Música

Gorillaz marca seu retorno com Humanz

E eis que a banda virtual de trip rock Gorillaz lançou disco novo de estúdio, Humanz, depois de 7 anos desde o anterior, cheio de músicas ótimas e convidados que ajudaram a deixar o álbum bastante criativo. E nós, Hypia e Byzinha, ouvimos e estamos aqui pra dividir nossas impressões com vocês.

Existem duas versões disponíveis de Humanz: a standard, com 20 faixas, e a deluxe, com 6 faixas a mais. Também é possível encontrar o vinil, com 20 faixas e um encarte lindo maravilhoso. É possível ouvir as duas versões no spotify de graça, como é de imaginar. Nós inclusive incentivamos o streaming, porque assim a banda fica sabendo do alcance de ouvintes que o álbum está tendo.

Standard

O disco abre com uma intro que tem basicamente uma única linha: “I switched my robot off and I know more, but I retain less” (“Eu desliguei meu robô e eu sei mais, mas eu guardo menos”), na voz de Ben Mendelsohn, também conhecido como o Diretor Orson Krennic de Star Wars: Rogue One, de um jeito que faz pensar justamente em robôs e viagens espaciais, e o senso de ironia da coisa meio que pula na sua frente.

A música seguinte, Ascension, com participação do rapper Vince Staples, combina uma letra fantástica cheia de referências sobre a forma como a pessoa que tá cantando enxerga um monte de coisa num cenário de fim de mundo e uma batida bem de animada. O resultado fica de um jeito que quando você ouve você não sabe se fica com medo, com vontade de rir ou de dançar.

Depois vem Strobelite, com participação de Peven Everett, um músico cujo trabalho contém elementos de house music, R&B, jazz e hip-hop. Por algum motivo, enquanto eu, Hypia, ouvia essa música, a impressão que tive é que essa mistura de estilos me pareceu uma versão modernizada de melodias não tão recentes assim.

Saturnz barz, com a participação do jamaicano Popcaan, tem uma pegada pro reggae e uma letra que depois que eu, Hypia, acompanhei pra tentar entender melhor e descobri que tem trecho em criolo jamaicano (obrigada, By, por me dar o toque sobre que idioma era o das partes que eu não conseguia decifrar) me pareceu ainda mais sofisticada, ao mesmo tempo pessoal e sobre sentimentos em geral que parece que a maioria das pessoas tem em algum momento.

Momentz, com De La Soul – e uma outra participação do Ben Mendelsohn – é outra das músicas dançantes deste album, e a combinação da melodia com a letra que, pelo menos num primeiro momento, pode parecer ser sobre aproveitar o momento numa vibe “já que o mundo tá pra acabar, então, ninguém é obrigado a nada” mas que tem muito mais que isso, principalmente na menção a um “Kool Klown Klan”.

http://johnnyongbosch.tumblr.com/post/160154607915

E chegamos a uma faixa de transição bem curta, o Interlude: The Non-Conformist Oath” – na qual também podemos entender um gigante senso de ironia. E daí vem Submission, com participação de Kelela e de Danny Brown – uma música com um tanto de pop, R&B e eletrônica, com a letra que superficialmente parece a mais “simples” até aqui, sobre um relacionamento que não tá bem, e que também se encaixa no cenário de fim-de-mundo que essa coleção de músicas representa.

