Entrevista

Conversa de mulherzinha com autoras e blogueiras: feminismo na cultura pop (parte 2)

É o último dia da nossa semana especial focada em tudo quanto é coisa de mulherzinha e nós concluímos aqui com a parte final da entrevista que fizemos com uma mulherada que sabe do que ta falando, uma conversa franca sobre o feminismo na cultura pop e sua importância na indústria do entretenimento.

Conversa de mulherzinha feminismo na cultura pop

Como você pode explicar todo o desprezo direcionado a personagens femininas que, afinal, não agem como se fossem fortes todo o tempo (seja porque ela chora ou porque ela se apaixam ou porque se deixam influenciar “mais rápido do que o esperado”)? Você acha isso – o amor eterno pela mulher sempre forte ou o desprezo às que aparentam ter mais “fraquezas” – um desserviço à retratação feminina na ficção?
Iris: Geralmente, a gente chama de “forte” personagens que fazem o que nós consideramos comportamento masculino. A força não reside no físico ou em não demonstrar emoções. Às vezes chorar é sinal de força e confiança, não de fraqueza. A gente precisa de mulheres de todos os tipos na ficção. Que choram cortando cebola, que matam aliens, que são mães zelosas, que preferem trabalhar a ter um relacionamento etc. Por que mulheres são diferentes e elas precisam estar e se sentir representadas.

Anne: Com certeza! Afinal, todos temos nossas fraquezas, assim como temos diferentes qualidades. Alguns revelam sua força no calor da batalha, outros em enfrentar suas dores, outros em ajudar os demais. Cada um/a tem seu estilo. E, como já falei antes, me encanto ainda mais quando vejo um personagem “inabalável” quebrar. Porque esse é um momento humano dele, um momento de possível identificação com o leitor/expectador. Uma chance de inspirar quem está aqui fora, uma chance de pensar “eu sei como se sente, e se você pode ser tão forte mesmo passando por tudo isso, também posso!”

Larissa: Acho que falta a algumas pessoas uma ideia mais concreta do que é “ser forte”. Chorar, amar, sentir, nada disso é fraqueza – é natureza humana. Todo mundo sente. Você não é mais frágil por sentir, muito pelo contrário. E a força vem em formas e maneiras inesperadas pra cada um de nós. Somos diferentes, então é justo que na ficção, as personagens também sejam. Associamos a ideia de força ao que fazemos de ideia a uma “força masculina” – racionalidade, saber separar sentimentos, independência total e, quem sabe, uma dose extra de força física pra “saber se cuidar”. Só que ninguém funciona assim tão preto no branco, nem homens, nem mulheres. É preciso aceitar que todo mundo navega entre os tons de cinza, que a personalidade humana vai mais fundo do que isso. Uma personagem pode ser chorona e ainda assim ser forte. Ela pode ser devotada à família e ainda assim ser forte. Ela pode não ter força nem pra erguer uma caixa de leite, e ainda assim ser forte. Ninguém precisa ser tudo. Não queremos super-heroínas, queremos bons personagens. A força também está em aceitar suas fraquezas.

Denise: Eu acho isso tão desnecessário… Não é porque uma personagem é fraca que ela merece desprezo. Seja frágil, romântica, poderosa, indestrutível, maléfica ou bondosa, desprezo não é a resposta pra personalidade dela. No meu caso, eu tenho problema com personagens influenciáveis e às vezes submissas demais, porque gosto de ver atitude; então procuro ficar longe de obras que retratem mulheres assim. Acho que toda personagem feminina bem construída deveria ser louvada, porque forte ou fraca, ela está ali por motivos poderosos. Ela foi criada para contar uma história, e, se você não gosta de como ela se desenvolve nessa trama, ignorar e procurar por outra personagem com quem você se identifique é melhor do que odiá-la, porque outras pessoas podem ter se encantado com o jeito dela e podem amá-la por isso.

