ama/é esse livro. Como já falei em outro post, minha opinião não é lei (infelizmente), mas estou aqui para ser sincera, então sincera serei.

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Tudo morre alguma hora. Todos sabemos disso. Pessoas, cidades e civilizações inteiras. Nada dura para sempre. Então, se a existência é apenas binária, vida ou morte, estar aqui ou não, qual é a porra do sentido de tudo?

R é um zumbi como qualquer outro. Ou mais ou menos isso. Ele passa grande parte de sua “vida” zanzando pelo aeroporto junto de outros zumbis, e não dispensa um bom cérebro fresco, assim como seu amigo M. Mas R tem grandes pensamentos sobre sua antiga vida e vive filosofando sobre eles. Um dia conhece a jovem humana Julie, e por algum motivo não consegue matá-la. Estaria ele mudando? O que significaria isso?

Na verdade, eu não sei dizer exatamente como me sinto sobre o livro como um todo. Odiei mais coisas do que gostei, sim, mas é um negócio estranho. Comecei a leitura já entediada, sofria a cada pensamento profundo do protagonista R (e tem pensamentos profundos a cada parágrafo, EU SOFRI MESMO), não conseguia me fazer gostar do que estava lendo. Isso durou 200 páginas. Até que Sangue Quente se tornou um livro bom durante seus últimos suspiros, literalmente me prendendo ali até que o terminasse. 50 páginas de pura maravilha que me deram ainda mais raiva das outras que agonizei para ler.

A culpa do meu desgosto não é necessariamente a escrita de Isaac Marion; o cara sabe o que está fazendo. Suas descrições de cenário, sonhos, uso de metáforas e críticas a sociedade atual são bem encaixadas no contexto da história, apesar do último ter me irritado bastante, pois os personagens mostravam preferir aquele mundo em caos do que a antiga vida humana. Sem falar que por diversas vezes os acontecimentos pareciam convenientes de mais, o que acabou sendo um pouco incômodo.

Você não se lembra mesmo de como era a vida? Dos colapsos sociais e políticos? As inundações globais? As guerras, as manifestações e os bombardeios constantes? O mundo já tinha ido pro buraco antes de vocês aparecerem. Vocês foram apenas o julgamento final.

Sobre os “””zumbis””” prefiro nem tecer comentários, e não é por ser fã de The Walking Dead. Apenas não gostei da “mitologia” que Marion criou. Enfim, opinião pessoal. Inclusive esse tweet de Simon Pegg (uma das melhores existências do mundo) explica uma parte de minha insatisfação:

“Como a coisa de zumbis rápidos/lentos voltou à discussão, aqui está a chave. Se eles não parecem prejudicados pelo fato de estarem mortos, então não são Zs.”
Eles não são zumbis e são blés, ok.

R parece ser uma música de Nina Simone, uma “alma com intenções boas que não quer ser incompreendida“, mas comigo não teve jeito (desculpaê). O mesmo aconteceu com praticamente todos os personagens, exceto por M e Perry. Perry, pobre Perry, criado para que o leitor não o curta, me fisgou por ser tão humano e ter o correto sentimento de desesperança que pessoas normais teriam diante daquelas circunstâncias. M, engraçado e awesome como só, é um lindo, APESAR DOS APESARES.

Por mais que durante a leitura eu tentasse enfiar na cabeça que aquilo era fictício, não consegui engolir a relação de R e Julie. A razão é uma simples palavra: necrofilia. Digam o que quiserem, mas se o cara está morto e a menina é uma humana, esse é o nome que se dá. Ok, a maior parte do livro não é só isso, PORÉM foi complicado de qualquer forma. Achei errado e não consegui fingir que tinha esquecido. Me julguem.

Como falei lá em cima, quase todo mundo adora Sangue Quente (no Skoob tem umas 43532524 resenhas positivíssimas), mas não é pra mim. Todavia, parece que o autor está planejando sequências e, mesmo que eu não tenha ideia de onde ele vai tirar mais história, estou curiosa para ler. Por causa das benditas últimas 50 páginas, pois é. Inclusive ainda espero ver o filme, que parece ser bem mais engraçado e legal do que o livro foi. Vamos ver se assim funciona.

