Literatura

Habibi, Craig Thompson

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Dodola e Zam têm suas vidas cruzadas pelo destino. Dodola foi vendida pelo pai aos 9 anos de idade a um escriba que a tomou como esposa e acabou lhe ensinando o “dom” da escrita.  Em dado momento, por ser mulher, fora roubada e feita escrava. Zam, que nascera Cam (a mudança de nome é explicada na obra), desde seus primeiros suspiros teve sua liberdade usurpada por ser negro. Abandonado a sorte enquanto recém nascido pela mãe, que achava que a morte seria menos cruel que a vida que esperava por ele. É no encontro entre essas duas personagens, na situação de cárcere, que a estória de “Habibi” (2012) se desenrola, juntamente com a busca por compreensão, liberdade, ternura e livre arbítrio. É sobre pessoas que resolvem se rebelar contra as intempéries contrapostas pelo destino e justificadas pela tradição.

Dodola, como dito anteriormente, domina o dom da palavra e pode-se dizer que o Craig Thompson se espelhou na Sherazade para criar essa personagem. Ela conta histórias, que servem para afasta-los do peso e do fardo da realidade em que estão inseridos. Da mesma forma que essas narrativas são uma imersão no imaginário religioso e folclórico do oriente médio, elas servem como metáforas à trajetória própria de cada personagem. Vidas entrelaçadas pelo destino e pela injustiça que também o são separadas pelos mesmos. São os encontros e desencontros que regem a “sinfonia” narrativa desta obra.

A trama é de uma fluidez tamanha que quando você menos percebe está mais envolto que os próprios personagens nos contos ditados pela personagem Dodola. Zam não é o único que deixa se levar pelas palavras da protagonista. Quando menos percebemos já estamos envolvidos na atmosfera dos seres místicos do oriente médio: Jinns, Sheytaans, peixes coloridos, cosmologias e cosmogonias advindas do Alcorão. Fora outros elementos não menos importantes a trama e que são oriundos da realidade: as Hijras (transexuais em sua maioria indianos), eunucos, escravidão.habibi108

A estória fala de amor, mas também questiona alguns elementos tradicionais. Dodola e Zam são culpados por crimes que nunca cometeram, ou seja, pelo seu gênero e pela cor de sua pele são condenados a pagarem com sua própria liberdade. Mas os laços que são construídos entre as duas personagens são de uma firmeza enorme, o que faz com que os mesmos enfrentem todos os problemas apenas para ficarem perto um do outro. Nem o tempo consegue fazer com que os mesmos estejam separados, pois as lembranças são sempre presentes. É uma estória que apesar de ambientada em um mundo fictício não foge muito da nossa realidade mais próxima. Craig Thompson usa a cultura islâmica como argumento narrativo, mas trata de temas de caráter universal que estão presentes em todas as formas de produção cultural. E de forma bastante poética, metafórica e sucinta questiona valores advindos da tradição, mostrando que muita opressão era e ainda o é justificada por um viés “culturalista”. A narrativa apesar de abordar temas tais como o amor, sacrifício e a ideia de pecado, possui muitos elementos que podem ser julgados por alguns como violentos: escravidão, estupro, miséria. Nada que afete o lirismo da obra, na verdade esses elementos agregam ainda mais sentido a trama construída pelo autor.hab_028-029

Os desenhos do Craig Thompson só aumentam a qualidade da obra. São minimalistas, em alguns momentos dotados de uma organicidade exorbitante, envolvente, assim como a sua narrativa. Poucos são os que conseguem ser bons desenhistas e manterem a qualidade do argumento, Thompson conseguiu e de uma forma fenomenal. Sem citar algumas referências nítidas em toda a obra: o Alcorão e “As Mil e uma Noites”, assim como vários outros contos e mitos do folclore do oriente-médio a Bíblia cristã também está presente. Existem várias comparações no percorrer da obra entre a Bíblia e o Corão, desconstruindo certos “achismos” acerca da cultura islâmica. O “time” narrativo transita entre o tradicional (camelos, Sutão, haréns) e o contemporâneo, ora evidenciando elementos seculares ora apresentando elementos “modernos” (arranha-céus, carros e afins). Outro ponto positivo de “Habibi” (2012) é o fato do autor, apesar de americano, não ter se rendido aos “orientalismos” e criado personagens estereotipados (sabemos que isso é bastante comum). Ele demonstrou ser um conhecedor do cristianismo e que realmente pesquisou sobre a cultura muçulmana, trazendo assim personagens empáticos e humanos. Na verdade Thompson passou 7 anos pesquisando a cultura islâmica para assim poder escrever “Habibi”.

Se por acaso vocês se depararem com a oportunidade de obter essa obra, não pensem duas vezes. Deixem se encantar pela linda estória de amor e redenção de Dodola e Zam. Eu particularmente demorei bastante para experienciar isso, mas confesso que está entre as melhores coisas que tive oportunidade de ler esse ano. A Companhia das Letras acertou em cheio ao trazer essa Graphic Novel para o Brasil, tanto que já está na sua 3ª reedição. São mais de 600 páginas de uma obra sem igual e que merecem estar na prateleira dos admiradores dessa forma artística e literária que são os quadrinhos.

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informações

Cortesia da editora para resenha
Título: Habibi
Autor: Craig Thompson
Tradutor: Érico Assis
Número de Páginas: 672
Edição: 3ª, 2015
ISBN:9788535921311
Editora: Quadrinhos na Cia.
Preço: R$ 60,00 (Compre aqui)
Classificação: ★★★★★

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1 Comment

  • Reply
    Retalhos, Craig Thompson - Who's thanny?
    21/11/2016 at 1:00 pm

    […] primeiro grande trabalho do quadrinista Craig Thompson – que inclusive já foi resenhado por aqui. Diferentemente de Habibi, outro grande e excelente trabalho seu, em Retalhos Thompson meio que de […]

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