Mareska: Talvez o problema esteja na maneira como encaramos uma “personagem forte”. Por muito tempo acabamos levando isso ao pé da letra, então personagem forte é aquela que desce o braço nos outros quando precisa, é durona e tem “””personalidade forte”””. Confundimos personagem forte com personagem bem construída. É possível passar a história toda correndo atrás do seu grande amor ou tomando decisões estúpidas ou sendo uma megera insuportável e ser uma personagem incrível.

Yasmin: Já fiz essa pergunta para mim mesma algumas vezes. A resposta sempre foi “não”: assim como nem todas as garotas no mundo são iguais, as personagens dos livros não são. Cada uma tem sua forma de ver o mundo, de reagir, de pensar. E elas podem amadurecer ou regredir conforme a trama se desenrola. Acho que personagens overpower também ficam cansativos, então é praticamente necessário terem limitações. Talvez não demonstrem seus sentimentos abertamente também, mas eles podem estar ali, disfarçados.

Renata: Esse é um controverso reflexo desse período de transição do cenário onde havia total antagonismo do feminino ao machismo para ao novo panorama do novo feminismo descrito por Chimamanda. Daí surgem mulheres na ficção que começam a agir como os homens, não choram, são fortes e duronas. Os homens, obviamente, não gostam. Eles estão vendo o reflexo deles mesmos e querem a outra mulher, a frágil. Outra facção de homens vê essa mulher cheia de si e durona e a admiram. Ao mesmo tempo em que, as mulheres estranham a atitude das personagens femininas frágeis demais ou fortes demais. É mesmo confuso e indefinido! Não estamos num momento de exigir unanimidade dos leitores no quesito tipo certo de personagem feminino. Na verdade, é o momento de mostrar que nós mulheres queremos ser apenas nós mesmas. Algumas choram mais, outras menos. Umas são doces e outras quase ríspidas. Isso é o normal. Não há padrão! Sem clichês. Acho ótimo haver discussões e debates sobre essa ou aquela personagem. É mostra que não estamos confortáveis. E isso, precede uma evolução.

Tammy: Eu tenho gente que reclamou da minha personagem Thizi, do meu 4° Livro, por ela ser mais infantil ou não corresponder a atitude das pessoas, mas muitas garotas me escrevem dizendo que ela as incentivou a mudarem suas vidas, que se reconheceram ali. Honestamente esse segundo retorno é que me interessa. Eu escrevo uma ficção com realidade e liberdade de usar a licença poética quando acho conveniente. Vejo muita garota imatura, cheias de problemas, vou fingir que o mundo é repleto de heroínas? O que me interessa é falar das transformações dessa personagem, do amadurecimento e das enormes reflexões que o livro pode trazer.

A leitura de livros eróticos vem ganhando destaque nos últimos anos, chegando à lista de best sellers. Muitos leem na rua, no ônibus, no metrô sem medo de serem felizes, porém o preconceito ainda é grande, o que levanta o debate: Qualquer tipo de leitura é válida? Por quê livros eróticos são considerados tão ruins? Qual a diferença entre quem assiste pornô e ler um livro desse tipo?
Yasmin: Admito que eu tenho um pouco de preconceito com pornô. Mas estamos num país livre e ler um livro do gênero em público não faz ninguém ser um depravado. A não ser que esteja querendo compartilhar a leitura com algum passageiro do ônibus/trem. (risos) E o mesmo acontece com os filmes. As preferências de leitura são como de música, cinema etc: são muito pessoais. Já aconteceu de eu gostar muito de um livro e amigos próximos acharem uma grande porcaria. Não se pode crucificar ninguém por causa dessas divergências. Devemos respeitar para sermos respeitados. Falando sobre o mercado editorial, ele está de portas abertas para todos. Basta fazermos um bom trabalho em nossa área, corrermos atrás de divulgação e sermos felizes!