Quando você você chega no fim do mundo, não interessa muito que caminho pegou para chegar lá.

AH, inclusive a diagramação da LeYa ficou lindíssima, e a revisão também está ótima. Pelo menos isso.

informações

 

Título: Sangue Quente
Autor: Isaac Marion
Tradução: Cassius Medauar
Número de Páginas: 256
Edição: 1ª – 2011
Editora/Selo: LeYa Brasil
Preço: R$34,90
Classificação: ★★½☆☆

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6 Comments

  • Reply
    Felipe
    01/05/2013 at 2:37 am

    High five* /grin eu também não gostei do livro, não consegui me acostumar com os zumbis. O engraçado é que eu gostei do filme.
    Felipe recently posted..Procura-se ResenhistaMy Profile

  • Reply
    Gabi
    01/05/2013 at 2:13 pm

    Nhaa, que pena que não gostou!
    Talvez você realmente goste mais do filme, já que tem bem menos dessa coisa reflexiva do livro. Foi uma coisa que incomodou muita gente mesmo.
    E, só pra constar, acho o ponto da necrofilia passível de discussão. Tipo, é, ele tá morto por definição, mas não é como se ele se comportasse como um cadáver normal, o que já invalida parte do conceito. Não que eu seja especialista mas, se não me engano, a coisa toda está ligada ao fato de que a pessoa não se mexe -o que não é o caso.
    E também, desculpe se pareço ingênua, mas acho que o sentimento que Marion criou foi de fato uma coisa muito mais inocente (apesar do filme, vou logo avisando).

    Enfim, a resenha ficou bacana, todo mundo tem dirreito de não gostar. Eu que gosto de debatendo mesmo ;D

    Beijitos
    Gabi recently posted..Alice in Zombieland (The White Rabbit Chronicles #1) – Gena ShowalterMy Profile

    • Reply
      Sam
      01/05/2013 at 6:21 pm

      Seu conceito é realmente interessante, não tinha pensado nisso. E sim, eu senti essa inocência no decorrer do livro, mas, não sei, não consegui acreditar nela, talvez. Obrigada pelo seu comentário e por não me matar, haha. Beijos!

  • Reply
    Ceile
    03/05/2013 at 2:56 pm

    Oi, Sam!
    Eu nunca tive contato com zumbis antes, acho tão nojentos e com Sangue Quente fiquei pensando nisso boa parte do tempo (principalmente com as descrições do R).
    Sabe, por esta “repulsa” (talvez) consegui me distanciar dos zumbis e focar mais na reflexão do livro (e isto pra mim deixou o livro ótimo).
    Achei tudo muito perturbador, me fez pensar em várias coisas que não relacionadas aos zumbias (sei lá, eles viraram apenas uma espécie que poderia ser qualquer outra).

    Beijos!

  • Reply
    Pam Gomide
    06/06/2013 at 4:36 pm

    Nossa, vc nao gostou msm, hein!! rs
    Fico feliz por nao ter gostado, pq ai vc quis trocar o livro! \o/
    e ele veio pra mim q adorei! kkkkk
    Eu vi o filme e gostei, ai cismei q tinha q ler!
    e acabei gostando mais do livro do q do filme (como semre.. rs)

    Diferente vc, eu adorei os zumbis, achei eles engraçadinhos apesar d td..
    Ria em imaginar eles namorando. a mulher dele traindo e td mais..

    é meio bizarro msm uma relação d zumbi com uma humana, mas ao msm tempo achei tao fofo e adorei o R… Nao tenho problemas com isso, ja q vemos vampiros, lobisomens, varias figuras mitologicas se apaixonando por humanos, qual o problema em ser zumbi? hehe o meu negocio é ter romance.. sou muito melosa.. rs

    bjs
    Pam

  • Reply
    Who's thanny? » Arquivo » Meu Namorado é um Zumbi (2013)
    14/06/2013 at 6:46 pm

    […] Quer um filme para passar o tempo? Ta aí. Sua vida não vai mudar, mas vai fazer maravilhas para seus ouvidos. Falei sério sobre a trilha sonora, é incrível mesmo. Warm Bodies é simpático e gostoso de assistir, caso você só queira entretenimento. E se você ficou curioso sobre o livro, tem resenha aqui! […]

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