A próxima é Charger, com Grace Jones – uma artista que, além de fazer música, também é modelo e atriz. Vale ressaltar que na entrevista para a Telekom Electronic Beats, ficamos sabendo de duas coisas interessantes sobre essa parceria: 1) segundo Murdoc, Grace Jones flertou com ele e essa é uma imagem que não consigo desassociar em minha (By) mente sempre que ouço a música; 2) Grace Jones bateu no 2D com a bolsa porque ele não podia segurar o casaco dela. Meu pobre Stu-Pot, tadinho, tava segurando suco de laranja. Talvez Grace e Murdoc seria um ship promissor. Charger tem uma sonoridade que, em vez de eletrônica, eu chamaria de elétrica. Eu, Hypia, imaginei essa música como trilha sonora em algum filme futurista ou algo assim. Ela também foi usada na propaganda deles pro app Lenz.

http://sailortoasty.tumblr.com/post/160097765755/i-aint-happy-im-feelin-glad-then-i-got-hit-by

Interlude: “Elevator, going up” (“Elevador, subindo”) – outra transição de uma frase só na voz do Ben Mendelsohn. Imagine uma cena em que alguém em um filme esteja pra subir num elevador e tá tudo tão de uma cor só que chega a quase assustar – foi mais ou menos num instante assim que eu, Hypia, pensei quando ouvi essa. E então tem Andromeda, que me deu a impressão de que quem entrou no elevador foi literalmente pro espaço e então o filme acabou. Andromeda é uma das faixas dançantes do álbum, a catchy phrase “take it in your heart now, lover” (leve em seu coração agora, amor) te acompanha por horas depois de ouvir a música.

Ela tem uma ponta perfeita com a música seguinte, que acabou se tornando a minha (By) preferida de todas que o Gorillaz já lançou até hoje: Busted and Blue. Melancólica e introspectiva, essa poderia ser considerada a música triste do álbum, lembrando até um pouco a fase de Plastic Beach com suas musiquinhas apaixonadas de coração partido. Ouvir 2D cantar o refrão “all my life/be my light on me,/I am a satellite/and I can’t get back without you./Be my love,/be my light” (toda minha vida, seja minha luz em mim, sou um satélite e não posso voltar sem voce. Seja meu amor, seja minha luz) é algo que muda a vida das pessoas.

http://shotsdearte.tumblr.com/post/160072951838/how-in-the-universe-through-the-lithium-busted-and

É aqui que a gente começa a se incomodar com a quantidade de interlúdios que esse álbum tem. Interlude: Radio Talk é o quarto a aparecer. E, eu, Hypia, achei bem ambíguo – e que podiam ter economizado na quantidade de quebras que essas transições criam.

Carnival não é o tipo de música que eu, Hypia, geralmente pego pra ouvir, mas minha palavra pra descrever o som dela seria hipnotizante. E a letra também é caprichada, uma ótima metáfora sobre como um prêmio em algum tipo de carnival pode ser ilusório – do mesmo jeito que, bem, um monte de coisas.

Uma das melhores músicas do álbum vem na sequência. Let me out, com Pusha T e Mavis Staples, tem uma batida despreocupada e embalante acompanhada de uma letra politizada, especialmente no lado do racismo institucional, um assunto que não cansa de ser atual, infelizmente. É nessa faixa que também fica evidente a total mistura de estilos e convidados característica do Gorillaz, tendo como a voz do refrão uma cantora gospel consagrada. Quem um dia iria imaginar isso acontecendo? Quer dizer, Murdoc, O satanista, e Mavis Staples na mesma faixa? Iconic.

Outra transiçãozzzzzzzzzzzzZZZZZZZZZZzzzzzzzzzzz. Interlude: Penthouse. Elevador, de novo. E depois somos direcionados a outra faixa tranquilinha, Sex Muder Party – como se a gente tivesse subido pra um apartamento… por motivos que vou deixar a By conversar com vocês sobre – eu, Hypia, concordo bastante com o que ela tem a dizer agora.

Existem duas formas de definir Humanz: 1) é o álbum sobre tentar se divertir quando sua vida está na lama; e 2) política e músicas de sexo. Essa pequena sequência aqui é onde a definição #2 fica mais clara. Antes de mais nada, Sex murder party quer passar como uma baladinha despretenciosa, mas olhando a letra mais de perto a gente fica um pouco preocupado com quem está cantando, especialmente Zebra com “you always said I was out of control/teach me hatred then let me go” (você sempre disse que eu estava fora de controle/me ensine ódio e me deixe ir).