Iris: Para mim, toda leitura é válida. Eu acho que o leitor escolhe o que é válido ou não para ele. Me preocupa por alguns desses livros trazerem o slogan de liberação feminina, mas propagarem muitos discursos opressores. Mas é algo que temos que desconstruir aos poucos. Acho que já é algo muito considerável uma mulher ler publicamente um livro que todos sabem do que se trata, sem ter medo de demonstrar que gosta sim de ler e falar sobre sexo. Mas precisamos ser um pouco críticas com relação a forma como alguns relacionamentos em alguns livros eróticos são abusivos – e em livros no geral, não vamos colocar a culpa só nesses, vários apresentam esse problema, escritos por homens e mulheres. Não digo que eles não possam ser relatados. Pelo contrário: relacionamentos abusivos PRECISAM ser relatados, assim como tudo que existe na vida deve chegar na ficção, faz parte. Mas não podem ser endeusados e romanceados, a gente precisa conversar sobre os problemas de um cara achar que uma mulher é sua propriedade.

Tammy: Acho que muita gente que não lia há anos, pegou 50 tons de cinza. Acho que o livro erótico acaba recebendo crítica de quem acha que apenas a literatura rebuscada vale, mas muita gente voltou ao mundo da literatura com a leitura do livro. Para mim, pessoalmente, acho positivo. Com tantas seduções, televisão, internet, o mundo lá fora chamando, acho válida essa leitura. Bem, sem parecer pudica, mas não sou muito entendida na questão para saber a diferença entre literatura hot e um filme, mas vou imaginar que o livro a imaginação poderá ir mais longe.

Larissa: Pessoalmente, eu não gosto de livros eróticos. Não é o tipo de leitura que me agrade. Dito isso, eu também não gosto de livros espíritas, mas minha mãe os lê aos montes. Não gosto de livros de terror, mas minha melhor amiga praticamente só lê esse gênero. Torço o nariz pra autoajuda, mas você vê gente comprando esses livros todos os dias. E ninguém diz nada a respeito. Então por que a diferença com a literatura “hot”, quando é só mais um gênero literário? Eu não acho que livros eróticos sejam todos ruins, apesar de não gostar. Como em qualquer gênero, existem alguns melhores do que outros, e nenhum vai agradar todas as pessoas que lerem. Dito isso, em boa parte dos casos, duvido que quem julgue esteja pensando na qualidade narrativa – se estivesse, seria porque já leu, e portanto não estaria numa posição de julgar quem lê agora. Acho que o que perturba as pessoas é a ideia de que as mulheres estão pra cima e pra baixo com as suas E.L.James e Sylvia Day debaixo do braço, lendo na rua sem esconder a capa. É a mesma coisa que anunciar “ei, eu gosto de sexo”. Uma novidade: todo mundo gosta. O que incomoda é que seja escancarado, como se ninguém pudesse saber. Um tipo de conteúdo sexualizado que, pela primeira vez, não é feito pro público masculino. Então é claro que vai todo mundo torcer o nariz – você, menina, não devia ler essas coisas, não pra todo mundo ver. Não é direito. Não é assim que a sociedade funciona. Em suma, acho que todo mundo tem que ler o que te faz bem, e o que te interessa. Prefiro mil vezes um vagão de trem cheio de gente carregando Cinquenta Tons de Cinza do que o mesmo vagão onde ninguém lê. Dificilmente esse será o único livro na vida da pessoa. E se ela gosta de literatura erótica, ninguém tem nada a ver com isso.

Bárbara: Sim! Qualquer leitura é válida! Tenho uma tia que voltou a ler com frequência depois de anos com 50 tons de Cinza e agora ela lê todo tipo de livro que aparece pela frente. É interessante observar que sempre há um título que desperta o amor pela leitura nas pessoas e raramente é um grande cânone literário. Não importa a porta de entrada, desde que você continue lendo. A questão toda da validade dos livros eróticos não é a qualidade literária e sim o público. Ainda existe um tabu muito grande em relação à sexualidade feminina e assusta para alguns ver que ela existe e ter esse fato esfregado na cara tão abertamente. Livros eróticos estimulam a exploração dessa sexualidade, estimulam a criatividade, mostram que as relações sexuais podem ser um pouco diferentes das que algumas mulheres estão habituadas. A gente sempre tem que lembrar que até algumas gerações atrás, falar de sexo era um tabu extremo. Até hoje falar de masturbação feminina é esquisito e alienígena, então livros com esses temas são muitas vezes o único contato com sexo que algumas leitoras tem. Por isso, recebem muito mais hate do que um best-seller padrão receberia. Uma das diferenças entre ver um pornô e ler um livro erótico é que a maior parte da pornografia hoje é feita voltada para o olhar masculino, onde a mulher é um mero objeto para obtenção do prazer e sem o foco na satisfação dela. É uma indústria que também está mudando, existem cada vez mais produtoras de pornografia para mulheres, feitas por feministas, mas em geral, não agrada o público feminino pela forma como a mulher é retratada. Já a literatura erótica é voltada para o público feminino e focada no prazer da mulher, o que acho uma diferença considerável. Isso cria um probleminha de divergência de expectativas entre homens e mulheres, mas é assunto para outra hora.

Renata: Uma frase quase resume todas as perguntas: roteiros e tramas melhores. Antigamente, livros e filmes pornôs ou eróticos rodavam somente no ato simplesmente. Isso é banal e desvaloriza o expectador ou leitor. É assistir para ver sexo ou ler pelo sexo. Hoje, já existem tanto livros quanto filmes que possuem elementos pornôs ou eróticos estão envoltos em uma trama que prende. O preconceito sempre vai existir. Sexo é, e pelo menos por um tempo, será tabu. Mas o que tem que evoluir é a forma madura de abordar o tema. Sexo é parte dos seres vivos. É natural. Tem sua validade sim, se não fosse assim não daria tanto a falar. Literatura bem feita que fala de sexo (independente de ser explícito ou não) é válida. Tem gente que não gosta, mas daí é gosto pessoal e não qualidade literária.

Anne: Qualquer tipo de leitura é válida, sem dúvida. Se é do seu gosto, por quê não? Acho que o tópico de maneira geral é tabu, e muito associado à vulgaridade, a algo sujo e errado. Inclusive, alguns escritores/leitores da internet ainda o tratam assim (não vou falar sobre os livros porque nunca li nada do gênero, então não estaria em condições de opinar sobre) E, sinceramente, diferença nenhuma.

Denise: Eu, ainda que não leitora de livros eróticos por opção, porque nunca vi neles qualquer trama chamativa ou que minimamente me despertasse a atenção, não considero todos ruins. Acho que há tramas e há tramas, e há narrativas bem desenvolvidas e outras fracas demais para ser consideradas uma leitura agradável. Hoje é bem mais sobre “encontrar liberdade e romantismo em algo banalizado, que é o sexo”, e é por causa dessa liberdade que tanta gente vem deixando de ter vergonha de assumir que sim, estava lendo um livro erótico. O pornô é, bem… Eu não acho que tenha uma história nele. HAHAHA. Uma vez que você leia um livro erótico, espera-se uma conexão com os personagens, com suas desenvolturas (espera-se uma boa trama, também. Não só sexo, mas o pano de fundo que leva os personagens àquele envolvimento intenso). Só sexo é, basicamente, o que o pornô oferece.

Lembro da Paula Pimenta falando uma vez sobre o publico masculino lendo Fazendo Meu Filme, que tem capa rosa, e tinha menino pedindo pra mudarem a cor porque ele queria ler, mas tinha vergonha/medo de ser julgado. Nesse caso, o livro de mulherzinha vai além do titulo ou história, está na cor da capa. Como o mercado editorial lida com isso? E o que o próprio autor pode fazer pra contornar a situação e conquistar mais um leitor?
Renata: Olha, eu sou muito neutra quando retrato elementos nos meus textos. No sentido de pensar nesse ser menos machista e menos feminista antigo. Eu tento construir algo que retrate a realidade sem ser icônico ou caricaturista. Minhas personagens são como as garotas são na vida real: algumas ousadas, outras bobinhas, algumas corajosas, tem as inteligentes, e também a sem sal. Tem lugar para todas. Sem pensar em exacerbar machismo ou feminismo. Livros chick-lits legais são aqueles que oferecem algo mais, tem mais conteúdo. Aprofundam temas da idade, saem da mesmice, trazem problemas reais, desconstroem conceitos e criam algo novo. Vão além do “coisa de mulherzinha”! Daí, os garotos gostam também. Ao meu ver, se a proposta é evoluir e ter sempre inovação, adaptar algo como a capa aos novos leitores é muito plausível. Fora isso, acho que o autor deve defender suas escolhas sugerindo uma atitude do leitor. Afinal, se ele curte a história, sem essa de julgar o livro pela capa! É papel do escritor juvenil ajudar o leitor a saber como agir nas situações da vida. John Green faz isso muito bem. É isso que o leitor dele gosta e elogia. Então, porque não mostrar que livros chick-lits podem ser ótimos quando bem escritos e com uma trama atraente? Tem espaço para todos e públicos diversos. O que conta é ter uma boa escrita e mostrar conteúdo independente do nicho editorial escolhido.