MAS AÍ vem a faixa mais panty-dropper do ano, marquem minhas palavras!!! She’s my collar. Eu (By) juro por Deus que derreto TODAS. AS. VEZES. QUE. OUÇO. Stuart, meu rapaz. Stuart………… She’s my collar é golpe baixo. Com uma vibe completamente oposta à de Busted and Blue, ao final da faixa só nos resta sentimentos conflitantes.

http://wegothepower.tumblr.com/post/160202622884/how-can-this-cinnamon-roll-be-the-same-person-that

Sobre Interlude: Elephant, bom, a By já explicitou que esse disco tá cheio de conteúdo que pode ser interpretado de um jeito sobre política, então, lá vamos nós: um desenho de elefante é um dos símbolos do partido republicano, então é basicamente sobre “ok, e se eles ganharem a eleição?”, o que de fato ocorreu. Hallelujah Money foi a primeira faixa divulgada, lá em janeiro, ditando o tom do que estava por vir: um álbum completamente diferente e imprevisível.

We got the power, a última música da versão standard, é uma das faixas que foi revelada na semana anterior à House Party, com uma batida feliz, letra esperançosa sobre amar uns aos outros não importa o que aconteça. Com a participação de Noel Gallagher e Jenny Beth, o álbum termina com uma nota alta, feliz até.

Deluxe

A função da Interlude: New World foi abrir esse bloco – e a gente já tinha achado bem antes que não era tão necessário assim despedaçar tanto.

A primeira faixa exclusiva da edição deluxe divulgada na rádio foi a deliciosa R&B The Apprentice. Com participações de Rag’n’Bone Man, Ray BLK e Zebra Katz somados à 2D, somos levados numa viagem que só pode ser descrita de uma forma: DELICIOSA. Mas não se engane com a batida e vocais gostosinhos, a letra não tem nada de ingênua. Na verdade, a música segue a linha pós-apocaliptica/Trump de gente que tem um monte para dizer.

Eu, Hypia, achei Halfway to the halfway house bem no clima de “vamos se divertir enquanto o mundo acaba”, e também não é o tipo de melodia que eu geralmente escolho pra ouvir. Achei a batida de Out of the body, a faixa seguinte, cativante, e achei que formou uma boa sequência com Ticker tape, parecendo que a coisa veio desacelerando pra uma coisa mais tranquila.

Finalmente, chegamos ao final do álbum com Circle of Friendz. A faixa de pouco mais de 2 minutos poderia muito bem ser considerada uma outro, e assim como We got the power, ela oferece um encerramento feliz para o ouvinte. O círculo de amigos, que tem a participação de Brandon Markell Holmes, sugere união e harmonia, e sabe de uma coisa? Depois de todas as brigas e separações que a banda virtual viveu em suas fases anteriores, é um prazer ver que as coisas estejam se acertando.

(mesmo que Murdoc tenha sequestrado 2D mais de uma vez e esteja constantemente torturando o rapaz; mesmo que 2D tenha síndrome de Estocolmo; mesmo que Murdoc tenha tentado assassinar Noodle uma vez – ele se desculpou! segundo ela, faz 7 anos que ela não precisa fazer uma xícara de chá -; e mesmo que a pessoa mais próxima do normal seja um negão 2×2 que sofre de constantes possessões de espíritos, mas HEY! progresso!)

No fim das contas, Humanz provavelmente é um dos melhores álbuns do ano. Um fácil 4.5/5 pra gente e esse meio ponto a menos é única e exclusivamente porque a gente precisava de mais vocais do 2D nessa parada. E da Noodle. Mas fora isso, a experiência de ouvir Gorillaz 7 anos depois de Plastic Beach é reconfortante, gratificante e maravilhosa.

Eita que saudades que a gente estava deles!

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