Denise: Eu já acho a situação de “julgar o livro pela capa” bem desnecessária, dai a “julgar o leitor pela capa do livro que está lendo” só piora. É fato que há um padrão de livros; você encontra capas de determinado jeito em livros de ficção fantástica, com estilos reconhecíveis em livros eróticos também, etc, e acho que é um reconhecimento de gênero do mercado editorial para o público alvo – o que deveria acabar é o fato de um cara sofrer preconceito só por ter um livro cor-de-rosa em mãos. É a mesma coisa com uma garota ser julgada por jogar videogame. Por causa da opinião alheia, a pessoa acaba se afastando do que gosta por medo da represália. Incentivar e apoiar o leitor é o melhor a se fazer. Eu sou autora de ficção fantástica, mas tenho um livro de comédia romântica sendo escrito, e quero que tanto minhas leitoras quanto leitores venham a ler sem se importar com o que a capa está dizendo. É um livro, é entretenimento, seja terror, romance ou fantasia, você tem que se sentir livre para se divertir com ele sem se importar com o que as pessoas vão pensar sobre isso – que é o tipo de pensamento que, na verdade, você tem que usar no dia a dia. Porque não somente as capas de livros são alvos do julgamento dos outros.

Anne: Pasmem: Um amigo meu me falou a mesma coisa com Garnet. Nem tem rosa na capa, nem é algo cheio de “frufru” e florzinhas. E ainda assim ele me disse a mesma coisa. Confesso que até demorei demais com essa pergunta porque, céus, olha onde já estamos! Até uma capa simples como essa já desencadeou um “não dá pra eu levar pro estágio porque parece livro de menininha”! Mas, imagino, o mercado editorial sempre tenta escapar de situações dessas. Eles sempre tentam buscar algo “neutro”, que consiga atingir o público-alvo (e atrair ainda além dele). E, quando isso não dá certo e sobra para os autores… Bem, eu tento mostrar que minha história compensa qualquer possível julgamento.

Larissa: É importante lembrar que a prioridade da editora é vender livros. Se uma história se passa no colegial, é narrada em primeira pessoa e tem uma menina como protagonista, não há dúvidas de que a maior parte do público será formada por garotas. Isso não quer dizer que meninos não possam ler ou gostar – significa apenas que eles não são o público alvo. Portanto, toda a estrutura física do livro – capa, cores, fonte, título – é pensada para atingir a parcela de leitores que tem mais potencial de comprar aquele livro. Como autora, eu sinceramente não sei o que eu posso fazer pra contornar a situação. Eu posso falar das referências nerds do livro, posso dizer que tem vários personagens garotos, posso citar mil e uma coisas, e mesmo assim não chegar até o leitor se o primeiro pensamento dele for “o que as pessoas vão pensar se me virem andando com um livro cor de rosa na rua?” Isso é delimitado por algo que está além de mim, um pensamento machista que se instaurou muito antes de eu começar a escrever, e que dita que um conjunto de coisas é feminino, e outro conjunto de coisas é masculino. Ironicamente, a nós, mulheres, cabe a liberdade de transitar entre todos os tipos de literatura sem o risco de julgamento aberto, mas aos homens a situação é mais complicada, por conceitos que eles próprios se impuseram. A ideia de que alguém pode rir de você pela cor da capa do livro que você está lendo me parece ridícula, mas acontece, especialmente entre os meninos mais novos. É algo que precisa ser trabalhado em casa, na escola e na vida – desfazer primeiro os ideais do que é “de menino” e do que é “de menina’ pra depois poder quebrar as barreiras da literatura.

Bárbara: É difícil, sabe, porque menina lê livro “de menino” sem problema, mas o inverso é muito complicado. Algumas vezes a capa nem precisa ser feminina, basta ver que o livro é escrito por uma mulher e que tem uma protagonista feminina para os meninos deixarem de lado. Isso é parte do machismo estrutural da nossa sociedade e é uma merda, porque os garotos perdem várias histórias maravilhosas por preconceitos bobos que são ensinados para eles desde o momento que eles saem do útero materno. Vários fatores influenciam a escolha de uma capa, mas o principal dele é a história. Se a história é considerada voltada para o público feminino, normalmente a capa seguirá o padrão das que já existem para dialogar com esse público e será rosa/roxo/sei lá que cor consideram de menina esses dias. Se é uma história com potencial para atingir meninos, as capas são mais neutras de gênero, buscando um equilíbrio entre “de menino” e “de menina”. Mas é engraçado quando você começa a pensar um pouco mais sobre o assunto, porque normalmente histórias “de menina” são histórias que não tem elementos fantásticos e são narradas por meninas, então tem um gênero bem específico. A ficção especulativa normalmente tem capas bem mais neutras! Quanto ao autor, acho que o nosso trabalho é convencer as pessoas de que a história que você escreveu é interessante e ponto, não importa o gênero de quem lê.

Iris: A capa do meu primeiro livro é super rosa e quando fui lançar o segundo, alguns leitores do sexo masculino pediram que o próximo fosse “menos rosa” ou “menos menininha”. O mercado editorial estipula públicos alvo para o livro, é normal. E acabam criando capas que atraiam esse público, baseado no que já existe por aí etc. Acho que é uma mentalidade coletiva, não dá para achar um culpado. A gente precisa enxergar o rosa como uma cor qualquer, assim como vemos vermelho, azul, laranja e verde.

Tammy: Uma vez um amigo disse que eu estava fazendo ele passar vergonha porque estava lendo Sou Toda Errada, meu 3º Livro, no aeroporto e o livro é todo rosa. Eu escrevo história de amor, mas acima de tudo livro jovem, então hoje eu penso sim nos leitores homens que eu tenho. Em Sonhei Que Amava Você a parte interna das capas ficou em tom de rosa velho. Fizemos uma capa mais discreta na questão feminina e sentimos que os dos grupos adoraram o resultado. Nenhum menino passará vergonha se estiver lendo na rua. Mesmo que a maioria de leitores seja de garotas, preciso pensar nos leitores que mantém contato direto comigo nas redes sociais.

Yasmin: Acho isso engraçado e trágico ao mesmo tempo: rosa, azul, amarelo etc. para mim são apenas cores, mas, com uma visão mais ampla pela sociedade, acho que dá para escolher cores mais neutras ou, no caso da Paula Pimenta, fazer um livro com alguns detalhes da capa em rosa. Isso é, se o leitor se sentir muito incomodado. Mas na minha opinião, gente: pega mal não, o que importa é o que está dentro do livro. É que nem geladeira: o que vale é o interior. (risos)

Para finalizar, gostaríamos de saber: Para você, qual a importância do feminismo na indústria do entretenimento?
Yasmin: Mostrar que o Feminismo não é um “mimimi”, uma coisa de mulher que “não tem louça para lavar”. Mostrar que é possível existir personagens e mulheres de carne e osso que podem ser fortes, inteligentes, cativantes assim como personagens masculinos. Afinal nem só de princesas indefesas se fazem histórias: também podem existir caçadoras de dragões.

Larissa: É fundamental. A ideia da igualdade tem que ser “vendida” desde cedo na nossa criação, mas se tudo que a gente consome no dia a dia vai contra esse ideal, então todo o trabalho acaba indo pelo ralo. Se nós, criadores de conteúdo, não propagarmos essa ideia, sobra muito pouco pra fortalecê-la. Tudo que a gente assiste, lê e ouve ajuda a formar nosso caráter, nossas opiniões, então é preciso ter cuidado com aquilo que se escreve, que se cria. Nosso trabalho afeta as pessoas, então melhor que afete de uma maneira positiva. Se eu não fizer a minha parte, não posso esperar que os outros o façam por mim.

Iris: O feminismo está aí para mostrar às mulheres que elas podem ser o que quiser, sem se preocupar com rótulos. Levar essa mensagem para o entretenimento é algo importante por ser a partir do cinema, da literatura etc., que muitos assuntos são discutidos. A gente precisa colocar esses assuntos em pauta e com cada vez mais naturalidade. Estamos no século XXI, não XIX.

Tammy: Eu acho importante que mulheres tenham um foco nelas também. Mas para mim o feminismo não é o que move as minhas histórias. Minhas personagens estudam, trabalham, têm sonhos enormes, mas não me cobro a dar lição de moral feminista. Mas com certeza, em tempos remotos, o feminismo fez com que mulheres olhassem suas próprias vidas. Livros já foram proibidos para mulheres. Escritoras tiveram que publicar com nomes de homens, então o feminismo aumentou as possibilidades do entretenimento, fazendo mulheres mudarem seus pensamentos quando se viam em histórias, filmes…

Denise: É a força que as personagens precisam para mostrar que não só de homens é feita uma boa ficção. Que uma mulher pode ser uma heroína, que pode começar e terminar guerras, que pode chorar por um amor perdido, que pode chutar traseiros, destruir e criar, que pode escolher ser forte ou fraca. A representatividade da mulher na ficção é ótima para meninas verem que uma garota também pode liderar uma história, tão bem, ou melhor, que um garoto; e é uma bela influência para questionar a educação de submissão recebida por nós.

Anne: Definitivamente muito importante. Precisamos mostrar cada vez mais que as mulheres podem. Podem ser heroínas, donas de casa, guerreiras, cantoras, cientistas, inteligentes, meigas, duronas, decididas, cada um desses ou tudo ao mesmo tempo! E, claro, sem esquecer o lugar dos rapazes. Precisamos, e muito, mostrar que não há superioridade ou inferioridade entre homens e mulheres, tampouco há coisas de menino e coisas de menina. Simplesmente há seres humanos, iguais e diferentes ao mesmo tempo, alguns melhores nisso, piores naquilo, outros o oposto, outros parecidos. E essa é a beleza do mundo. De certo modo, me entristece ter que falar em “provar” algo que já deveria ser muito óbvio. Mas é o que temos pra hoje, né? Quem sabe meus filhos não precisarão disso?

Renata: Como disse, quando se fala de feminismo, sou fã de Chimamanda Ngozi Adichie. Então não poderia finalizar sem incluir ela nas minhas conclusões. Acredito que tratar assuntos de frente é a melhor forma de desmistificá-los. Se no momento da nossa atualidade se faz necessário esse debate é para que num futuro ele esteja resolvido. Se deve haver feminismo para se defender o direito de escritoras serem tão reconhecidas quando os escritores, então vamos nessa! De alguma forma temos que nos inserir. Afinal não é gênero que define qualidade literária. Não é mesmo? Então vamos a Chimamanda: “Algumas pessoas me perguntam: “Por que usar a palavra ‘feminista’? Por que não dizer que você acredita nos direitos humanos, ou algo parecido?” Porque seria desonesto. O feminismo faz, obviamente, parte dos direitos humanos de uma forma geral — mas escolher uma expressão vaga como “direitos humanos” é negar a especificidade e particularidade do problema de gênero. Seria uma maneira de fingir que as mulheres não foram excluídas ao longo dos séculos. Seria negar que a questão de gênero tem como alvo as mulheres. Que o problema não é ser humano, mas especificamente um ser humano do sexo feminino. Por séculos, os seres humanos eram divididos em dois grupos, um dos quais excluía e oprimia o outro. É no mínimo justo que a solução para esse problema esteja no reconhecimento desse fato.” “Para quê serve a cultura? A cultura funciona, afinal de contas, para preservar e dar continuidade a um povo.”

Bárbara: Acho que já deu pra perceber que acho fundamental, né? O entretenimento é um instrumento poderosíssimo para quebrar paradigmas e reconstruir conceitos e o feminismo deve andar de mãos dadas com ele, mostrando a diversidade de mulheres que existe no mundo.

Entrevistadas

– Anne Lannes | twitter | site
– Bárbara Morais | twitter | site
– Denise Flaibam | twitter | site
– Iris Figueiredo | twitter | site
– Larissa Siriani | twitter | site
– Mareska Cruz | twitter | eu li, e agora?
– Nathália Campos | twitter | NUPE
– Renata Dembogurski | twitter | caderno da renata
– Tammy Luciano | twitter | site
– Yasmin Alves | site

 

Você pode conferir todas as entrevistas, completíssimas e separadas por entrevistadas bem AQUI.

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12 Comments

  • Reply
    Semana Coisa de Mulherzinha
    April 13, 2015 at 10:21 am

    […] Conversa de mulherzinha com autoras e blogueiras: feminismo na cultura pop | parte 1 | parte 2 […]

  • Reply
    Fernanda
    November 14, 2015 at 2:19 pm

    muito bom, concordo com a Renata

  • Reply
    Mara
    February 25, 2016 at 3:30 pm

    Excelente reflexão Iris, estou de acordo com que diz em relação ao feminismo, as mulheres precisam colocar mais em pauta esse tipo de assunto e com maior naturalidade.

    Beijos a todas

  • Reply
    bianca beatriz
    May 16, 2016 at 12:10 pm

    gostei muito, eu adora ler livros eróticos e ver filme porno porque os homem pensa que só ele podem ver filmes porno e as mulheres não, isso a puta ignorância dos homem

  • Reply
    Adriana A
    September 1, 2016 at 12:09 pm

    Estamos aí… somos Mulheres Poderosas, nada de Sexo Frágil não, podemos fazer o que quisermos, sermos o que quisermos, com quem quisermos e onde quisermos.
    Repudio estes machões que se acham superiores e donos da verdade.
    Nós mulheres temos sim que fazer o que bem entendermos, ver filmes pornôs, livros eróticos, sair com os caras até encontrar sua alma gêmea, ser feliz.
    Somos essenciais!
    Adorei o artigo.
    Abraços.

  • Reply
    flaviane
    January 4, 2017 at 10:06 am

    Nos mulheres somos poderosas adorei a opnião de cada uma beijos

  • Reply
    Eliane
    March 24, 2017 at 1:06 pm

    Adorei o bate papo, beijos

  • Reply
    Bruna Oliveira
    April 4, 2017 at 11:09 am

    Nós mulheres temos muito poder sim !! Parabéns adorei ler o seu texto apesar de um pouco longo, mas vale muito a pena além de ser muito inspirador para nós mulheres
    Bruna Oliveira recently posted..7 Dicas para conquistar um homem – Segredos da ConquistaMy Profile

  • Reply
    Vanessa
    April 25, 2017 at 5:35 pm

    muito bom adorei a opnião de cada uma beijos

  • Reply
    Bruna Fernandes
    July 24, 2017 at 5:43 pm

    Gostei muito dessa conversa de mulhersinha!
    kkkkkk

  • Reply
    Como Conquistar Um Homem
    August 22, 2017 at 8:36 am

    Nossa o seu site é realmente muito bom, acho que todo mundo deve ter uma oportunidade de ler os seus artigos na verdade são de extrema qualidade. Parabéns

  • Reply
    mara roseli
    September 24, 2017 at 2:03 pm

    Nossa, são várias opiniões de mulheres diferentes,o texto é longo, mas vale a pena ler até o fim, realmente nós mulheres temos que nos valorizar, e definitivamente não somos o sexo frágil.
    mara roseli recently posted..Mundo barba dia: 10 de diversão barba tendências para tentar ZeusMy Profile

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